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Há, nas cavernas da minha memória, um calabouço escuro onde moram horrores. Horrores que experimentei, horrores que eu vi, horrores que me contaram. Começando nos dias negros da ditadura. Amigos lindos perseguidos, presos, torturados, mortos. O medo estava misturado com o ar que se respirava. E era inútil pedir justiça porque não havia a quem pedir justiça. Os Anjos da Guarda, com suas asas brancas e espadas flamejantes – também eles haviam sido acorrentados e silenciados. O tempo passou e a ditadura chegou ao fim. Os Anjos da Guarda puderam de novo voar para realizar a sua missão de usar suas espadas em defesa dos fracos. Mas os horrores continuaram. Assassinatos, seqüestros, chacinas, torturas, gatunagem, corrupção, o império das drogas, o contrabando das armas, a lavagem de dinheiro, o roubo do dinheiro do povo por empresários, funcionários públicos, políticos e juízes. Mas estes eram horrores do lado podre da sociedade que aconteciam sob a proteção do escuro. Os criminosos se valem sempre do escuro por saberem que, se seus crimes vierem a público, os Anjos da Guarda, defensores da lei, os apanharão. Os Anjos da Guarda eram motivo de esperança. Mas agora eu me defronto com um horror que nunca imaginei que pudesse acontecer embora as Sagradas Escrituras já tivessem apontado para essa possibilidade. Pois elas falam de um anjo, o mais luminoso de todos, Lúcifer - nome lindo que quer dizer "aquele que carrega a luz" – que, embriagado com sua própria luz, inchou e ultrapassou os limites que o Criador lhe havia dado. Também os Gregos estavam conscientes do pecado de ultrapassar os limites e tinham, para ele, um nome especial: hybris. Eles sabiam que a hybris sempre levava à tragédia coletiva e à destruição do índividuo culpado. Foi o que aconteceu com Lúcifer: o anjo portador da luz se transformou em anjo portador das trevas. É aí que está o horror que nunca imaginei que pudesse acontecer. Olho para os Anjos da Guarda que me davam alegria e vejo que suas asas, seus rostos e suas palavras passaram por uma estranha metamorfose. Especialmente suas palavras. Eles falam coisas que nunca imaginei que pudessem falar. Há a possibilidade de que meus olhos estejam doentes e que eu não esteja compreendendo o que vejo. E há a possibilidade de que, talvez, a velhice me tenha tornado surdo. Mas, que posso fazer? Só tenho esses olhos, só tenho esses ouvidos... E é com esses olhos e ouvidos que vejo, ouço e penso. Nos Anjos já não vejo luz. Vejo sombras que prenunciam noite. É um doloroso sentimento de abandono, de não mais ter a quem apelar. Essa metamorfose perversa se iniciou quando se começou a falar em reforma da previdência. Vou explicar a reforma da previdência tal como eu a entendo, por meio de uma parábola. Todos nós, povo, estamos num mesmo barco, no meio do oceano. Esse barco nos une num mesmo destino. O que acontecer ao barco vai acontecer a todos nós. Em tempos idos acreditava-se que o barco jamais afundaria. Também pensavam assim os fabricantes, os tripulantes e os passageiros do Titanic... Acontece que esse barco em que estamos, por nome "Previdência", vem se enchendo cada vez mais, há vários anos. O número de passageiros e suas bagagens cresce sem parar. Mas qualquer pessoa sabe que os barcos têm limites. São muitos os casos de barcos que naufragam por excesso de passageiros. Com o aumento do número de passageiros aumenta o peso do barco. Com o aumento do seu peso o casco do barco vai mergulhando cada vez mais no mar. Suas bordas já ultrapassam o nível da água. A água está entrando. Se continuar assim o barco afundará com todos os passageiros: nós. Só existe uma maneira para se impedir o naufrágio: aliviar a carga. É preciso que os passageiros joguem ao mar parte da sua bagagem. Todos devem abrir mão de direitos estabelecidos outrora, num tempo em que se acreditava que o barco não afundaria. Ninguém deseja o naufrágio. Mas ninguém aceita a solução. Quando se trata de jogar parte da bagagem ao mar todos gritam: "Minha bagagem não, minha bagagem não..." Os passageiros do barco "Previdência" se articulam para garantir o que consideram ser os seus direitos adquiridos. Isso é compreensível, especialmente quando se trata das modestas bagagens dos pobres. E é compreensível que eles não entendam que o barco vai afundar. O que me espanta não é o clamor dos pobres. O que me espanta é o clamor dos ricos que se recusam a lançar ao mar qualquer parte de suas bagagens enormes e se articulem para garantir o que consideram seus "direitos adquiridos". É o