| ||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Compreendo as razões que moram na cabeça do presidente Bush. Paz e violência não podem conviver. É preciso pôr fim à violência para se viver em paz. Não há mais lugares seguros em nosso mundo. Vão as pessoas vivendo tranquilamente as suas vidas e, repentinamente, explode o horror. Basta que haja pessoas reunidas para que o terrorismo ataque. E para tornar a situação ainda mais terrível, há os Estados que secretamente constróem arsenais de armas de destruição em massa: bombas atômicas, foguetes, armas bacteriológicas, armas químicas. Às vezes tenho pesadelos de fim do mundo e de repente cuidar dos meus jardins, coisa tão mansa, perde o sentido. Olho os casais sorridentes com seus filhinhos nos braços. E fico a pensar no futuro, em se haverá um futuro para essas crianças. Esse Saddam Hussein é um ditador sanguinário para quem a morte de um milhão de inocentes nada significa. Então, assim pensa o presidente Bush, nada mais justo que o uso da força para desarmá-lo e para acabar com o terrorismo. Mas as razões do presidente Bush sofrem de uma grave limitação: são míopes, são modestas demais. O certo é que aquilo que o presidente Bush está fazendo e quer fazer com Saddam seja universalizado e seja aplicado a todos os países do mundo: todas as armas deveriam ser destruídas. Quem constrói armas as constrói com intenção de usá-las. E quem constrói bombas atômicas, foguetes, armas bacteriológicas e químicas está se preparando para o fim do mundo. Todos os fabricantes de armas devem ficar sob suspeita. Saddam Hussein, é preciso reconhecer, não passa de um porco-espinho no meio de tigres. É ridículo caçar porcos-espinhos quando há tigres à solta. Os espinhos do porco-espinho machucam, é bem verdade. Mas eu suspeito que os porcos-espinhos desenvolveram os seus espinhos por medo dos tigres. Sem os espinhos, há muito teriam sido devorados... Por que somente o porco-espinho tem de mostrar e arrancar seus espinhos, enquanto os tigres permanecem impunes? Continuam a rugir, a ameaçar, a mostrar dentes e garras, e não há ONU que tenha poder e coragem para dizer: "A lei para os porcos-espinhos será lei também para os tirgres." Ah! Que sonho incrível: uma comissão da ONU inspecionando os laboratórios militares, as fábricas de armas e os arsenais dos Estados Unidos... É claro, isso é delírio de escritor. Diante dessa proposta insólita o presidente Bush se riria e retrucaria sem se ruborizar: "Os Estados Unidos têm o direito de fabricar e estocar as armas que quiser por serem um país digno de confiança. Usamos as armas, sim, mas sempre por razões justas, em defesa da liberdade e da democracia. Somos os policiais do mundo..." Essa tem sido uma crença partilhada pela maioria do povo norte-americano. Quem primeiro a exprimiu de maneira clara, se não me engano, foi Reuben Clark, secretário de estado, há mais de um século. Ele declarou que a política exterior dos Estados Unidos é sempre determinada pela verdade e pela justiça. Sendo assim o uso das armas está justificado. Essa crença se incorporou na figura mitológica do ator John Wayne. Ele simboliza o herói solitário, forte e puro que, sozinho, enfrenta e derrota os bandidos. Klint Eastwood, Rambo, Super-Homem são variações desse mesmo tema: "Somos o Cavaleiro Justo que luta contra o Dragão da Maldade..." Quem não está conosco está contra nós. Trata-se de uma mitologia religiosa que o próprio presidente Bush definiu de forma teológica, ao afirmar que o que está em jogo é o confronto entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Demônio... As imagens míticas, como todas as imagens religiosas, não permitem que se veja com clareza. Assim, compreende-se que o povo americano ao olhar para o seu passado só veja o Cavaleiro Justo em defesa da liberdade e da democracia. Mas o que o passado nos conta é trágico. Gabriel García
Márquez, numa carta dirigida ao presidente Bush após o ataque
