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Escola da Ponte – 4 Imaginar
não faz mal. Pois imagine que você é uma mãe das antigas. E sua
filha vai se casar. Mãe responsável que você é, você a chama e lhe
diz: “Minha filha, você vai se casar. Desejo que seu casamento seja
durável. Casamento durável depende do amor. E você nada sabe sobre as
artimanhas do amor. O que você está sentindo agora não é amor; é
paixão. Paixão é fogo de palha. Acaba logo. Casamento não se
sustenta com fogo que acaba logo. Vou lhe ensinar o segredo do amor
permanente, o fogo que não se apaga nunca. Você deve aprender o
segredo do fogo que faz o coração do seu marido arder, no dia a dia.
Pois bem, saiba que o caminho para o coração de um homem passa pelo
estômago. O casamento não se sustenta com o fogo da cama. Ele se
sustenta com o fogo da
mesa. Vou lhe dar o presente mais precioso, o “Livro de Dona Benta”,
centenas de receitas. Mas não só isso,
vou lhe ensinar todas as receitas desse livro maravilhoso.” Ditas
essas palavras você, mãe, dá
início a um programa de
culinária, uma receita depois da outra, na ordem certa. Cada dia sua
filha deve aprender uma receita e, uma vez por mês, você faz uma
avaliação da aprendizagem. Ela deve ser capaz de repetir as receitas. É
claro que isso que eu disse é uma tonteria. Ninguém ensina a cozinhar
assim. Não é possível saber todas as receitas. Por que ter de saber
todas as receitas, se elas estão escritas no livro de receitas? A gente
aprende uma receita quando fica com vontade de experimentar aquele prato
nunca dantes experimentado. O ato de aprender acontece em resposta a um
desejo. “Quero fazer, amanhã, uma “vaca atolada”.” Como é que se faz
uma “vaca atolada”, se nunca fiz? É só procurar no livro de
receitas, sob o título “vaca atolada”. A gente lê e aprende porque
vai fazer “vaca atolada”... Pois
os programas de aprendizagem a que nossas crianças e adolescentes têm
de se submeter nas escolas são iguais à aprendizagem de receitas que
não vão ser feitas. Receitas aprendidas sem que se vá fazer o prato
são logo esquecidas. A memória é um escorredor de macarrão. O
escorredor de macarrão existe para deixar passar o que não vai ser
usado: passa a água, fica o macarrão. Essa é a razão por que os
estudantes esquecem logo o que são forçados a estudar. Não por falta
de memória. Mas porque sua memória funciona bem: não sei para que
serve; deixo passar... Na
“Escola da Ponte” a aprendizagem acontece a partir de pratos que
vão ser preparados e comidos. Por isso as crianças aprendem e têm
prazer em aprender. Mas, e
o programa? É cumprido? Pergunta tola. É o mesmo que perguntar se a
jovem casadoira aprendeu todas as receitas do “Livro de Dona Benta”...
É claro que o “Livro de Dona Benta” não é para ser aprendido.
Programas não podem ser aprendidos... São logo escorridos. Quando
visitei a “Escola da Ponte” o tema quente era a descoberta do Brasil
e tudo o mais que a cercava. As crianças estavam fascinadas com os
feitos dos navegadores seus antepassados nessa aventura,
mais ousada que a viagem dos astronautas à lua.
Imagine agora que
algumas crianças tenham ficado curiosas diante do assombro tecnológico
que tornou os descobrimentos possíveis, as caravelas. Organizam-se num
grupo para estudá-las. Um
diretor de escola rigoroso e cumpridor dos seus deveres torceria o
nariz. “ O tema “caravelas” não consta de nenhum programa nem aqui e nem em
nenhum outro lugar do mundo”, ele diria. E concluiria: “Não constando de nenhum programa não deve ser objeto de estudo.
