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- No Paraíso não havia nem templos e nem altares. Como o Paraíso foi o jardim plantado por Deus, jardim onde se encontravam todas as coisas boas sonhadas pelo Criador, concluímos que os templos e os altares não se encontravam entre os seus sonhos. Não eram objetos do seu desejo. Se ele tivesse sonhado um templo ou altar, é certo que ele os teria feito. Segundo o que os religiosos acreditam, templos e altares são a casa de Deus. Deus mora lá. Reza feita na igreja é mais poderosa. É por isso que os piedosos fazem o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja. No Paraíso não havia templos e altares porque Deus estava misturado com todas as coisas. Sua casa não era uma casa de quatro paredes. Eram as árvores, as flores, os frutos, as fontes, o vento... O poema bíblico da criação diz que Deus passeava pelo jardim ao vento fresco da tarde... Deus é uma palavra para ser calada, proibida de ser dita. Por isso os judeus eram proibidos de dize-lo. O nome Deus, para eles, era um grande silêncio. E de tanto fazer silêncio sobre ele, acabaram por esquecê-lo. Havia uma lenda de que, no dia mais sagrado do ano o Sumo Sacerdote entrava no Santos dos Santos, lembrava-se do nome de Deus e o pronunciava. E o universo inteiro o ouvia. Mas imediatamente todos o esqueciam. Quando se começa a falar o nome de Deus, é certo que se está falando sobre outra coisa que não Deus. Fala-se sobre Deus quando ele foi perdido. Para reencontrá-lo é fácil: basta caminhar em silêncio em um jardim. - Pessoas religiosas fazem longas e penosas viagens, peregrinações, para visitar lugares santos. Não há lugares santos. Dizer que um lugar é santo, que ali o sagrado está mais presente do que em outros, é dizer que há lugares em que Deus está menos presente, como se ele os tivesse abandonado. E isso, a se acreditar nos teólogos, é negar a onipresença de Deus – o que é heresia. O universo inteiro é hóstia. O místico não é o milagre grosseiro: o paralítico que volta a andar, o cego que volta a ver, o ladrão que pára de roubar, seres do outro mundo que aparecem em cavernas ou são pescados do fundo de rios. Milagre é o arabesco da asa de uma borboleta; o vôo do beija-flor; o perfume da magnólia; a flor do trevo; a cachoeira; o arco-íris; uma noite estrelada; o pasto rosa com as flores do capim gordura; a chuva; o canto do sabiá; um caramujo; uma teia de aranha; a amizade.... Milagre são meus olhos, os meus ouvidos, as minhas mãos. Não é preciso fazer peregrinações. Tudo é milagre. O universo é um milagre. Mas aqueles que vendo nada vêem procuram milagres em lugares esquisitos.
- Você não é bobo. Não acredita em qualquer coisa. Sabe distinguir o possível daquilo que é mentira. Eu lhe digo que no meu sítio há uma raça de gansos verdes de três pernas que botam ovos quadrados. Você não acredita. O seu filho lhe diz que no seu quarto há um elefante cor de rosa soprando bolinhas de sabão verdes. Você não acredita. Ou o menino está fazendo uma brincadeira ou ficou louco. A inteligência "testa" as idéias para saber se elas são dignas de crédito. Agora me explique: por que é que, quando se entra no campo da religião, as pessoas estão prontas a acreditar em qualquer coisa que uma outra pessoa lhe diz? Será que, para se ter sentimentos religiosas é preciso abandonar a inteligência?
- "Manhã de domingo. Jardim. A menininha chorava Queria chupar um sorvete. A mãe dizia que ‘não’. As roupas e o jeito diziam que eram pobres. Um senhor, compadecido da dor da menininha, ofereceu-se para comprar-lhe o sorvete. A menininha respondeu: ‘Não adianta. A gente, além de ser pobre, é crente.’" Foi-me contado pelo Jether Ramalho.
- Oração de uma criança: "Que os maus não sejam tão maus e que os bons não sejam tão chatos. Amém." - Estória que me contaram: "Havia certa vez um homem que dizia nome de Deus. Quando o coração lhe doía por uma criança que chorava, ou um pobre que mendigava, ele andava até a floresta, acendia o fogo, entoava canções e dizia as palavras. E Deus o ouvia... O tempo passou. Voltou à mesma floresta. Mas não carregava fogo nas mãos. Só lhe restou cantar as canções e dizer as palavras. E Deus o atendeu ainda assim. Um tempo mais longo se foi. Sem fogo nas mãos, sem força nas pernas, não alcançou a floresta. Mas do seu quarto saíram as mesmas canções e as mesmas palavras. E Deus lhe disse que sim. Chegou a velhice. Nem floresta nem fogo ou canções. Restaram as palavra. E o mesmo milagre ocorreu. Por fim, sem fogo ou floresta, sem canções ou palavras. Só mesmo o infinito desejo e o silêncio: e Deus atendeu..." - Depois de 45 anos voltei a subir no Castelo. Quando aluno do Seminário Presbiteriano, na década de 50, eu e alguns colegas íamos lá para ver o põr-de-sol. As ruas eram de terra. Não havia casas. Apenas campos e eucaliptos. Em agosto o capim gordura florescia. Cor-de-rosa. Perfumado. O bonde "10" chegava até lá. Fiquei feliz por ter conseguido subir as escadas sem precisar de parar no meio da subida, para tomar fôlego... Lá do alto se vê uma Campinas que eu nunca vira. Vista do alto a cidade é muito bonita. Há uma ilusão de tranquilidade. Lembrei-me dos versos de Tomás Antônio Gonzaga: "São estes os sítios? São estes. Mas eu o mesmo não sou..." Não sou o mesmo. Envelheci. E fiquei diferente. Muito diferente. Parabéns à Prefeitura. E pelo projeto de mapas dos caminhos e lugares que merecem ser visitados. Não consigo não dar um palpite... Sugiro um mapa das árvores a serem visitadas: julho, ipês rosa. Agosto, ipês amarelos. Setembro, ipês brancos. Novembro, flamboyants. Acho que o Instituto Agronômico poderia ajudar. Poderia até, ele mesmo, conseguir patrocínio para os Mapas das Árvores, a serem distribuídos pelas escolas, clubes, igrejas. Amar as árvores faz parte da cidadania. Leia outros artigos de Rubem Alves no site oficial do educador |
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