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O valor dos recursos espirituais Milhares de autores ousaram explicar porque os países desenvolvidos se desenvolveram. Poucos me impressionaram tanto quanto Robert W. Fogel (The Fourth Awakening, Chicago: University of Chicago Press, 2000). Esse livro é fruto de profundas pesquisas e amadurecida reflexão. No centro de tudo, está o papel do conhecimento. Os povos que perceberam cedo a importância da educação, saíram na frente, mantiveram-se na dianteira, e, na maioria, são líderes nos dias atuais. No passado, o desenvolvimento dependeu dos ativos físicos - prédios, fábricas e máquinas. Atualmente, depende dos ativos humanos - conhecimento, relacionamento e instituições. A formação desses ativos é demorada. Por isso, é imprescindível investir corretamente nos primeiros anos de vida de cada geração. A história mostra que tiveram sucesso os países que, ao longo da história, cuidaram bem dos seres humanos. Por exemplo, já nos idos de 1850, o norte dos Estados Unidos, contava com 90% de sua população alfabetizada - exatamente o ano em que o Brasil tinha quase 90% de analfabetos. Dali para frente, os americanos universalizaram o ensino básico e estenderam a escola secundária para a maioria da população. O Brasil, só agora, no fim do milênio, matriculou 96% das crianças no primeiro grau. Nos Estados Unidos, isso ocorreu em 1890. De lá para cá, a sociedade humana se modificou tanto que a qualidade da educação passou a ser o ingrediente mais estratégico para se dominar os avanços tecnológicos e construir novas instituições. Surgiu uma nova necessidade: já não bastava ser educado. Era preciso ser bem educado. Os Estados Unidos entraram logo na educação de nível superior. No início do século XX, havia 232 mil estudantes nas universidades. Em 1930, eram mais de um milhão; em 1960, 14 milhões; e atualmente, mais de 40 milhões - praticamente o número de alunos que estão nas escolas públicas de primeiro grau do Brasil. O impacto desenvolvimentista da revolução educacional americana foi fantástico. Já em 1940, a maior parte dos trabalhadores de produção das indústrias daquele País ("blue-collars"), haviam completado o curso secundário. Só hoje, o Brasil mostra um pouco mais de um terço dos trabalhadores industriais com esse nível. Fogel explora um aspecto pouco destacado na literatura especializada. Para o desenvolvimento americano, a expansão das ciências do homem foi tão importante quanto o das ciências da natureza. Ao se inserirem nos órgãos do governo nas áreas da saúde, educação, trabalho, previdência, justiça e até na imprensa, os cientistas sociais (bem formados) foram inoculando naquelas instituições elementos de racionalidade na formulação e execução das políticas públicas que acabaram pautando o debate político (até hoje) com temas, idéias, dados e interpretações seguras - bem diferente dos insultos pessoais que dominam o confronto dos candidatos no Brasil. Mas o Autor vai mais longe e adentra no território dos chamados "recursos espirituais". Ele vê na disciplina de estudo, zelo pelo trabalho, e curiosidade para apreender continuamente os elementos essenciais para um povo fazer o seu País desenvolver. É disso que surge uma ética do trabalho, segundo a qual, trabalhar é visto como parte da responsabilidade individual e não como um fardo desagradável do qual as pessoas têm se livrar. Isso faz muita diferença. Há uma grande distância entre o desempenho das pessoas bem preparadas que trabalham com gosto e das que, além de precariamente educadas, trabalham por obrigação. Quando se mistura informação com recursos espirituais de qualidade, emerge um poderoso caudal de forças sociais, cuja sinergia é capaz de milagres - talvez o menor deles..., o de desenvolver de uma nação. Olhando para o caso da educação no Brasil, acabamos de vencer a batalha da quantidade na escola de primeiro grau. Foi um grade passo, sem dúvida. Mas, em vista das exigências do mundo atual, é muito pouco. Esse mundo está requerendo, por atacado, o que ainda formamos a conta-gotas. É inadiável encetar uma luta grandiosa e continuada em favor da melhoria da qualidade da educação. Teremos de lançar mão de todos os meios, mesclando os métodos convencionais com os da educação à distância. Isso vem sendo feito até mesmo pelos povos que já têm boa educação. Em 1999, cerca de 40% das empresas americanas tinham, pelo menos, um curso on-line para seus funcionários. Para o ano 2000, isso deverá dobrar. As aulas virtuais são uma alternativa concreta (CNI, Educação e Redes Digitais, Brasília, 2000). Nessa alternativa, porém, não se pode esquecer que a presença do professor é fundamental para orientar os alunos. Mais do que tudo, é ele que tem a importante função de formar os recursos espirituais: a curiosidade, a autoestima e a ética do trabalho. Não há razão para copiarmos o que os outros países fizeram e continuam fazendo. Mas há menos razão ainda para ignorar o que deu certo no campo da educação. O livro de Fogel e este artigo não são críticas a ninguém. São convites para se fazer as coisas certas.
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