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O respeito é fruto de um extremo sacrifício pessoal e não de atitude própria de convivência no espaço público. Essa é apenas uma das inúmeras conclusões negativas a que chegou a socióloga Alessandra Olivato depois de elaborar sua tese de mestrado: "Percepção e Avaliação da Conduta de Motoristas e Pedestres no Trânsito', defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Nas 220 páginas de seu estudo, a pesquisadora argumenta que a confusão entre o público e o privado é uma das principais causas do caos urbano cotidiano da cidade de São Paulo. "A lógica do espaço privado se reverte nos espaços públicos, gerando assim uma incapacidade de ver o outro e de entender o que é público", acredita. Para saber como as pessoas se portavam no trânsito, a socióloga realizou 54 entrevistas nas ruas, dividindo o público em seis categorias: pedestres, motoboys e motoristas de carros, ônibus, lotações e táxis. As perguntas básicas tratavam de como cada um via a si mesmo no trânsito, enquanto motorista ou pedestre, como viam os outros, como percebiam as leis e as autoridades, como concebiam o trânsito e como se sentiam nele. Durante três meses ela gravou entrevistas qualitativas (com respostas não estimuladas) de cerca de quarenta minutos em diversos pontos da cidade de São Paulo. "No decorrer das entrevistas pode-se perceber um rancor social muito grande. Principalmente entre motoristas de lotação e motoboys, tratados sempre como párias sociais", lembra. As conclusões da socióloga não poderiam ser mais insatisfatórias, corroborando para sua conclusão de que as pessoas agem com uma lógica privada nos locais públicos. Além do individualismo conspícuo - peculiar em grandes metrópoles -, não existe uma noção clara de espaço público no trânsito. "A luta individual pela sobrevivência, no mundo atual, dificulta ainda mais a consolidação do conceito de cidadania, historicamente inócuo no país", explica. Outro ponto discutido por ela é a formação do motorista, muito aquém da real necessidade das práticas no trânsito. Segundo ela, não há uma idéia generalizada da direção defensiva cuja premissa é prever o que acontecerá no trânsito. Nessa lógica, cruzam-se os sinais vermelhos e causam-se acidentes, dando-se depois a desculpa de acidentes improváveis. "A formação do motorista ainda é majoritariamente técnica. Não se aprende noções de civilidade que englobe a percepção do espaço público." Um dos dados mais curiosos da tese se dá quando a pesquisadora define "espaço público" como "o lugar do cidadão". Nas entrevistas revela-se uma noção de cidadania precária. A pesquisa revelou ainda que poucos motoristas dizem fazer esforço para "respeitar o próximo" e "não causar acidentes". "Os poucos que disseram fazer tal esforço não o vêm como atitude de civilidade. Dizem agir corretamente porque têm uma boa educação familiar ou por extraordinária característica pessoal". (Rodrigo Zavala - 04/02/2003) |
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