Dez e meia da noite.
Cruzamento da rua Benjamin Constant com a Avenida Júlio de Mesquita.
Duas crianças, um menino e uma menina. Entre sete e oito anos
de idade. Vendiam balas de goma com olhos tristes. Minha vontade era
levá-los para minha casa, servir-lhes uma sopa, tomar conta deles.
Não fiz nada disso. O sinal ficou verde e acelerei o carro. Mas
as duas crianças dormiram comigo, acordaram comigo e ainda estão
comigo. Mas não é proibido o trabalho às crianças?
Como celebrar a páscoa, em meio a risos, bacalhoadas e ovos de
chocolate, quando há crianças assim?
Na páscoa
judaica as comidas eram servidas com ervas amargas. Absinto, losna...
Acho que deveríamos misturar losna com nossas comidas e bebidas.
É preciso beber o amargo da vida para se ter noção
da doçura, ausente, distante... Paul Tillich, em um dos seus
sermões, contou a seguinte história: "Nos julgamentos
por crimes de guerra em Nurenberg, compareceu uma testemunha que havia
vivido por um tempo num túmulo num cemitério judaico.
Era o único lugar onde ele e muitos outros podiam viver, escondidos,
depois de haverem escapado das câmaras de gás. Durante
esse tempo, ele escreveu poesia, e um dos seus poemas era a descrição
de um nascimento. Numa sepultura próxima, uma jovem mulher deu
à luz um menino. O coveiro, de oitenta anos, envolto num lençol
de linho, foi o parteiro. Quando o menininho recém-nascido deu
o seu primeiro grito, o velho homem orou: 'Grande Deus, será
que Tu finalmente nos enviaste o Messias? Pois quem, além do
Messias, poderia nascer numa sepultura?'"
"O que Deus
quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais,
no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza! Só
assim, de repente, na horinha em que se quer, de propósito -
por coragem." Guimarães Rosa.
Um amigo querido
do Rio de Janeiro está passando por momentos doloridos. Contou-me
do seu sofrimento. Seu irmão está vivendo talvez os seus
últimos dias numa cama de hospital. Mas a tristeza do meu amigo
e da família é acrescida pela insensibilidade arrogante
do médico que cuida do seu irmão. Meu amigo, professor
universitário, quer ver os resultados dos exames de laboratório.
Eu também quereria. Pois o dito médico determinou que
somente ele, médico, pode ter acesso aos exames. A família
permanece na ignorância. Esse é um dos horrores possíveis
no caso de uma internação hospitalar: a perda dos direitos
sobre o próprio corpo. Fica à mercê de um outro,
desconhecido. Infelizmente ainda há médicos que, possuídos
de arrogância e onipotência, se julgam donos do doente.
Pois eu acho que quem é dono é o doente, dono dos procedimentos
médicos que ele pode aceitar ou rejeitar, dono das informações
que ele passa ao médico, se assim o desejar. Esta é uma
questão muito séria e julgo que os médicos deveriam
estudá-la, como parte da ética médica. O doente,
por ser doente, não está reduzido à condição
de um nabo cozido. Ele continua a ser um ser humano, dono de si mesmo.
E se ele não está em condições, são
os seus seres queridos que administram os seus direitos e cuidam para
que eles não sejam transgredidos. Um comportamento assim seria
objeto de punição se acontecesse em qualquer outra situação.
Até os criminosos são protegidos pela lei. Imagino que
Kafka deve ter se inspirado numa situação hospitalar para
escrever O Julgamento. É preciso que os médicos estejam
conscientes de que eles não são donos do doente, mas servos
do doente. Assim, uma das condições essenciais para o
exercício da medicina é a humildade. Comportamentos como
esse que denuncio não são a regra. Mas existem. Por isso
a classe médica tem de estar atenta. Os médicos não
estão imunes a deformações de caráter.
Como é que
uma coisa ruim vira coisa boa, e só é boa se continuar
a ser ruim? Não, não pensem que endoidei. Vou contar o
que aconteceu. Esses dias de outono, céu muito azul, um friozinho
gostoso, as cores mais brilhantes... Me lembrei, com saudade, da minha
infância em Minas. Lembrei-me que, quando chegava o mês
de julho, mês de férias, era o tempo de tomar Emulsão
de Scott. Para quem não sabe, Emulsão de Scott é
um fortificante à base de óleo de fígado de bacalhau.
Branco, pastoso, difícil de engolir, malcheiroso, gosto ruim.
