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As donas-de-casa ocupam, de longe, o primeiro lugar no ranking das ocupações dos mortos pela Aids em São Paulo. Elas representam 14,09% das mortes. Descontadas as ocupações ignoradas, elas são 19,5%. Quando se contabilizam apenas as mortes femininas, elas representam 41,5% das vítimas fatais. No primeiro semestre deste ano, 575 pessoas morreram em consequência da Aids na capital paulista. Entre as 195 mulheres mortas, 81 eram donas-de-casa. Outras 26 vítimas faziam serviços domésticos - a maioria delas era composta de mulheres. O perfil convencional da dona-de-casa é revelador: não trabalha nem estuda fora, por isso tem menos contato com outras mulheres, frequenta menos os serviços de saúde e outras instituições. Sua principal fonte de informação, fora a TV, costuma ser o marido; também por isso, e por ele ser o provedor, a vida dele fora de casa não importa nem é questionada. As mulheres também são as principais vítimas da falsa idéia de que ainda existem grupos de risco, afirmam os especialistas. Heterossexuais, casadas e não-usuárias de drogas injetáveis, elas estariam fora da linha de perigo. Em segundo no ranking estão trabalhadores braçais, seguidos por aposentados, domésticos, vendedores e condutores de veículos Em seguida - sem separação por sexo -, aparecem 31 trabalhadores braçais, 29 aposentados ou pensionistas, 26 trabalhadores domésticos, 20 vendedores, 17 condutores de veículos e 15 auxiliares de escritório. A ocupação era ignorada em 159 atestados. Leia mais Donas-de-casa
lideram mortes por Aids Leia também Beleza
feminina provoca reação primária no homem
No primeiro semestre deste ano, apesar do coquetel de remédios disponível na rede pública de saúde, 575 pessoas morreram em consequência da Aids na capital paulista. Entre as 195 mulheres mortas, 81 eram donas-de-casa. Outras 26 vítimas faziam serviços domésticos - a maioria delas era composta de mulheres. As donas-de-casa ocupam de longe o primeiro lugar no ranking das ocupações dos mortos pela Aids em São Paulo. Em seguida - sem separação por sexo -, aparecem 31 trabalhadores braçais, 29 aposentados ou pensionistas, 26 trabalhadores domésticos, 20 vendedores, 17 condutores de veículos e 15 auxiliares de escritório. A ocupação era ignorada em 159 atestados. No total das mortes por Aids, as donas-de-casa representam 14,09%. Descontadas as ocupações ignoradas, elas são 19,5%. Quando se contabilizam apenas as mortes femininas, elas representam 41,5% das vítimas fatais. Os números são do Pro-Aim, um programa da prefeitura que trabalha com a mortalidade em São Paulo. Os casos foram ordenados por ocupação a pedido da Folha pelos médicos Mauro Taniguchi e Katsue Shibao. A predominância da "profissão" dona-de-casa explica em parte uma pergunta que os órgãos públicos estão começando a pesquisar: "Quem são aqueles que estão morrendo de Aids e por que eles estão morrendo?". O perfil convencional da dona-de-casa é revelador: não trabalha nem estuda fora, por isso tem menos contato com outras mulheres, frequenta menos os serviços de saúde e outras instituições. Sua principal fonte de informação, fora a TV, costuma ser o marido; também por isso, e por ele ser o provedor, a vida dele fora de casa não importa nem é questionada. "No imaginário feminino, a Aids ainda é uma doença masculina, uma doença do outro", diz Wildney Feres Contrera, uma das diretoras do Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids) de São Paulo. Muitas dispensam a camisinha assim que se apaixonam e adotam a fidelidade como única forma de prevenção. "Mesmo entre as que desejam usar preservativo, muitas não se sentem com poder para negociar com o marido", afirma Wildney. O marido e os filhos constituem seu mundo. Médicos de serviços de DST-Aids relatam o caso de mulheres infectadas que buscam os medicamentos e, em lugar de tomá-los, levam para os maridos que estão presos. É comum mães portadoras de HIV faltarem à consulta ou abandonarem a medicação para cuidar das crianças. As mulheres também são as principais vítimas da falsa idéia de que ainda existem grupos de risco, afirmam os especialistas. Heterossexuais, casadas e não-usuárias de drogas injetáveis, elas estariam fora da linha de perigo. "Há profissionais que ainda pensam assim", diz a infectologista Cáritas Relva Basso, gerente de assistência do Centro de Referência e Treinamento em DST-Aids da Secretaria de Estado da Saúde. Isso explicaria um número significativo de "diagnósticos tardios", quando o doente já chega em estado grave ao hospital e só então descobre que tem Aids. A médica Marinella Della Negra, do Hospital Emílio Ribas, relata o caso de uma mulher de 32 anos que foi internada um mês atrás com pneumocistose e morreu alguns dias depois. Era mãe de três filhos e o último tinha sido amamentado até abril passado. O exame revelou que estava com Aids. Antes de morrer, a mulher contou que, no pré-natal, tinha pedido para fazer um exame de HIV. "O médico disse que não precisava", conta Marinella. O filho mais novo está infectado. As fragilidades que envolvem as mulheres donas-de-casa (elas têm menor poder de negociação com os maridos e menos acesso à informação) tornam indispensável a adoção de políticas direcionadas para os grupos que mais abandonam os tratamentos. "É necessário um esforço especial, como foi feito no caso da tuberculose", afirma Vasco Carvalho Pedroso de Lima, diretor do Hospital Emílio Ribas. Técnicos da saúde iriam de casa em casa, verificando se o paciente tomou de fato o medicamento.
