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Uma pesquisa com 1.500 executivos paulistanos revelou que 72% estão no "estágio de perigo". Vivem um nível de estresse que pode desembocar no aparecimento de uma ou mais doenças. Outros 6% estariam no "estágio de exaustão", já foram ou continuam sendo vítimas de enfermidades como infarto do miocárdio, derrame e úlceras do estômago. Nesse último grupo estão os mais ferrenhos workaholic, como são conhecidos os dependentes em trabalho. Eles e uma parte dos que estão no "estágio de perigo" sofrem da síndrome que os especialistas abrasileiraram para "workholismo". Trata-se da irmã mais velha de outra agora apelidada de síndrome do lazer. Os números estarão no livro "Deus e o Diabo na Vida dos Executivos", em elaboração. A pesquisa foi feita por um grupo de psicólogos da USP e da PUC de São Paulo e pelo Instituto Paulista de Stress. Segundo os participantes, o resultado da pesquisa, com alguma variação, pode ser estendido para toda a população adulta das grandes cidades. Leia
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Durante a lua-de-mel na Europa, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, atualmente um dos homens mais ricos do mundo, sentiu-se incomodado em só desfrutar dos prazeres do matrimônio e levou sua mulher, Regina, para conhecer usinas de aço no interior da Áustria -um programa não exatamente romântico. Passados 35 anos daquelas
inusitadas incursões siderúrgicas numa lua-de-mel, o casal
conseguiu, enfim, tirar férias completas e viajou para a Suíça.
Não deu certo. O empresário está com 73 anos, mas não mudou de atitude. Acorda ainda de madrugada, por volta das 4h30, sem despertador, acompanha as notícias no rádio, na TV, lê os jornais. É, na maioria das vezes, o primeiro a chegar no escritório, no centro de São Paulo. Como se não fosse suficiente administrar um dos mais importantes conglomerados privados do Brasil, dá 20 horas por semana para administrar o Hospital Beneficência Portuguesa. Nos sábados e domingos, divide-se entre o escritório e o hospital. Nas horas vagas do final de semana, lê relatórios e livros sobre economia. "Sinto um aperto só em pensar em ficar sem fazer nada. Dá uma sensação de inutilidade", afirma. Conta literalmente nos dedos as vezes em que se jogou na piscina de sua casa: foram quatro os mergulhos históricos. Apesar da obsessão pelo trabalho, Antônio Ermírio conseguiu preservar a saúde, manteve o casamento com Regina, com quem teve nove filhos, e não pensa em mudar de hábitos. Mas o empresário sofre de um distúrbio batizado de "síndrome do lazer": incapacidade de relaxar nas horas vagas. Essa síndrome é pesquisada na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde se criou, na Faculdade de Educação Física, o Departamento de Estudos do Lazer. Sintomas - Antônio Ermírio lida com a síndrome lotando sua agenda de compromissos. Os pesquisadores notaram que muitos workaholics - obcecados por trabalho- apresentam determinados sintomas quando se aproximam as férias, os feriados prolongados ou apenas os finais de semana. Segundo Carlos Bramante, do Departamento de Estudos do Lazer da Unicamp, algumas pessoas, especialmente empresários e executivos, passam a ter dores musculares, enjôo, enxaqueca, gripes. "Eles sentem a combinação de tédio e ansiedade", diz Bramante. O lazer é acompanhado de um sentimento de culpa. O empresário Hélio Mattar, presidente da Fundação Abrinq, decidiu mudar de vida depois de ver sinais de distúrbios psicológicos nos filhos - mais especificamente problemas de aprendizado. "Eu sentia dor no corpo, cansaço, em meio à ansiedade, na expectativa da volta da segunda-feira", lembra-se Mattar. Para defender-se dessa ansiedade, transferia, nos finais de semana, o escritório para sua casa, mantendo quase um ritmo normal de trabalho. Sentia que, parado, seria vítima de uma tragédia econômica. Tinha o hábito de carregar pastas pesadas até mesmo nas férias, nunca tiradas integralmente -e sempre acompanhadas