Sobre casamentos e cavalos: Tive uma companheira de olhos azuis
tristes que, por muitos anos, esteve silenciosamente presente em
minhas sessões de análise. Ela se chamava Angel. Era uma cadela
Weimaraner. Jamais fez qualquer gesto hostil, jamais rosnou. Era
como se não estivesse lá, deitada, cabeça apoiada entre as pernas.
E eu tive um paciente que tinha um sentimento de desprezo em relação
ao seu pai que, segundo julgamento seu, não passara de um pedreiro
de segunda classe. Pois, numa bela manhã, ao entrar na sala, ele
se deparou com a Angel deitada, que o olhava com seus olhos azuis.
Ele se deitou no divã e disse: "Não gosto de cachorros. Não gosto
de gatos. Não gosto de animais." Aí ele fez uma pausa, como se uma
nova idéia tivesse entrado na sua mente, e se corrigiu: "Não, eu
gosto de cavalos." E continuou: "Me contaram eu não vi que meu
pai foi o maior domador de cavalos que jamais existiu." Aí a sua
fantasia voou solta e ele começou a falar sobre o seu pai o pedreiro
de segunda classe era agora um herói! - cavalgando cavalos selvagens
e triunfando sobre eles. Parou e meditou num sussuro: "É assim.
Os cavalos selvagens são domados. Transformam-se em cavalos mansos,
bons para serem montados." Pausa. "Acho que o casamento é assim.
A gente é cavalo selvagem, indomável. Até o momento em que se apaixona
por uma mulher. Fica manso de repente, vai até ela e lhe diz: ŒPode
me montar¹... Ela aceita o convite, põe arreio, freio, rabicho,
aperta a barrigueira, calça esporas e monta. E a gente vai marchando
de mansinho, obediente às ordens, à rédea, à espora... Quando ela
quer ela apeia, amarra o cabresto num poste, e a gente fica lá,
paciente, trocando pernas, abanando as moscas com o rabo, esperando.
Ele não vai nos abandonar nunca porque um cavalo manso marchador
é coisa que não se joga fora. Vai cavalgar com o corpo. Mas a sua
alma estará sempre voando a galope no cavalo selvagem..."
Sobre a criança na velhice: Um amigo
que está sofrendo a tristeza de ir ficando velho me escreveu e me
fez essa pergunta: "O que fazer para permanecer jovem? O que fazer
para, na velhice, continuar a ter o desejo de viver?" Acho que essa
é pergunta mais dolorosa que fazem aqueles que se vêem envelhecer.
É o tema do filme Morte em Veneza, baseado num livro de Thomas Mann:
um homem maduro, na fronteira da velhice - seus bigodes já estão grisalhos
e as rugas marcam o seu rosto - num hotel de Veneza, vê um jovem adolescente
que brinca na praia. Aquela imagem de juventude se apodera dele com
uma força insuportável. A imagem do jovem o atormenta e ele dele se
enamora. Não tem nada a ver com homossexualidade. Não é isso que está
em jogo. Na imagem do jovem ele vê a sua própria juventude perdida.
O espelho é um sofrimento. Especialmente quando o espelho são os olhos
de uma jovem que se levanta e, com um sorriso, nos oferece o seu lugar
no metrô... Continuar a ser jovem sendo velho? Eu acho que isso é
possível. O apóstolo Paulo, sentindo a mesma coisa, disse: "Embora
o nosso homem exterior se corrompa, o nosso homem interior se renova
dia a dia." Claro, há coisas que são perdidas, definitivamente. A
pele, por exemplo: as rugas, a flacidez, a secura. Mas, com a perda,
há ganhos. Na juventude a pele é a face exterior da musculatura. Ela
nada revela, a não ser os músculos. Na velhice a pele deixa de ser
a superfície exterior dos músculos e passa a ser a superfície exterior
da alma. Os músculos podem ser obstáculos à manifestação da alma.
Na velhice a pele é o meio através do qual a alma se torna visível.
Especialmente o rosto. Livre das intermediações da musculatura a alma
pode então realizar sua função artística de esculpir o rosto. Ela
aparece no rosto. Acontece, então, a ocasião para que se realize o
prometido pelo evangelista João: "... e o Poema se faz carne". Tudo,
então, vai depender dos poemas que estão guardados na alma. Pois a
alma é apenas isso: o lugar onde os poemas estão guardados. E o rosto
vai então revelar uma beleza que a juventude não deixava ver. Ou,
quem sabe, o inverso, uma feiura que a juventude não deixava ver.
Velhice é o tempo da verdade da alma. Os velhos terão rosto de criança
se a criança eterna continuar viva dentro deles. E a criança, como
disse Zaratustra, é "inocência e esquecimento, um novo início, uma
brincadeira, um moto-contínuo, um primeiro movimento, um 'Sim' sagrado..."