Perda de tempo. Não vai cair no vestibular.” Acontece
que uma caravela é um objeto no qual estão entrelaçadas as mais
variadas ciências. As caravelas são um laboratório de física. Parece
que a caravela brasileira, construída para comemorar o descobrimento,
teve de retornar ao ancoradouro, por perigo de emborcar. Um famoso vaso
de guerra sueco, o Wasa, se
não me engano do século XVI, virou e afundou depois de navegar por
não mais que 400 metros. Retirado do fundo do mar há cerca de 25 anos,
ele pode ser visto hoje num
museu de Estocolmo. O que havia de errado com o Wasa e a caravela
brasileira? O que havia de errado tem, em física, o nome de “centro
de gravidade”. O “centro de gravidade” estava no lugar errado. O
tal centro de gravidade é o que explica por que os bonequinhos chamados
“João Teimoso” não caem nunca! A regra é: para não emborcar, o
centro de gravidade do navio deve estar abaixo da linha do mar. Essa é
a razão por que os navios, frequentemente, têm necessidade de um
lastro – um peso que faz com que o centro de gravidade se desloque
para mais baixo. Se o centro de gravidade estiver fora do lugar, o navio
vira e afunda. Os
estudantes aprendem, em física, como parte do programa abstrato que
têm de aprender, uma regra chamada do “paralelogramo” – regra de
composição de forças. Duas forças incidindo sobre um ponto,
uma delas F1, a outra F2, cada uma numa direção diferente. Para
onde se movimenta o objeto
sobre o qual incidem? Nem na direção de F1, nem na direção de F2.
Diz essa regra que o objeto vai se movimentar numa direção que
se determina pela construção de um “paralelogramo”. É o que se
chama de “resultante”. Os alunos aprendem a resolver o problema no
papel mas não sabem para que ele serve na vida. E o
aprendido escorre pelos furos do “escorredor de macarrão”...
Pois é essa regra que explica, teoricamente, o mistério de um barco
que navega numa direção contrária à do vento. Se o barco estivesse
à mercê do vento ele só navegaria na direção em que o vento sopra,
situação essa que tornaria a navegação impossível. Quem se
aventuraria a navegar num barco que só navega na direção do vento e
não na direção que se deseja? Mas os navegadores descobriram que, com
o auxílio de uma outra força, de direção distinta da direção do
vento, é possível fazer com que o barco navegue na direção que se
deseja. E é essa a função do leme. O leme, pela resistência da
água, cria uma outra
força que, colocada no ângulo adequado, produz a
direção de navegação desejada. Os alunos aprenderiam melhor
se, ao invés de gráficos geométricos,
eles fosse instruídos na arte da navegação. Da física
passamos à história, a influência de Veneza, dominadora do
Mediterrâneo com seus barcos, sobre a tecnologia lusitana de
construção de caravelas. Da história para a astronomia, a ciência da
orientação pelas estrelas. O astrolábio. A bússola. Daí, para esses
assombros simbólicos chamados mapas – que só fazem sentido para o
navegador se ele conhecer a arte
de se orientar, a direção
do norte, mesmo quando nada
pode ser visto, a não ser o oceano que o cerca por todos os lados. (
Olhando para a lua, de noite, você
é capaz de dizer a direção do sol?).
Dos mapas para a literatura, a “Carta de Pero Vaz de Caminha”,
a poesia de Camões, a poesia de Fernando Pessoa: “Ó
mar salgado, quando do seu sal são lágrimas de Portugal! Por te
cruzarmos quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! Valeu a
pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer
passar além do Bojador tem de passar além da dor. Deus ao mar o
perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.” Aceitemos
um fato simples: um programa cumprido, dado pelo professor do princípio
ao fim, é só cumprido formalmente. Programa cumprido não é programa
aprendido – mesmo que os alunos tenham passado nos exames. Os exames
são feitos enquanto a água ainda não acabou de se escoar pelo
escorredor de macarrão. Esse é o destino de toda ciência que não é
aprendida a partir da experiência: o esquecimento. Quanto
à ciência que se aprende a partir da vida, ela não é esquecida
nunca. A vida é o único programa que merece ser seguido.
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