de um visível incômodo aos olhos dos familiares. O casamento não conseguiu sobreviver. Pesquisador - A idéia de síndrome do lazer chegou ao Brasil graças ao psicólogo Ad Vinngerhoets, da Universidade de Tilburg, da Holanda, durante encontro realizado pela ABQV (Associação Brasileira de Qualidade de Vida). Num estudo considerado único no mundo, ele calculou que, em seu país, 3% das pessoas seriam vítimas da doença. Essa proporção, segundo ele, não seria diferente em outros países ricos, apartir dos relatos que ouve em seminários sobre estresse. A presidente da ABQV, Cecília Shibuya, contratada por grandes empresas para criar programas de qualidade de vida, começou a medir os sinais de síndrome de lazer entre executivos brasileiros. Aplicou um questionário para 211 deles neste ano e detectou o efeito devastador da incapacidade de relaxar: 85% reclamaram da sobrecarga de trabalho e da dificuldade de encontrar tempo, da distância em relação aos filhos; 75% afirmaram que bebem mais do que deveriam. "O problema é que, mesmo quanto têm tempo, a maioria deles está pensando no trabalho, epor isso precisa de fugas como a bebida", afirma Cecília. Na pesquisa, ela quis saber quais eram os passatempos preferidos dos executivos: 11% disseram que passam muitos horas na frente do computador, navegando na internet. É algo que, na maioria das vezes, significa necessidade de estar ligado. A imensa maioria dos entrevistados revela que pratica esporte, mas basicamente nos finais de semana. "A sociedade valoriza o trabalho como valor fundamental. Isso faz com que muita gente mascare a obsessão como uma virtude", afirma Bramante. Diferenças - Para a psicóloga Yvette Piha Lehman, do Labor (Laboratório de Estudos sobre o Trabalho e Orientação Profissional), da Universidade de São Paulo, a compulsão pelo trabalho está crescendo. Mas o fenômeno deve ser diferenciado em pelo menos dois tipos. Há um tipo de trabalhador que sofre com a insegurança, especialmente nos períodos de desemprego mais acentuado. "É o sujeito que não pode ir embora antes do chefe e que acaba trabalhando em função do estresse do outro." Existe o cronicamente compulsivo, haja ou não crise econômica. "São aqueles motivados que direcionam sua libido para o trabalho. Todos os demais espaços sociais são chatos. Não têm prazer em ouvir música, ficar com a família, só o trabalho interessa." O Labor trabalha especificamente com os compulsivos. "Temos percebido que os jovens, em contato com a população adulta que supervaloriza a atividade profissional, acabam achando que o trabalho é só fonte de sacrifício. Eles não querem se escravizar como os adultos", afirma Yvette. O problema é que o compulsivo só vai começar a pensar em mudar de atitude quando o estrago já está feito - e o estrago aparece com a crise familiar, perda de produtividade ou colapso na saúde. (Folha de S. Paulo)
Uma pesquisa com 1.500 executivos paulistanos revelou que 72% estão no "estágio de perigo". Vivem um nível de estresse que pode desembocar no aparecimento de uma ou mais doenças. Outros 6% estariam no "estágio de exaustão", já foram ou continuam sendo vítimas de enfermidades como infarto do miocárdio, derrame e úlceras do estômago. Nesse último grupo estão os mais ferrenhos workaholic, como são conhecidos os dependentes em trabalho. Eles e uma parte dos que estão no "estágio de perigo" sofrem da síndrome que os especialistas abrasileiraram para "workholismo". Trata-se da irmã mais velha de outra agora apelidada de síndrome do lazer. A pesquisa foi feita pelos psicólogos Esdras Guerreiro Vasconcellos, Rachel Zausner Skarbnik, Édela Aparecida Nicoletti e Sámia Aguiar Brandão. Vasconcellos, professor da USP e da PUC de São Paulo e diretor do Instituto Paulista de Stress, diz que o resultado da pesquisa, com alguma variação, pode ser estendido para toda a população adulta das grandes cidades. Os números estarão no livro "Deus e o Diabo na Vida dos Executivos", em elaboração. A síndrome do "workholismo" é mais frequente