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Acho que estamos chegando. Estou sentindo cheiro de capim gordura. Capim gordura era um capim que cobria os pastos. Os bois e as vacas comiam. Tinha um cheirinho bom, de que não me esqueço. Quando o capim floria, os campos ficavam cor-de-rosa porque as flores do capim gordura são cor-de-rosa. Naquele tempo a gente sentia bem o cheiro das plantas. E também porque estou vendo uns ipês amarelos floridos. Precisou que os prédios, carros e asfalto desaparecessem para que os ipês floridos nos campos aparecessem. A gente deixa de ver umas coisas para poder ver as outras... Uma casa branca com janelas e portas azuis, sozinha, no meio dos pastos! Lá longe, umas choupanas... Eu não nasci aqui. Nasci na cidade. Nossa Senhora das Dores da Boa Esperança. Naquele tempo toda cidade tinha nome de santo. Os moradores punham nomes de santos nas cidades para se sentirem protegidos. É sempre bom ter uma Nossa Senhora como protetora. O nome era comprido. Deixaram a Nossa Senhora de lado. Ficou só Dores da Boa Esperança. Mas também esse nome era comprido. Ficou só em Dores. Assim, eu nasci em Dores... Meu pai, o bisavô de vocês - ele tinha um nome esquisito, nunca vi igual: Herodiano. Eu não colocaria nome de Herodiano num filho meu. O curioso é que havia outros Herodianos. O que me disseram é que houve, lá, um juíz, importante, que falava difícil e bonito e que se chamava Herodiano. Parece que toda mãe queria que seu filho fosse importante, falador difícil e bonito como o Doutor Herodiano... Daí os Herodianos. Ô nome complicado. Mais fácil um apelido: Diano. Era assim que meu pai era conhecido. Pois ele, seu bisavô, era rico. Tinha uma casa chique, com alpendre. Ah! Você não sabe o que é alpendre? Alpendre era o nome para o lugar da casa que hoje tem o nome de varanda. Com jardim, pé de manacá perfumado, jasmim, pé de romã, vidros nas vidraças, portas com fechaduras, assoalho de tábuas, encerado, água encanada, torneiras, privada com descarga de puxar cordinha e banheira. Um conforto. Nasci em casa. Nessa casa chique. Naquele tempo crianças não nasciam em maternidades. Cada cidade tinha as suas parteiras. Parteiras eram mulheres que haviam aprendido com outras parteiras mais velhas as técnicas de ajudar as mulheres grávidas a pôr seus filhos no mundo. Não, não tinham curso de enfermagem. Não haviam ido à escola. Muitas delas nem sabiam ler. Acho que quando nasci minha mãe ficou desapontada. Ela já tinha três meninos. Tinha rezado muito para que eu fosse uma menina. Não fui. Ela teve de se conformar. Fui o último. Caçula. Meu pai era dono da única loja boa da cidade, tinha casas, fazendas, era dono do cinema mudo e até negociava café com países estrangeiros. Mas aí deu um sarapiteco numa tal de "Bolsa de Nova Iorque" e quem era rico ficou pobre. Não me peçam para explicar. Eu não entendo direito essas coisas de "Bolsa"... Meu pai perdeu tudo o que tinha. Não foi o único. No mundo inteiro homens muito ricos ficaram pobres da noite para o dia. Muitos não agüentaram a perspectiva da pobreza, a humilhação de não ter dinheiro, e preferiram se matar. Meu pai não. Ele tinha a capacidade de sempre ver alguma luzinha no fim do caminho. E assim, aos quarenta anos, com quatro filhos pequenos, pobre, sem nada, ele se preparou para recomeçar a vida do zero. Abandonado pelos amigos. Porque rico quando fica pobre - os amigos desaparecem. Quando era rico tudo era festa. O Diano pagava as contas. Agora, o Diano quebrado, havia sempre o perigo de que ele pedisse algum dinheiro emprestado... Um cunhado, fazendeiro, lhe propôs: "Vá tomar conta da minha fazenda!" Meu pai não tinha outra alternativa. Aceitou. E foi assim que vim morar nessa casa branca com portas e janelas azuis, sozinha no meio dos campos. Do tempo passado de riqueza eu não me lembro nada. Minhas memórias começam aqui, onde acabamos de chegar. Tudo é diferente! Tudo é novidade! Que estranho: que as coisas velhas, que não existem mais, possam ser novidade! Nessa casa velha, por exemplo, tudo é novo para vocês. Vocês nunca viram uma casa assim. A começar pelo degrau de entrada, que é uma pedrona assentada na terra! Naquele tempo não havia casas de materiais de construção. Na cidade era possível comprar tijolos para com eles fazer as casas. Nas cidades havia olarias, que são os lugares onde se fazem e se queimam os tijolos. Tijolo, para ser forte, tem de ser queimado em forno. Mas aqui, longe de tudo, não havia tijolos. As pessoas têm de aprender a se virar com o que têm. Se não há tijolos para construir as paredes o jeito é fazer as paredes sem tijolos. Se não há cimento o jeito