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Dados divulgados recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram aumento considerável do número de mulheres chefes de família: são 11,2 milhões de brasileiras que mantêm suas casas. Entretanto, as pesquisas pouco dizem sobre as percepções e discriminações sofridas por essas mulheres por causa desta condição social. Motivada pela ausência de dados, a psicóloga e professora da Unesp de Franca Ana Cristina Nassif Soares acompanhou, durante dois anos, um grupo de mulheres que, após separação, se tornaram mantenedoras de seus lares. O trabalho, intitulado "Mulheres chefes de família: narrativas e percurso ideológico", demonstra que, mergulhadas na ideologia da classe média, as mulheres ainda cultuam a família típica das propagandas de margarina (pai trabalhador e compreensivo, mãe dona-de-casa e zelosa e casal de filhos). "A família nuclear habita o imaginário de todos. Quem não faz parte deste seleto grupo é excluído e encarado como sujeito em crise", afirma a pesquisadora. Segundo ela, tal percepção acaba dificultando a decisão de se separar ou se divorciar, principalmente entre a população mais velha, que encara o casamento como algo definitivo. Na maioria dos casos que compõem o grupo acompanhado pela pesquisadora (formado por mulheres atendidas no Centro Jurídico Social da Unesp-Franca, interior de São Paulo), foi verificado que, antes mesmo da separação, as mulheres já eram responsável pela manutenção da família. "Ainda casadas, algumas delas já chefiavam seus lares - respondiam pelas tarefas domésticas, pelo cuidado com os filhos e também por manter ou contribuir financeiramente com o sustento da casa", esclarece Ana Cristina. Essas mulheres se submetiam a casamentos traumáticos, com agressões frequentes e traições dos parceiros, apenas por convenção. Evitavam, assim, assumir uma possível separação - encarada como desvio do modelo ideal de família -, além de constrangimentos e discriminações. Para Ana Cristina, não há modelos únicos de famílias, principalmente nos dias atuais. "É preciso repensar o que significa uma família estruturada. Há uma multiplicidade de situações e possibilidades de convívio, como casais homossexuais, mães independentes, entre outros, que merecem mais respeito", acredita. Segundo a pesquisadora, um primeiro passo para a valorização de diferentes estruturas familiares pode ser dado pelas autoridades, que precisam desvincular problemas de ordem social dos tipos de composição das famílias brasileiras. "Um homem alcoólatra não necessariamente provém de um grupo familiar 'desestruturado', assim como um aluno que não tira boas notas nem sempre tem pais ausentes. Culpar as famílias é um ótimo mecanismo para mascarar problemas como desemprego, péssimas condições de moradia, educação e saúde", finaliza. (Raquel Souza)
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