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ALBERT SCHWEITZER: Eu e o Gilberto Dimenstein estamos planejando produzir um livro a duas cabeças. Explico por que digo "produzir" e não "escrever": vamos nos trancar numa sala, telefones normais e celulares desligados, gravador ligado, e vamos conversar livremente sobre as nossas experiências de escola. O livro será a transcrição desse dia de conversas. Já decidimos sobre o título. O livro vai se chamar: Fomos maus alunos. Não sei quão mau aluno o Dimenstein foi. Só posso falar sobre mim. Vagabundei muito. Não gostava de estudar. Não tinha razões para gostar de estudar. Estava sempre pendurado com notas baixas, em perigo de 2a época. Para quem não sabe 2a época era um exame que se fazia em fevereiro para aqueles que haviam levado bomba na 1a época. Nunca fiquei para 2a época porque me rachava de estudar nas quatro semanas que antecediam os exames finais. Tudo, menos perder as férias. Os burocratas têm sempre idéias brilhantes nos seus escritórios, idéias que eles transformam em leis. Pois um deles pensou uma alternativa para os vestibulares: os alunos entrariam para a universidade tomando-se por base seu histórico escolar, suas notas no ginásio e no colegial. Se essa idéia tivesse se transformado em lei eu nunca entraria na universidade. Fui mau aluno. O que me era ensinado não era o que eu queria aprender. O que aprendi, aprendi andando pelos meus próprios caminhos. Mas o que eu aprendia nos meus caminhos não caía nas provas. Pensando sobre como aprendi dei-me conta de que um dos fatores que mais me motivaram foi a admiração por certos homens que me pareciam extraordinários. Eu queria ser como eles. Lia suas biografias com emoção. Foi assim com Albert Schweitzer. Filósofo, teólogo, prêmio Goethe de literatura, organista desde menino, apaixonado por Bach, dava concertos de órgão por toda a Europa. Mas, aos 30 anos resolveu abandonar sua vida de sucessos culturais, entrou para a faculdade de medicina, formou-se médico e foi viver na áfrica, uma aldeia miserável chamada Lambarene, no meio da selva. Aos noventa anos, ainda ativo, escrevia de Lambarene: "Passei o meu nonagésimo aniversário em boa saúde, sobrevivendo agradavelmente". Prêmio Nobel da Paz. Eu amei Schweitzer. Quis ser como ele. E, para ser como ele, eu tinha de entrar pelo seu mundo. Mas o mundo de Schweitzer não se encontrava nos programas das escolas. A escola me ensinava dinastias egípcias, nomes de batalhas, nomes de cidades da antiga Mesopotâmia, os acidentes geográficos da costa da Noruega, análise sintática que odeio e nunca aprendi. Mas lá nunca pronunciaram o nome de Schweitzer e nem falaram sobre a "reverência pela vida", que era o princípio fundamental da sua filosofia. Já escrevi uma crônica sobre ele, Em defesa da vida - está no livro O Médico (Papirus). Schweitzer foi, para mim, uma porta através da qual penetrei num mundo que, nos programas escolares, está mergulhado em silêncio. Fico a pensar: hoje, quais são os homens que despertam a admiração dos jovens? Que homens lhes causam entusiasmo e desejo de imitar? O que aconteceu com os homens que inspiravam os jovens a viver vidas nobres? Entraram em eclipse, ofuscados pelo brilho dos artistas de televisão. Não podem competir com o "Big Brother". Um menininho de quem fiquei amigo, aquele que vendia salgadinhos no aeroporto de Guarapuava, me escreveu perguntando se eu não podia ajudá-lo a realizar o seu ideal: ele queria conhecer o Gugu Liberato... Voltando ao nosso assunto: pois faz dois meses recebi um presente maravilhoso: o livro da correspondência de Schweitzer. De alguém que eu não conhecia e ficou gostando de mim sem me conhecer, por saber do meu amor por Schweitzer. Cartas, centenas. Todas elas escritas com a mesma simplicidade e a mesma clareza, quer fossem dirigidas a uma rainha ou a um grupo de crianças. Numa de suas cartas ele dizia: "Todas as coisas profundas são simples". Cartas para Buber, Pablo Casals, Bartrand Russel, Gandhi, Nikos Kazantzakis, Nehru, Max Plank, Reinier III - Príncipe de Mônaco, Romain Rolland, Tagore, Einstein, Hermann Hesse... O livro era usado. Cheio de marcas e anotações. Uma outra pessoa já passou por ele e o amou. Também admirou Schweitzer. Assim nós dois, aquele que deu o livro de presente e eu que recebi o presente somos "companheiros", de "cum + panis", comemos o mesmo pão. Mas agora estou numa grande tristeza: perdi a carta que veio junto com o livro. E como eu não conhecia o homem que me deu o presente, não sei como dizer a ele da minha