é fazer as paredes sem cimento. Pois os esquimós não fazem seus iglus com pedaços de gelo? E os índios brasileiros, com paus e folhas de palmeiras? E os índios da América do Norte, com paus e couro de animais? Inteligência é isso: saber usar o que se tem para se fazer o que se deseja. E foi assim, usando a inteligência, que o nosso matuto inventou um jeito de construir casas sem ferro, sem tijolos e sem cimento: pau-a-pique. Uma casinha de pau-a-pique, das bem pobrezinhas, se faz assim: primeiro se escolhe um lugar plano que é limpo de todos os matos e pedras. Depois, nos cantos da casa que vai ser (até o mais pobre, antes de começar a fazer a casa no terreno, já fez a casa nos pensamentos. Nos seus pensamentos está a "planta" da casa...) fincam-se paus de madeira forte, que não apodreça com a umidade. Depois amarram-se com cipó (não havia pregos) nos paus fincados, paus colocados em cima, na horizontal. Amarram-se também paus nos lugares onde vão ser as portas e as janelas. E paus para o futuro telhado. Feita essa armação forte, trança-se, entre os paus, uma grade de paus finos. A casa fica parecendo uma prisão ou, quem sabe, um galinheiro. Aí vem a parte divertida. Os amigos se reúnem em mutirão para amassar barro grudento. Tem de ser grudento porque, se não for, quando o barro secar, as paredes se esfarinham. Um segredo técnico: se se misturar bosta de vaca com o barro, o barro fica mais forte, dá mais liga. Das vacas se usa tudo, dos chifres à bosta. E esse é o nome que tem de ser falado. Bosta. Não serve cocô. Não serve fezes. Não serve excremento. De vaca, é bosta. Se não for bosta não dá liga e nem serve para adubar. Aí começa a brincadeira. Um grupo de dentro da casa e outro de fora. Cada um com seu monte de barro. E começam a por o barro na treliça de madeira. É assim que começa. Mas freqüentemente termina de outro jeito, especialmente se os construtores forem jovens. É fácil passar do "por" o barro para "jogar" o barro... Mas as treliças são buracos amarrados com pauzinhos. O barro passa para o outro lado e acerta a cara de quem está do lado de lá - e o mutirão se transforma numa batalha alegre... Não há telhas para cobrir o teto. Teto se faz com sapé amarrado. Sapé é um capim que cresce nos campos. Não serve para nada. Só para cobrir. Está pronta a casa, de chão batido. Faltam duas coisas. As camas, que se fazem com paus fincados no chão e bambus atravessados - tem o nome de "jirau" - onde se põe o colchão de palha de milho, e o fogão de lenha. A casa da fazenda onde morei foi feita com a mesma tecnologia, melhorada, porque era casa de fazendeiro. Tinha assoalho de tábuas de madeira, levantado do chão, por causa da umidade. As paredes eram mais grossas. A casa era maior. Tinha sala de visitas, sala de jantar, quartos e cozinha. As janelas e portas eram feitas com maior capricho. As paredes eram pintadas de branco porque a cal com água era a tinta mais fácil e mais barata. Não sei explicar de onde vinha a tinta azul. Os primeiros moradores dos Estados Unidos também pintavam a madeira de suas casas de azul. Produziam tinta azul misturando a gordura do leite com umas amoras azuis que lá crescem selvagens pelos campos: blueberries. Você pergunta
pelo banheiro... Ah! Não havia banheiro. Aquela era a casa da música
do Vinícius: "Era uma casa muito engraçada..."
Quem quisesse fazer xixi ou cocô tinha duas alternativas. Primeira:
fazia ao ar livre, nas moitas de bananeira, atrás de alguma árvore.
E assim as coisas eram devolvidas à circulação natural
da vida, transformadas em adubo. Ou - segunda alternativa - podia fazer
uso da "casinha". Eu me lembro que, no grupo onde estudei, quando
algum menino da roça queria ir ao banheiro ele levantava a mão
e pedia: "Fessora, posso ir na casinha?" A casinha era uma casinha
de 1,50m por 1,50m (faça essa medida no chão, para você
ter uma idéia do tamanho), com uma porta, sem janela. No meio havia
um buraco fundo, coberto com um assoalho de madeira, no meio do qual havia
um buraco... Era assim! "Ninguém podia fazer xixi, porque
privada não tinha ali." Mas tinha penico. Porque de noite,
com chuva, quem era doido de sair no escuro, onde rondavam lobisomens
e almas do outro mundo, para ir até a casinha? Estão achando
isso estranho? Pois eu lhes digo que no famoso palácio de Versailles,
dos reis perfumados da França, não havia um só banheiro.
Mas havia penicos em abundância... Imaginem agora: um rei com coroa
na cabeça, uma rainha com coroa na cabeça, assentados num
penico...Claro: eram penicos artísticos... Leia outras crônicas no site pessoal de Rubem Alves |
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