contra o World Trade As armas bacteriológicas são as mais terríveis. São invisíveis. Não fazem barulho. Ao que me consta - e nisso estou pronto a ser corrigido se minha informação for incorreta - foi o exército americano o primeiro a se valer dela. Aconteceu no século XIX. Havia uma nação indígena que precisava ser eliminada para permitir a expansão colonial para o oeste. Uma operação militar convencional seria possível mas traria muitos problemas. Surgiu, então, a possibilidade de se usar o poder letal das bactérias. Foram enviados aos índios, bondosamente, como presentes de boa vontade, cobertores, tão necessários como defesa contra o frio. Só que os ditos cobertores haviam sido usados por moribundos de varíola. Ao final da Segunda Guerra Mundial os americanos conseguiram fabricar bombas atômicas. Seriam armas terríveis que rapidamente poriam um fim ao conflito, coisa que todo mundo desejava. Tão terríveis e devastadoras, poderiam ter sido lançadas sobre alguma ilha deserta ou sobre o mar. A simples contemplação da explosão levaria o exército japonês a se render. Mas não. Foram escolhidas duas cidades onde moravam civis, velhos, mulheres, crianças, operários, todos eles vítimas inocentes da loucura bélica dos militares japoneses: Hiroshima e Nagasaki. 80.000 inocentes mortos em poucos segundos. 250.000 mortos nos anos seguintes, em consequência das radiações. E que dizer do Vietnã? (Afinal de contas, o que é que os americanos tinham a ver com o Vietnã?). Dos horrores do Vietnã lembramo-nos das bombas de napalm e dos produtos químicos despejados sobre as florestas. A imagem mais horrenda: o massacre da aldeia de My-Lay onde nem mesmo os nenezinhos foram poupados. Quanto às armas químicas, os gases, acaba de ser revelado que uma fábrica de gás mostarda, usado por Saddam e seu exército na guerra contra o Irã, foi construída com dinheiro e tecnologia da Inglaterra e conhecimento e apoio dos Estados Unidos. Naquela ocasião Saddam era um aliado... Tinha, portanto, permissão para fabricação e uso da arma proibida. Como é isso? Os gases são bons quando se trata de liquidar o inimigo? Assombra-me o desrespeito à mais simples coerência. Bush ameaça Saddam com a guerra por não obedecer as determinações da ONU. Mas ele mesmo declara que não necessitará de aprovação da ONU para iniciar a guerra. Saddam precisa obedecer; Bush não precisa obedecer. Quem irá retaliar contra os Estados Unidos se Bush iniciar a guerra em desrespeito às decisões da ONU? É a continuação da Big Stick Policy, política do porrete grande, enunciada pelo presidente Theodore Roosevelt: "Fale suavemente, tenha um porrete grande na sua mão, você irá longe..." A verdade não importa quando se tem um porrete na mão. O que é assombroso
é que os Estados Unidos, nos últimos dez anos, desembolsaram
cerca de dois e meio trilhões de dólares (2.500.000.000)
com gastos militares. Essa quantia teria sido mais do que suficiente para
resolver os problemas fundamentais do nosso mundo de onde surge a violência. "E talvez chegará o grande dia em que um povo, notável por guerras e vitórias e pelo mais alto desenvolvimento de uma ordem e Inteligência militares, e acostumado a fazer os mais altos sacrifícios por essas coisas, exclamará livremente: 'Nós quebramos a espada!' - e com isso destruirá suas organizações militares até seus mais profundos fundamentos. Tornar-se desarmado quando se foi o mais bem armado, a partir de um sentimento - esse é o meio para a paz real, que deve descansar sobre a paz de espírito. Antes perecer que odiar e temer, e duplamente antes perecer que fazer-se odiado e temido - essa deveria se tornar, algum dia, a máxima suprema para cada povo." (Nietzsche) · As duas ilustrações dessa crônica (Cartaz de recrutamento norte-americano para a primeira guerra mundial e Massacre da Coréia, de Picasso) foram retiradas dos livros Tempo e Espaço, da coleção História, de Flávio Costa Berutti (Formato Editorial Ltda.). São uma leitura deliciosa. Eu os abri e não conegui parar. As ilustrações, fotografias, desenhos, obras de arte, caricaturas da época, são maravilhosas. Só de olhar a gente aprende. Uma dica para os professores de História. (Correio Popular, 16/03/2003) |
| ||||||||||||||||||||||||||||||