gratidão por essa prova de amizade - esse é um livro que só pode ser dado a alguém de quem se gosta muito. Por favor, você que me deu o livro: comunique-se comigo. TENENTE PACÍFICO: "As onças comeram as nossas rações durante a noite e tememos que tenham devorado também o sentinela pois ele desapareceu". Estava assim escrito na carta que o tenente Pacífico escreveu de algum lugar da Mantiqueira, teatro de operações bélicas da revolução de 1932. Tenente Pacífico é o nome do livro que Waldo César, meu amigo, escreveu sobre a revolução de 32. O dito tenente Pacífico, personagem literária, foi também personagem real, existiu mesmo, e eu o conheci já velho e calvo, rosto redondo e vermelho, e até foi meu professor de Bíblia na escola dominical. Com livros eu sou feito cachorro. Não abocanho. Primeiro cheiro. O nariz tem de aprovar. Assim, abro uma folha aqui, outra folha ali, leio um parágrafo, uma frase. Se o nariz diz "sim" então me ponho a comer o livro. Foi o que aconteceu com esse livro. Livro que meu nariz aprova é livro em que eu entro dentro: me misturo com os personagens, dou palpites, rio, choro, amo, mato. E lá estava eu, na estação de Resende, ao lado do reverendo Samuel, esperando que o tenente Pacífico chegasse com os soldados. Tocou o sino, anunciando a partida do trem da outra estação. Chegaria logo. E aí chegou a locomotiva mostruosamente de ferro, resfolegando morte, negra, assobiando vapores, rodas de aço guinchando sobre os trilhos na freiada. Cheiro de lenha queimada. Os soldados, rostos inocentes, enchendo a plataforma, quais daqueles rostos não retornariam? Falam sobre a primeira baixa. Um dos soldados, que viajava entre os vagões, caiu nos trilhos e foi esmagado pelo trem. Ou será que ele se atirou sobre os trilhos, por não suportar o medo da espera? Melhor terminar logo... Nunca se saberá... Idos os soldados para as frentes de batalha, a guerra ficou acontecendo nas conversas. Contava-se sobre uma fabulosa arma de guerra dos paulistas. Era um "trem blindado", encouraçado, cheio de canhões e metralhadoras, capaz de espalhar a morte e a destruição. Os governistas tremiam de medo ao ouvir falar do dito trem. Me informaram depois que o dito trem foi construído nas oficinas ferroviárias de Campinas, o que tornou Campinas alvo dos bombardeios do "Vermelhinho", avião que, quando chegava, fazia todo mundo se esconder. Os campineiros de outros tempos que relatem melhor do que eu. Sobre a Revolução de 32 eu nada sei pois ainda não havia nascido. Só sei por ouvir dizer. E o que me disseram, em Boa Esperança, é que aquela cidadezinha foi centro de operações bélicas comandadas pelo Pitiu. O Pitiu era um tipo exótico, magro, barba longa, sempre de terno, gravata, chapéu e guarda-chuva, ninguém conhecia os mistérios da sua vida. Pois, ouvidos os boatos de que os soldados paulistas se aproximavam, o Pitiu assumiu a função de general e, fazendo do posto telefônico o seu quartel general, passou a berrar ordens a soldados inexistentes distantes: "Dinamitem as pontes", ele ordenava. O que de fato aconteceu: os soldados inexistentes, com dinamite inexistente, dinamitaram as pontes inexistentes, para impedir a chegada dos soldados paulistas inexistentes. Mas, voltando ao livro Tenente Pacífico. Infelizmente os livros de história só contam os grandes acontecimentos. Nada contam das pequenas coisas de que a vida é feita: a mulher doente; o frequentador de velórios; o fazedor de discursos exaltados; o manso pastor de almas que sentia interrogações surgirem sobre a sua fé, colocadas por aquele absurdo, o tenente Pacífico, pacífico no nome, pacífico no coração, vestido em farda de guerra e tendo de matar, se preciso fosse. Consolava-se tocando Bach ao harmônio. E havia o menino inocente que brincava de guerra com os soldadinhos de chumbo e que amava a menina grande, sabida, que lhe oferecia os seios e o agradava naquele lugar endurecido sem que ele soubesse por quê, embora gostasse. O Waldo, autor, é o pai da Ana Cristina César, poetisa linda e sensível que cedo nos abandonou. Pois o Waldo, com o carinho e a saudade de pai, colocou a Cristina no meio da trama, discretamente. Vez por outra aparecem palavras dela, tiradas de outros lugares. Acho que você gostaria de ler esse livro. Eu gostei. Waldo César, Tenente Pacífico - Um romance da Revolução de 32, Rio de Janeiro, Record, 2002. Pedidos pelo reembolso postal: caixa postal 23.052, Rio de Janeiro, 20922-970. Leia outras crônicas no site pessoal de Rubem Alves |
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