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Era uma vez um rei de coração muito bom e de cabeça muito tola. O seu coração era bom porque o que ele mais desejava era que todos os que moravam no seu reino, crianças, homens, mulheres e velhos, vivessem sempre alegres. E a sua cabeça era tola porque acreditava que ele, rei, tinha o poder de fazer realizar os desejos do coração por meio de decretos. Assim, para que todos
os seus súditos vivessem alegres, sua cabeça tola baixou
o seguinte decreto: Qualquer decreto, para funcionar, precisa ser regulamentado. Os regulamentos de um artigo explicam como o artigo deve ser obedecido. Assim, o rei chamou os seus ministros e lhes ordenou: "Regulamentem o Decreto da Alegria." Os ministros se apressaram a obedecer as ordens do rei. E pensaram: se todas as tristezas são proibidas a primeira coisa a se fazer é dar nome a todas as coisas que produzem tristeza. Puseram-se, então, a fazer uma lista das coisas que produzem tristeza a serem proibidas. Um dos ministros lembrou que há muitas músicas que fazem o coração ficar triste. Aí um outro ministro comentou com o outro, baixinho: "Não é estranho que as pessoas gostem de ouvir músicas que dão tristeza? Eu mesmo" - ele acrescentou mais baixinho ainda, por medo de ser ouvido -"choro todas as vezes que ouço a Valsinha, do Chico. Eu gosto da tristeza da Valsinha, razão porque eu não me canso de ouvi-la..." Mas decreto de rei não pode ser questionado. E assim eles se puseram a trabalhar e fizeram uma lista enorme das músicas que dão tristeza a serem proibidas dali para frente. A lista começava com a Valsinha, passava pelo "Adagio" da Sonata ao Luar de Beethoven e terminava com um coral de Johann Sebastian Bach. Sim, os ministros sabiam muito sobre músicas que dão tristeza. Aí um ministro falou: "As poesias! Eu choro todas as vezes que leio a Elegia, da Cecília Meireles." Ato contínuo começou a recitar os primeiros versos da Elegia mas teve de parar porque as lágrimas começaram a saltar dos seus olhos e os soluços eram demais. Os outros ministros foram contagiados pela tristeza e trataram de tirar lenços dos seus bolsos para enxugar suas próprias lágrimas. Concordaram então, imediatamente, que a Elegia da Cecília trazia tristeza, e se apressaram a colocá-la no "Index Librorum Prohibitorum". E aí, em meio a soluços, cada um deles foi mencionando os seus poemas mais queridos, que os faziam chorar e que nunca mais seriam lidos. Terminada a lista de poemas que faziam chorar eles passaram aos quadros que faziam chorar. Pinturas de Grünenwald, Michelangelo, Van Gogh, Portinari, Picasso... E que dizer de fotografias? Fotografias de tempos passados felizes, um tempo que se foi: quanta tristeza elas provocam! Depois os filmes que faziam chorar e as peças de teatro... Quem consegue não chorar ao ver Romeu e Julieta ou o Fale com ela? Um dos ministros observou
então que também os pores-de-sol produziam tristeza, bem
como os sabiás, cantando no fim das tardes. Determinou-se, então,
que além da proibição das obras de arte supra-citadas,
também os pores-de-sol seriam proibidos, bem como os sabiás
e o seu canto. "Terminamos a
lista das coisas que dão tristeza", disse o ministro que presidia
a reunião. Temos, agora, de fazer a lista das coisas que dão
alegria. Se as coisas que dão tristeza são proibidas, as
coisas que dão alegria serão obrigatórias. No Reino
da Alegria a alegria será obrigatória. Quem não estiver
alegre estará quebrando o decreto do rei. E quem quebrar o decreto
terá que ser punido." Começaram, então, a fazer a lista das coisas que dão alegria e que seriam obrigatórias. Festas. Nas festas é obrigatório estar alegre. Nas festas, ai daqueles que estão com caras tristes... Churrascos com cerveja, comilanças, banquetes... Bebidas alegram o corpo e a alma: aperitivos, caipirinhas, caipiroskas, cerveja, vinhos, gin tonic, uísque e, de forma especial, as champanhes que se abrem com estouro, espuma e risos... Danças sim, mas só as rápidas e acrobáticas. Dança lenta com rosto colado produz melancolia... Terá de haver som, preferencialmente trios elétricos, pelo seu volume. O volume do som dos trios elétricos não deixa lugar algum para vida interior, que é o lugar onde mora a tristeza. Nada de conversas sérias. Em seu lugar, piadas. Desde pequenas as crianças serão educadas na arte de contar piadas e de rir das piadas. Também o hino nacional do Reino da Alegria foi alterado para atender ao decreto do rei, e ficou parecido com as músicas dos Mamonas Assassinas que faziam todos rir... Terminado o hino, ao invés de aplausos, todos deveriam dar risadas. Filmes cômicos, especialmente os pastelões. Fogos de artifício. Serpentinas. Confete. E presentes. Nada existe que dê mais alegria que presentes. E assim o decreto foi publicado e regulamentado. Quando as tristezas ficaram sabendo do decreto do rei elas ficaram muito mais tristes do que já eram. E sentindo que não eram amadas naquele país, trataram de se mudar para outros países onde as pessoas eram amigas das tristezas. E foi assim que, durante a noite, quando todos estavam dormindo, as tristezas silenciosamente e chorando se foram à procura de um lugar onde pudessem morar e fazer amigos... Morava naquele país uma menininha que tinha algumas tristezas que lhe eram muito queridas. Uma delas era a memória de uma cadelinha alegre, companheira de brincadeiras, que havia morrido. Quando a menina se lembrava da cadelinha ela ficava triste e chegava mesmo a chorar. Mas não queria se esquecer dela. Ela amava a sua cachorrinha e o amor não troca a tristeza da memória de uma cadelinha que morreu pela alegria de não mais se lembrar dela. Uma outra tristeza querida acontecia quando ia dormir e a sua mãe lhe cantarolava uma música, a Berceuse de Brahms. Ouvindo sua mãe cantar ela ficava com uma tristezinha mansa e adormecia. Ficava triste também quando via os cabelos brancos do seu pai e pensava que ele estava envelhecendo e que chegaria o dia em que ele morreria. Não queria abandonar essa tristeza pois era ela que a enchia de ternura pelo seu pai a quem tanto amava. Mas agora suas tristezas amigas haviam se mudado e ela estava sozinha e sendo obrigada a estar alegre mesmo quando não queria. Pois a menina resolveu procurar suas tristezas. Encheu uma mochila com roupa e comida e de noite, quando seus pais dormiam, saiu de casa e foi à procura das tristezas... para poder ficar alegre de novo. (continua) |
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