. As crianças jamais desejam ser aposentadas de ser crianças. O terrível
e mortal é quando o homem se aposenta. Não estou me referindo simplesmente
ao momento em que não é mais necessário comparecer ao trabalho. Estou
me referindo àquele momento quando um homem ou uma mulher atracam
o seu barco e sem entregam à tola ilusão de, finalmente, ter paz.
Mas paz, precisamente, é o que a alma não deseja. A alma deseja o
perigo, o desconhecido. A alma é uma águia que ama as alturas, as
montanhas geladas, o mar desconhecido, os abismos. A alma é guerreira:
Pugno, ergo sum luto, logo existo. É preciso que haja sempre uma
batalha a ser travada. A paz desejada (o sonho do "Sítio do Vovô"...)
logo se transforma num charco de água parada. A segurança é a mãe
do tédio. E no tédio as serpentes chocam seus ovos. "Homens velhos
devem ser exploradores, não importa onde... Temos de estar sempre
nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma união mais
alta, de uma comunhão mais profunda... Nos movendo através de uma
desolação escura, fria e vazia: o grito das ondas, o grito do vento,
as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos: no meu fim está o meu
início" (T. S. Eliot ) Nikos Kazantsakis é um autor que precisa ser
lido. Dentre todos os seus livros, todos eles maravilhosos, o que
fala mais perto do meu coração é Zorba, o Grego... Quem viu só o filme
nada viu. Tentei ver o filme, pensando que seria igual ao livro, e
não consegui chegar ao fim. Acontece que há certas sutilezas na escrita
que não podem ser transformadas em imagens. Está relatado que Zorba,
velho e doente, ao ver que a morte já estava dentro do seu quarto,
levantou-se da cama, foi até a janela, e por longos minutos contemplou
com sorriso e silêncio os cenários que se abriam à sua frente, o mundo
maravilhoso, ao fundo as montanhas. De repente, pôs-se a relinchar
como um cavalo, agarrou-se à janela e disse: "Um homem como eu deveria
viver mil anos!" Ditas essas palavras ele caiu morto... Zorba morreu
criança.
Sobre crianças e velhos: Albert Camus
(pronuncia-se Œcamí¹) diz que em Atenas havia um templo dedicado à
velhice. A esse templo os pais levavam os seus filhos...
Sobre o sexo na velhice: Na adolescência
e juventude o sexo é um vulcão incontrolável em constante erupção,
sem precisar que alguma causa exterior o provoque. Ele explode porque
explode, porque não consegue segurar o fogo que lhe queima as entranhas.
Aí, num orgasmo de fogo e cinza ele ejacula lava incandescente que
escorre e vai na direção do mar, na esperança de que a água fria o
acalme. Assim é o sexo na adolescência e na juventude: o que os homens
querem é que as mulheres esfriem o seu fogo. A função das mulheres
é apagar o fogo. Aí o tempo passa. Vem a maturidade, vem a velhice.
O vulcão fica tranquilo. Até parece que ficou inativo. Ficou não.
É que os fogos dos vulcões velhos são fogos diferentes. Parecem-se
mais com os fogos de artifício. Os foguetes: quietos, frios, sem cor,
inertes. Mas o seu fogo não acabou. Está à espera de alguém que o
acenda. Aceso por alguém, o foguete sobe falicamente numa erecção
vertical na direção do céu, para explodir em milhões de estrelinhas
coloridas. Na maturidade e na velhice o sexo dos homens está à espera
de alguém que o acenda. E se, na juventude, a mulher apagava o fogo,
na maturidade e na velhice ela tem o poder se quiser de acender
o fogo. Claro, para que a mulher acenda o fogo é preciso que ela ame
as estrelinhas coloridas...
Sobre a solidão na velhice: Na Europa,
nos prédios velhos, era comum que os canos de água passassem a descoberto
por dentro dos apartamentos. E, naquele tempo, não havia canos de
pvc. Eram todos canos de ferro. A Tomiko, que estuda as coisas do
ficar velho, me contou a linda estória do jardineiro japonês e da
Fräulein, que eu transformei numa crônica. Faz algum tempo ela me
contou outra estória. Duas velhinhas amigas moravam num mesmo prédio.
O apartamento de uma ficava bem em cima do apartamento da outra. Ao
lado de suas camas passava, na vertical, um cano de ferro. Elas tinham
um acordo. Todas as manhãs aquela que acordasse primeiro bateria no
cano de ferro e a outra responderia. Faziam isso porque tinham medo
de morrer e que ninguém descobrisse. Assim, quando a outra respondia
às batidas da primeira elas sabiam que as duas continuavam vivas.
A estória da Tomiko termina aqui. Mas eu imagino que deve ter havido
um dia em que a velhinha bateu no cano e não houve resposta. Bateu
mais uma vez, e outra e mais outra e era só o silêncio...
Rubem
Alves é educador, escritor, psicanalista e professor
emérito da Unicamp.