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O presidente Bush tinha um grande sonho. Sonhava transformar o seu país numa bolha imensa que fosse, ao mesmo tempo, auto-suficiente e impenetrável. Ser auto-suficiente é não precisar de ninguém. Quem precisa de um outro é fraco. E a idéia de fraqueza não combina com os Estados Unidos... País imenso, de todos o mais rico, de todos o mais forte, de todos o que mais sabe: ele se basta a si mesmo... Auto-suficiente, não precisa dar ouvidos ao que o resto do mundo tem a dizer. E foi assim que Bush iniciou o seu governo: com gestos claros, anunciou que o seu país era auto-suficiente, não dependia de ninguém e seguiria o seu caminho, indiferente ao resto do mundo: não assinaria o Protoclo de Kyoto. Faz tempo que os cientistas vêm chamando a atenção do mundo para o aumento crescente das emissões do gás CO2 - o principal responsável pelo efeito estufa. O que se teme é que o efeito estufa venha a causar um impacto catastrófico sobre o clima e o meio ambiente, o que colocaria em perigo a vida e a própria civilização. Mas isso não acontece da forma espetacular como um ataque terrorista, embora seja mais letal. É como a ato de fumar: a morte demora a chegar... Em 1997 houve uma reunião em Kyoto em que as nações participantes elaboraram um Protocolo relativo a esse perigo. Esse protocolo estabelecia que os países industrializados deveriam reduzir em 5.2% as emissões de CO2, até 2012. Os Estados Unidos são responsáveis por 25% das emissões totais de CO2. Assim, seria indispensável que o governo norte-americano assinasse o referido protocolo, para que ele tivesse consequências práticas: essa era uma questão vital para o mundo inteiro. Pois Bush iniciou o seu governo anunciando que os Estados Unidos não o assinariam. Com esse ato Bush condenou natureza e pessoas, o mundo inteiro, a "fumar passivamente" os venenos gasosos que são produzidos por sua prosperidade. Globalização sim! Mas alto lá!. Só em relação a questões econômicas e militares. Questões ambientais não entram na globalização... Mas o seu sonho era mais ambicioso. Não bastava que os Estados Unidos fossem auto-suficientes. Teria que ser um país impenetrável. Planejou então cobri-lo com um gigantesco escudo defensivo que o protegeria de quaisquer ataques que lhe viessem de cima. Porque de baixo ninguém se atreveria. Imaginei que essa fantasia deve ter sido inspirada pelas imagens dos guerreiros medievais em armaduras de ferro que nenhuma flecha ou espada poderia penetrar. O país sonhado por Bush: impenetrável como um guerreiro medieval... A psicanálise ensina que, frequentemente, o cômico é uma defesa contra o horror. Como estou dominado pelo horror, imagens cômicas começaram a vir em meu socorro. Formigas lava-pé. Seus formigueiros não parecem formigueiros. Sua aparência é a de uma crosta de terra lisa, inofensiva. Mas ela é fofa. E, debaixo dela, centenas, milhares de formigas, ínfimas, velocíssimas, que se lançam de forma suicida ao ataque, tão logo a crosta do seu formigueiro seja rompida. Elas sobem pelos pés, pelas pernas, entram dentro dos sapatos, das meias, no meio dos dedos - e vão espalhando suas picadas de pimenta por onde quer que passem. A vítima, então, tem de fugir do campo minado, arrancar sapatos, as meias, suspender as calças e atacar as formigas aos tapas e esfregões. Ao final, mortas as formigas, pés e pernas doloridos e inchados, parece que a vítima no final triunfou. Engano. Foi um triunfo passageiro. Porque os formigueiros possuem uma capacidade assombrosa de auto-regeneração e multiplicação. Dos milhares de ovos brancos da formiga-rainha novas formigas, pequenas, velozes, guerreiras, venenosas e suicidas, surgirão. O formigueiro será reconstruido, talvez num outro lugar. E lá elas ficarão se reproduzindo, à espera... A cena cômica que me apareceu foi essa: dois guerreiros medievais, em luta no campo de batalha. Os golpes das espadas ressoando e resvalando pelas armaduras de ferro. Batalha feroz! Mas, repentinamente, um deles pisa num formigueiro de formigas lava-pé. A batalha horrenda se transforma, então, numa coreografia ridícula: o guerreiro brandindo a espada com uma das mãos e saltando sobre uma perna só, enquanto se esforça freneticamente com a outra mão para descalçar os sapatos de ferro em cujo interior as ínfimas formigas lava-pé fazem o seu trabalho... A primeira lição das torres foi: não há armaduras sem frestas. Formigas lava-pé penetram por qualquer fresta. Mas o comportamento do presidente Bush mostra que ele não compreendeu a lição. Atira-se furiosamente contra o formigueiro, ignorando que há frestas mais terríveis que torres, frestas que a força não pode tapar. Imaginei que Bin Laden - se é que foi ele mesmo - do seu esconderijo, poderia fazer um ataque mais sutil, só de palavras. Bastaria anunciar: "Deixamos uma bomba atômica armada numa das grandes cidades dos Estados Unidos a ser detonada quando o ataque americano se iniciar!" Puro blefe. Mas o pânico da população seria mais terrível para o país que a explosão das torres. E há as terríveis frestas criadas pelo desenvolvimento científico: bactérias mortais que podem ser levadas em tubos de ensaio, a serem abertos imperceptivelmente, em metrôs, igrejas, super-mercados, teatros, bancos, bolsas de valores... Não há armaduras impenetráveis. Todas as armaduras tem frestas. Ou aprendemos a conviver como seres racionais ou estamos condenados a uma violência cada vez maior. Bush ignora o mundo quando o que está em jogo são os interesses das nações e dos povos, no sentido de uma política de vida e de paz. Bush convoca e ameaça o mundo quando o que está em jogo é a sua sua política de morte e guerra.
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