entre os executivos. Segundo Vasconcellos, os sintomas costumam aparecer no início das férias, nos finais de semana e em festas de fim de ano. Os mais comuns são insônia, taquicardias, crises alérgicas, gastrites e a ocorrência de acidentes banais que não acontecem durante o trabalho. Ou ainda irritabilidade, nervosismo, isolamento, depressão e até sensação de perseguição. Justamente por não ter lazer, essas pessoas não conseguem recuperar suas energias, e um estresse passa a se sobrepor ao outro. O passo seguinte é a doença. O trabalhador compulsivo começa a passar mal assim que sabe que vai desacelerar, observa o psiquiatra Alfredo Toscano Júnior, da Unidade de Dependência de Drogas (Uded) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para essas pessoas, a tentativa de programar as férias, lendo os livros que não leu ou vendo os filmes que não viu, acaba resultando em frustração. "Para alguns, o trabalho pode ser um buraco de avestruz", diz Toscano -uma maneira de escapar a problemas afetivos ou familiares. Ele conhece médicos que passaram a dormir nos consultórios e executivos que não foram à festa de 15 anos do filho porque estavam em reunião. "Com esses, é necessário discutir outras possibilidades de satisfação", diz. Nas noites de quarta-feira, muitas das almofadas da sala de meditação do Ibraphema, um instituto de pesquisas holísticas em medicina de São Paulo, são tomadas por profissionais que trabalham sob estresse. "A meditação é uma das melhores práticas para se quebrar o ciclo do estresse", diz o médico Jou Eel Jia, que dirige o instituto. Ao som de mantras, os participantes fazem exercícios para "não pensar em nada". Os outros recursos citados por Jou contra o estresse são uma correta alimentação, exercícios físicos e a acupuntura. "Algumas pessoas se tornam dependentes dos hormônios produzidos pelo estresse", diz o médico. Boa parte dos alunos que procuram a "academia do Incor", na avenida Paulista e na Cidade Universitária, também está querendo desacelerar. A Unidade Fitness Paulista e a Unidade Fitness USP funcionam numa parceria entre a Faculdade de Educação Física da USP e o Instituto do Coração. (Folha de S. Paulo)
Neste final de semana
prolongado, o empresário Hélio Mattar, de 54 anos, viajou
com os filhos para uma praia em Santa Catarina -esse corriqueiro programa
tem um significado especial na vida Mattar, uma vítima assumida da síndrome do lazer, é movido por um trauma psicológico. "Era como se eu carregasse quilos nas costas todos os dias", lembra-se. O empresário viu a súbita derrocada econômica de seu pai, o que acabou produzindo a sensação de insegurança; faltou dinheiro para escola e até alimentação. Ele começou a trabalhar aos 12 anos. Dava aulas particulares de matemática para meninos menores em sua escola. Nunca mais parou de trabalhar, desenvolvendo um comportamento obsessivo. Formou-se em engenharia, se tornou um executivo de grandes empresas e começou a construir a rede de restaurantes América, em São Paulo. "Não podia parar, porque parar significava abrir a guarda para a tragédia", afirma. Fazia da casa extensão do escritório; e do escritório, a casa. Experimentava nos finais de semana a expectativa da chegada da segunda-feira, encarada como um alívio -mesmo trabalhando aos sábados e domingos em casa. Frequentemente, durante os feriados, sentia um profundo cansaço e dores no corpo. Tanto esforço resultou, pelo menos, em um opulento saldo bancário, especialmente depois que vendeu parte de seus negócios. Já vinha, há algum tempo, sofrendo pressão dos filhos, que passaram a demonstrar dificuldades nas escolas. Mattar preferiu, então, mudar o rumo, fazer um investimento mais centrado na família. Passou a dedicar-se ao Terceiro Setor, assumindo a presidência da Fundação Abrinq e criando o Instituto Akatu, cuja missão é disseminar a importância do consumo responsável e da ecologia. "Tirei o peso das costas", festeja. (Folha de S. Paulo) |
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