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A Terra Minhas netas: coisa gostosa é brincar! Brinquedos dão alegria: bonecas, pipas, piões, bolas, petecas, balanços, escorregadores... Os brinquedos podem ser feitos com os mais diferentes materiais: madeira, plástico, metal, pano, papel. Mas há brinquedos que são feitos com algo que a gente não pode nem tocar e nem pegar: brinquedos que são feitos com palavras. Uma piada é feita com palavras. Piadas são brinquedos porque não servem para nada mas fazem a gente rir! Aquela música "era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada..." é também um brinquedo feito com palavras. Poetas são as pessoas que fazem brinquedos com palavras. Pena que haja muitas pessoas que não saibam brincar com os brinquedos feitos com palavras chamados poemas! É uma pobreza! Eu faço brinquedos com palavras. As coisas que escrevo são brinquedos. Se vocês lêem o que escrevo e gostam é porque vocês estão brincando com o brinquedo de palavras que fiz. As palavras têm estranhos poderes. Um deles é tornar possível brincar com coisas que não existem. Unicórnios, elefantes voadores, bois que falam, flores que choram, um pé de feijão que cresce até atingir os céus: essas coisas não existem. Mas nas estórias elas existem. Shakespeare, um famoso escritor inglês, escreveu uma das mais lindas estórias de amor jamais escritas: Romeu e Julieta. Ao ler as palavras que Shakespeare escreveu, Romeu, Julieta e o seu amor ficam vivos muito embora nunca tenham existido. Nunca existiram de verdade, mas existem na alma da gente. A alma é esse estranho lugar onde coisas que nunca existiram existem. No final da estória todo mundo chora... Outro brinquedo que se faz com palavras se chama História. Estória e História são palavras parecidas mas são muito diferentes. As estórias são feitas com coisas que nunca aconteceram. A História é feita com coisas que aconteceram no passado. Não existem no presente. Mas, pelo poder das palavras, elas se tornam presentes. A História, assim, é um turismo que a gente faz por tempos e espaços que não existem mais. É isso que temos estado fazendo. Entramos na minha "Máquina do Tempo" e fomos para o passado da minha infância, que não existe mais. Mas, pela magia das palavras, ele está voltando a existir. Prova disso foi a carta da Dina, que publiquei no domingo passado. A Dina, menina de 86 anos, lendo o que escrevi, fez turismo pelo mundo da meninice dela, e ficou triste e alegre... No nosso turismo pelo mundo das coisas que não existem mais, o mundo da História, nós já visitamos a casa de pau-a-pique, o fogão de lenha, a mina d'água. Hoje vamos andar por um outro lugar. Mas, para chegar lá, vou ter que dar uma volta. A criancinha, durante o tempo em que está na barriga da mãe, não tem que fazer nada para viver. Não precisa respirar. Não precisa comer. A mãe faz tudo por ela. Mas é só ela sair da barriga da mãe para ela ter que fazer coisas para viver. A primeira coisa que a criança faz ao nascer é respirar. A primeira respiração é o início da vida em que ela terá de fazer coisas para sobreviver. Se não respirar, morre. Mas, depois de respirar, a primeira coisa a ser feita para não morrer é comer. Não é preciso ensinar o corpo que é preciso respirar. Ele já nasce sabendo. Não é preciso ensinar o corpo que é preciso comer. Ele já nasce sabendo. Prova disso é a boquinha da criança mamando o vazio, mesmo antes de ter sido apresentada ao seio da mãe. O ar, não é preciso procurar. Ele está em todo lugar. Mas a comida não está em todo lugar. Está no seio da mãe. É preciso procurar. Vocês já viram aquelas ninhadas de cachorrinhos recém-nascidos, se arrastando, empurrando, lutando para chegar até as tetas da mãe? Por vezes há mais cachorrinhos que tetas e, se não houver quem ajude, os mais fracos morrem de fome. As criancinhas, mais incompetentes que os cachorrinhos, são incapazes de procurar o seio. É preciso que a mãe as ajude. O leite das mães acaba. Mas a fome não acaba. É preciso, então, encontrar um substituto para o seio. Os bichos e os homens vão então procurar comida na natureza. A natureza é o grande seio de onde tiramos comida. A fome é a necessidade fundamental que nos move. Vocês não se dão conta disso porque a geladeira está sempre cheia. Se a geladeira estivesse vazia e não houvesse o que comer vocês compreenderiam. A fome dói muito. Os nossos antepassados pré-históricos saíam pelos campos e florestas procurando frutas, ervas e raízes que servissem para comer. Mas, como saber o que é bom para comer? Raízes, há milhares de variedades. Como foi que chegaram a descobrir aquelas que eram boas para comer? É possível que tenham tido enormes indigestões e cólicas, chegando mesmo a morrer, ao experimentar raízes venenosas, como é o caso da mandioca. Era uma felicidade quando, de repente, descobriam o ninho de alguma ave, cheio de ovos! Ou uma colméia de abelhas, cheia de mel. Era uma festa! Caçar era mais complicado porque os animais não ficam parados como as frutas e as raízes. Eles não são bobos. Não querem virar comida. Eles também querem viver! Era preciso correr atrás deles. Mas os animais são rápidos e os homens são lerdos. E os pássaros, que voam? A inteligência teve de trabalhar para inventar a arte de atirar