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Meu
pai me contou que, quando era menino, no início do século
passado, guardava seus brinquedos num saco. Os brinquedos que meu pai
menino guardava no saco: latas vazias, pedaços de barbante, sementes,
sabugos de milho, botões, pedaços de pau, pedrinhas e todo
tipo de coisas inúteis. Quando alguém aparecia para visitar
minha avó ele pegava o saco de brinquedos e o esvaziava diante
da visita. Certamente achava seus brinquedos interessantíssimos!
A mãe dele ficava furiosa e lhe aplicava o devido corretivo de
chineladas depois que a visita ia embora. A chinela era um dos itens favoritos
que minha avó guardava no saco de brinquedos dela. As crianças
continuam as mesmas. Ainda gostam de mostrar brinquedos. A gente cresce
e continua criança. "Em todo homem há uma criança
que deseja brincar..." (Nietzsche). E todos temos o nosso saco de
brinquedos. A fala somos nós abrindo o saco e despejando brinquedos...
O saco de brinquedos: isso é de fundamental importância,
quando o amor está em jogo. A paixão acontece quando, fascinados
por uma imagem pode ser um jeito de olhar, um jeito de sorrir,
um jeito de falar... - imaginamos que dentro daquele corpo de imagem fascinante
estão guardados os brinquedos com que gostamos de brincar. O que
vemos é a imagem da pessoa amada, mas o que imaginamos são
os brinquedos que julgamos guardados dentro dela. A imagem, sozinha, logo
se transforma em monotonia. Na Escola da Ponte havia um computador com dois arquivos: "Acho Bem" e "Acho Mal". Qualquer pessoa podia escrever neles os acontecimentos que davam alegria e os acontecimentos que davam tristeza. Sugestão: que os jornais sejam divididos em duas seções. Uma de nome "Acho Bem", em cores alegres. Outra, de nome "Acho Mal", em cores sinistras. Assim, o leitor poderia escolher o seu menu: ou comidas de cheiro bom ou pratos em decomposição. Coisa que não entendo é a preferência do povo por notícias putrefatas. "Menino de onze anos trabalha como engraxate para sustentar a avó paralítica": isso jamais seria manchete. "Menino de onze anos mata a avó paralítica para roubar dinheiro": isso seria notícia que todos leriam avidamente. Um filósofo chamado Feuerbach disse que nós somos o que comemos. De tanto comer comida suína chegamos a nos parecer com os porcos. Meu amigo Brandão, na época do escândalo dos "anões do orçamento", há muito esquecidos, se queixava: "Lendo os jornais a gente tem a impressão de que o Brasil é formado por bandidos. Mas há coisas lindas acontecendo de forma silenciosa e invisível, pessoas que vivem por ideais altos e lutam pela justiça e pela verdade..." Será que nós, humanos, sofremos de uma doença inata, um pecado original que nos faz preferir o pútrido, o escabroso, o indecente, o violento? Os homens da mídia vivem repetindo que o dever dos jornais e da televisão é dar a "notícia". Mas "notícias", há milhares delas espalhadas pelo mundo. O que me espanta é o critério que se usa para pinçar, das milhares que há, aquelas notícias que irão ser servidas aos leitores como comida. É preciso reconhecer que os jornais e a televisão são os fatores mais importantes na educação do povo. Jornais e televisão têm a missão ética de contribuir para que o povo seja melhor. Se o povo só se alimentar de comidas pútridas ele passará a gostar do pútrido. E, ao final, ficará também pútrido.
O que você faz bem, pode fazer bem para alguém. Seja um voluntário! Procure a FEAC. Tel. 3794-3519. Leia outras crônicas no site pessoal de Rubem Alves |
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