Vinha a minha mãe com a colher de Emulsão de Scott numa
mão e uma tampa de laranja na outra, prá tirar gosto e
cheiro. Pois não é que fiquei com saudade da Emulsão
de Scott! Pensei, então, que eu gostaria de tomar Emulsão
de Scott para voltar, na imaginação, à minha infância.
Fui à farmácia, comprei um vidro e preparei-me. Mas, oh!
decepção! Os laboratórios estragaram a emulsão.
Deixou de ser branca. Está cor de rosa! E o que fizeram com o
gosto ruim de óleo de fígado de bacalhau? Estragaram-no
com sabor doce de morango! Fracassou minha programada volta à
infância! Porque Emulsão de Scott, para ser boa, para ter
poderes mágicos, tem de ser ruim...
Os evangelhos nos contam de um homem endemoninhado que vivia entre os
sepulcros, uivava noites a dentro, cortava-se com pedras afiadas e era
tão forte que arrebentava todas as correntes com que tentavam
prendê-lo. Jesus se aproximou dele e lhe perguntou: "Qual
é o seu nome?" Ao que ele respondeu: "Meu nome é
Legião, porque somos muitos." Possessão demoníaca
é o nome que se dá a essa coisa horrenda, o poder de forma
pura, poder pelo poder, divorciado do amor, como era o caso daquele
homem. Esse fenômeno se torna mais visível quando, ao invés
de um homem, é um Estado que é possuído pela Legião
de demônios, tal como acontece no momento com o Estado norte-americano.
Não foram encontradas armas de destruição em massa
no Iraque. Agora o monstro se volta contra a Síria com dentes
arreganhados. Uma das características do poder é que ele
jamais se satisfaz. O poder tem sempre uma fome de mais poder. Essa
foi uma característica de todos os Estados conquistadores na
história da humanidade. E foi essa fome sem fim pelo poder que
acabou por destruí-los.
Usei de propósito
a expressão Estado norte-americano para não falar simplesmente
em Estados Unidos. E isso porque aquele país está cheio
de pessoas honestas e íntegras que lutam por ideais altos de
fraternidade e justiça. Conheci muitas delas nos anos em que
lá vivi. Tenho recebido correspondência de amigos norte-americanos
expressando o seu horror e vergonha ante o que está acontecendo.
Assim, é importante não identificar Estado, representante
dos interesses militares e econômicos, com o povo.
Tive uma experiência
de felicidade guiando meu carro em Piracicaba, na avenida que acompanha
o rio. Fim de tarde de outono. À esquerda, um parque com gramados
verdes e árvores. De repente, um lago coberto com Ninféias!
Ninféias eram as flores favoritas de Monet e sobre suas telas
Bachelard escreveu um ensaio tão belo quanto as telas do pintor.
Pois lá estavam elas, inesperadas e maravilhosas. Eu nunca havia
visto tantas Ninféias abertas e tão grandes! Um casal
de frangos d'água avermelhados andava sobre suas folhas que flutuavam
sobre a superfície da água. Parei o carro e fui me assentar
à beira do lago. Não havia ninguém mais lá.
Ao contrário, havia muita gente se divertindo nos parquinhos
a curta distância. Lembrei-me de que, no Admirável Mundo
Novo, de Huxley, as crianças eram ensinadas a odiar as belezas
da natureza porque elas nos dão prazeres gratuitos, o que é
ruim para a economia. Mas eram ensinadas a amar as coisas artificiais
que se constróem no campo, como clubes e parques aquáticos,
porque isso é bom para a economia. Pode um mar tranqüilo
competir com a adrenalina do jet-ski? Ou vacas pastantes competir com
o barulho das motocicletas?
"Me dá
o teu contente que eu te dou o meu": foi isso que disse um menininho
à sua mãe, que estava brava. Agora virou título
de um livro só com tiradas de crianças. Ah! As crianças,
são muito mais inteligentes e poéticas do que se imagina.
O livro foi organizado pela Cristina Mattoso, publicado pela Verus Editora
e ilustrado com desenhos de adolescentes da Fundação Síndrome
de Down.
Obras produzidas
pelas crianças do Núcleo Educacional Pão da Vida,
do Centro Corsini vão estar na mostra O Ser da Criança,
na Oficina do Estudante, Av. Brasil, 601. Coordenação
de Egas Francisco e Maria Casarin. Até o dia 17/05.
Rubem
Alves é educador, escritor, psicanalista e professor
emérito da Unicamp.