caso dos protestos dos juízes. Li que um deles, indignado, declarou: "Querem nos colocar na vala comum!" Parece que ele se esqueceu que esse é, precisamente, o princípio democrático que afirma serem iguais perante a lei. Todos, sem distinção, vamos para a vala comum... O que não se admite numa democracia é que haja grupos que tenham "privilégios" que os outros não têm. A palavra "privilégio" quer dizer "lei privada", lei feita para beneficiar apenas um grupo. George Orwell, no seu livro Revolução dos Bichos, conta a estória de uma revolução que os animais fizeram numa fazenda. Expulsaram o fazendeiro e trataram de estabelecer um sistema democrático. Sua lei magna estava escrita com letras enormes na parede do celeiro. "Todos os bichos são iguais". Numa bela manhã, entretanto, ao acordar, os bichos viram que alguém, durante a noite, havia escrito um adendo à referia lei: "Mas uns bichos são mais iguais que os outros." É isso que anjos outrora brancos estão a proclamar no Brasil. Somos "mais iguais". Por serem "mais iguais", eles têm direito a "privilégios". Têm direito a um sistema previdenciário especial. Abaixo o "barco comum". Exigem um barco só para eles... O outro barco que afunde sozinho. Há tempos me decidi a me dedicar a coisas menores, ao alcance de minha mão. Mas a declaração de um juiz me assombrou tanto por sua presunção e arrogância que não mais pude conter as palavras. Eis o que declarou o Meritíssimo (o que tem muitos méritos...) presidente da Associação dos Magistrados de Minas, Doorgal Bordes de Andrade, tal como registrou o Jornal do Brasil (22/07/03): "Vamos fechar todos os fóruns e impedir a entrada de funcionários e advogados. Queremos repercussão internacional para afugentar os investidores do país. O governo tem de saber que não vale a pena brigar com o Judiciário". Não tive notícia de que tal declaração tenha sido repudiada por outros juízes. Assumo, portanto, que ela está em harmonia com pelo menos parte do espírito que move o Judiciário. Essa declaração pode ser considerada de dois ângulos: o ângulo psicanalítico e o ângulo político. De um ponto de vista psicanalítico ela não pode ser tida como um pensamento novo, provocado pela ameaça aos privilégios financeiros dos juízes. Ela já se encontrava latente, na cabeça do juiz, sob uma forma larvar. Somente na cabeça desse juiz, ou será ela parte de um inconsciente judiciário coletivo? De um ponto de vista político trata-se de uma declaração subversiva, incitação à ilegalidade. Nela está explícita a lógica do seqüestrador. Pois, o que faz o seqüestrador? O seqüestrador, valendo-se de sua força, se apossa de uma pessoa ou de um avião e diz: "Se não fizerem o que ordeno eu mato o seqüestrado ou faço explodir o avião". O juiz sugere que o Judiciário, pelo uso da força, feche todos os fóruns e impeça a entrada dos funcionários. Mas eu sempre entendi que são os criminosos e marginais que fazem uso da força para atingir os seus objetivos. Os juízes, assim eu pensava, sustentam que todas as pendências devem ser resolvidas dentro da lei. O juiz em questão, Presidente da Associação dos Magistrados de Minas, na lógica de um seqüestrador, incita o Judiciário a ameaçar o país: que a repercussão internacional seja tal que os investidores fujam. Ele sugere, assim, para manter seus privilégios, que o Judiciário seja o provocador de um caos econômico. E termina dizendo que o governo tem de aprender que com um Judiciário valentão não se brinca porque ele está disposto a matar o seqüestrado para que sua carteira não seja atingida. Friedrich Nietzsche tem um aforismo magistral: "Perdoar o que você fez comigo é fácil. Mas como perdoar o você fez com você mesmo?" Ai, senhores Juízes! Que foi que os senhores fizeram com os senhores mesmos? Que fizeram com a sua imagem de Anjos da Guarda? O que os senhores fizeram com a sua imagem é irreversível. E é inútil voltar atrás. Nós já os vimos. E aquilo que se vê é inesquecível. Sua imagem está definitivamente manchada de negro. Observem o desenho que ilustra essa crônica. Ele saiu da genialidade de Escher. Anjos Brancos entrelaçados, formando um bordado. Há pureza nos seus rostos. Mas – e aqui se encontra o terrível desse desenho – os contornos dos Anjos Brancos fazem os contornos de Anjos Negros, vampirescos. Antigamente eu só via os Anjos Brancos. Agora vejo os Anjos Negros nos seus intervalos... PS. Veja o documentário sobre o pianista Nelson Freire no cine Paradiso. É fantástico! Leia outros artigos de Rubem Alves no site oficial do educador |
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