Ninguém apareceu no "grupo de adesão" da última sexta-feira no SAE-DST/Aids de Campos Elíseos. A sigla indica um dos serviços de atendimento especial da Secretaria Municipal da Saúde. O bairro, na região central, é um dos campeões de mortes por Aids. O distrito de saúde de Santa Cecília, onde fica Campos Elíseos, registrou 78 mortes por Aids no ano 2000, ou 36,73 óbitos por 100 mil habitantes. O coeficiente é três vezes a média da capital paulista. Na cidade toda, foram 1.427 mortos em decorrência da doença em 2000. No primeiro semestre deste ano, morreram 575 pessoas. No fim de 1996, quando o coquetel de três drogas contra Aids passou a ser distribuído de graça pelo SUS (Sistema Único de Saúde), as mortes começaram a diminuir, mas, nos últimos dois anos, praticamente estacionaram. Se os remédios aumentam a sobrevida, estaria morrendo quem abandona o tratamento. Essa é a tese da maioria dos médicos. Marinella Della Negra, do Emílio Ribas, estima que, no seu serviço, de 60% a 70% dos óbitos se devem à falta de adesão ao tratamento. Ela atribui outros 20% ao diagnóstico tardio. O restante, à resistência do organismo aos medicamentos. O médico Fábio Mesquita, que coordena o programa municipal de DST-Aids, acrescenta a associação da Aids com a hepatite C, o que, aparentemente, agrava a evolução da doença. "Estamos começando um estudo científico para saber por que as pessoas continuam morrendo", diz. Muitos dos serviços do Estado e da prefeitura estão formando os "grupos de adesão", na tentativa de atrair doentes que têm dificuldade em manter o tratamento. No SAE-DST/Aids de Campos Elíseos, em torno de 850 pacientes recebem o coquetel. Cerca de 20% acabam abandonando o tratamento ou deixando de tomar os remédios corretamente. O encontro de sexta era justamente para reunir essas pessoas. A sala ficou vazia. "Tá difícil de engolir? Venha se juntar ao grupo de adesão", dizia um cartaz preso na porta da sala onde aconteceria a reunião. A frase foi tirada de uma coletânea de textos sobre a dificuldade de tomar os remédios. "Estamos procurando ir às casas dos pacientes que abandonam o tratamento", diz a infectologista Valquíria Carvalho Brito, diretora do SAE de Campos Elíseos. Lidando com uma população de profissionais do sexo, moradores de rua e de cortiços, o contato, muitas vezes, fica impossível.
Entre os cerca de 700 integrantes do Grupo de Incentivo à Vida, não houve nenhuma morte entre 1999 e 2000. Neste ano de 2001, morreram três. O último deles, dois meses atrás, era um dos mais antigos membros do grupo. Tinha 32 anos, tomava medicamentos todos os dias desde que surgiu o AZT, trabalhava, tinha o apoio da família e do grupo de amigos. "Só dizia que estava cansado de tomar os remédios, não aguentava mais", conta o amigo José Araújo. "Um dia decidiu
que não queria mais viver e parou de tomar os medicamentos." Entre os grupos mais
informados e que discutem as dificuldades de adesão aos medicamentos,
as poucas mortes pela Aids ocorrem pela falência do tratamento. O quadro pode ser mudado para pior, ele prevê. Nas quintas-feiras à noite, quando cerca de 50 pessoas se reúnem para o Chá Positivo -onde são discutidas as dificuldades de adesão ao tratamento-, há cada vez mais pobres entre os que estão chegando. "Parte deles vêm para o encontro porque um lanche é servido no final", diz Scheffer. "Alguns não têm o que comer." Especialistas como Fábio Mesquita -do programa municipal- e Maria Clara Gianna -do programa estadual- lembram, porém, que a dificuldade em tomar o medicamento precisa ser vista num contexto mais amplo. Uma pesquisa feita em 99 pela Coordenação Estadual mostrou a importância da qualidade dos serviços de apoio. "Era o fator que mais alterava os níveis de adesão", concluiu a coordenadora da pesquisa, Maria Inês Nemes, da Faculdade de Medicina da USP.
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