pedras, de construir arcos e flechas, de armar armadilhas, arapucas, anzóis, redes. Quando eu era menino eu gostava de fazer arapucas e pegar passarinhos. Não era por maldade. Naquele tempo era preciso. Armando uma arapuca e pegando um passarinho eu me sentia - sem saber - como um caçador pré-histórico ou um indiozinho que consegue flechar seu primeiro pássaro. Com que orgulho ele deveria mostrar o seu feito aos seus pais! Estava ficando grande! Estava se tornando capaz de encontrar alimento. Mas era uma canseira! Acordar, todo dia, sem saber o que vai comer! "Será que vamos encontrar frutas? Será que vamos encontrar ovos? Será que vamos caçar alguma coisa?" Aí os nossos antepassados perceberam que seria mais fácil ter os bichos presos num cercado e as plantas crescendo num lugar próximo. Assim iniciou-se a domesticação dos animais e a agricultura. Quem vive de caçar e de colher frutos não pode ficar num mesmo lugar. Tem de ir andando por onde estão as frutas e por onde andam os animais. Assim, não podiam ter casas fixas. Andavam com suas casas nas costas, feito caramujos. Viviam em tendas. Tendo as plantas e os animais num lugar fechado eles podiam construir casas fixas. Você acorda de manhã. Está com fome. O que é que você faz? É fácil. Vai à geladeira. Está tudo lá dentro. A geladeira é um maravilhoso substituto para o seio da mãe. É o seio da casa! É só abrir a porta e comer. Falta alguma coisa? É só ir no supermercado, grande seio da cidade. Lá tem de tudo. Não é preciso plantar, colher, caçar. Frutas, legumes, ovos, mel, leite, pão, chocolate, manteiga, presunto, mortadela, azeitona, macarrão, lingüiças, carnes, bebidas: está tudo lá. E não só as coisas necessárias para matar a fome. Muitas coisas que comemos sem precisar, sem estar com fome, só por prazer. O prazer de comer é um perigo. Por causa dele muitas pessoas comem demais e vocês sabem o resultado... Compramos se tivermos dinheiro. Supermercado e geladeira não são seios de mãe. Seio de mãe é gratuito. Geladeiras e supermercados não são. Só come quem pagar... Por isso há muitas pessoas que têm fome - que chegam a morrer de fome (enquanto outros ficam obesos de comer aquilo de que não precisam...) Lá, no lugar onde vivi, não havia nem geladeira e nem supermercados. Não havia seios prontos. Se a gente quisesse comer tinha de ir atrás da comida, tinha de construir o seio: fazer uma horta, plantar, criar galinhas, patos, perus, porcos, cabritos, bois... Assim, quando se fazia a pergunta "o que vamos comer?" não havia geladeira para ser aberta. A gente tinha de perguntar: o que é que há na terra? Claro: só havia na terra aquilo que havia sido plantado. Feito a fábula da cigarra e da formiga: quem não plantou vai ficar com fome. A coisa mais importante era a terra. A terra é o seio do mundo. Não é em qualquer terra que as plantas crescem. Era preciso procurar a terra boa. O pessoal que vivia no campo só de olhar para os matos que crescem naturalmente, sem ser plantados, sabia se a terra era boa ou não. Quando a terra era boa eles diziam e ainda dizem, com prazer: "Terra gorda!" Terra que tem muita vida para dar. Na cidade as pessoas passaram a ter medo da terra, a achar que terra é sujeira. Essa é a razão por que, em muitas casas, os jardins são substituídos por lajotas. Deixam só um buraco bem pequeno no meio, onde plantam um arbusto solitário e triste. A terra mesmo, com sua vida, fica debaixo das lajes que estão sempre limpas... Mas terra não é sujeira. Terra é vida. É na terra que a vida cresce. Na próxima vez que você for ao supermercado, preste atenção: tudo o que está lá veio da terra. Garrafas de vinho? Veja as parreiras carregadas de uvas! Pão? Veja os campos cobertos de trigo! Carne? Veja ao animais pastando! Iogurte? Vem do leite que vem da vaca que come capim... Macarrão? Vem da farinha que vem do trigo que cresce nos campos... Ovos? Vêm das aves que comem milho que cresce da terra. Por isso, por compreender que toda vida vem da terra, os homens de há muitos séculos atrás perceberam que ela é sagrada. Sem terra não há vida. Terra, grande mãe, fonte de vida! E houve mesmo religiões que, por ocasião do plantio da terra, faziam grandes celebrações nos campos que terminavam em orgias sexuais. Pois plantar não é um ato sexual? Faz-se um buraco na terra e, dentro desse buraco, coloca-se uma semente. Assim, durante a semeadura, os casais faziam amor no meio do campo - na esperança de que a terra compreendesse que era isso que estava sendo feito com ela: um ato de amor. Esperando que, desse ato de amor, nascesse a vida! DICAS: · Uma boa idéia para as escolas: plantar uma horta! Sei que há muitas que já fazem isso. Não só o prazer de plantar! O prazer de aprender ciência enquanto se planta: física mecânica, presente no uso das ferramentas; química, no uso dos fertilizantes: biologia... Grande e divertida idéia é fazer um minhocário. Saúde. Plantas que curam.
Coisa triste: ver
o lixo que as pessoas jogam nos jardins públicos: latas de cerveja,
garrafas de plástico, maços de cigarro... Já imaginaram?
Alguém fazer isso com a sua própria horta? Jogar lixo
no seio da própria mãe? Bom seria se houvesse punição
forte para quem assim ofendesse a terra!
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