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Começou nesta terça (06/11) e vai até quinta-feira (08/11) o 1o. Seminário Educação e Comunicação: Um Debate Contemporâneo, realizado em parceria pela Universidade Anhembi-Morumbi e a Faculdade de Educação da USP (FEUSP). Na abertura do evento, a professora da FEUSP Maria da Graça Setton destacou a importância da discussão em torno da socialização, tema que perpassa tanto a Educação como a Comunicação. "A idéia foi trazer especialistas de diversas áreas humanas, como ciências políticas, arte e sociologia, além de estudiosos da comunicação e da pedagogia, para mostrar o quão amplo é este debate", ressaltou. "Isso representa uma importante quebra de resistência da pedagogia em relação à comunicação de massa na discussão sobre o processo de socialização no mundo contemporâneo", salientou a professora, que é uma das responsáveis pela coordenação do seminário. A diretora de Graduação da Anhembi-Morumbi, Soledad Galhardo, apontou como ponto positivo o diálogo entre as instituições públicas e privadas. "Este evento também procura reduzir a distância entre as redes pública e a privada. Existe uma crítica muito forte às universidades particulares, mas elas são as responsáveis por boa parte da formação superior no país", afirmou. (Cristina Mori)
Na atual sociedade do consumo, as instituições tradicionais perderam seu espaço na socialização do indivíduo. A idéia foi defendida pelo sociólogo Renato Ortiz, professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, na palestra inaugural do 1o. Seminário Educação e Comunicação, realizado em São Paulo. Segundo o professor, escola, família e trabalho já não são as fontes principais de legitimidade para a definição do estilo de vida do indivíduo. Elas perderam a "competição" para o consumo. Isso significa que as pessoas hoje criam suas identidades elegendo roupas, música, modalidades de lazer e atitudes, a partir de um universo muito mais amplo de referência, que chega a elas principalmente através da mídia. Um exemplo vivo desta transformação, na opinião de Ortiz, são os jovens japoneses de cabelos coloridos e roupas espalhafatosas. A forma como se vestem entra em choque com os valores tradicionais da cultura japonesa, marcada pela valorização da disciplina e pelo forte vínculo à família, à educação formal e à empresa. "Este conflito ocorre em todo o mundo", afirmou. Ao lado de Ortiz na mesa de debates, a especialista em Comunicação e Semiótica e livre-docente da PUC de São Paulo, Maria Lúcia Santaella, ressaltou a profundidade das mudanças causadas pela revolução digital - que mal começou, segundo ela. A professora alertou para a importância de se pensar em formas de diminuir a exclusão digital. O problema é mais complexo do que o combate ao analfabetismo porque marginaliza também as pessoas de baixa escolaridade. "Já perdemos o bonde com os meios de comunicação de massa. Produzimos uma das maiores televisões comerciais e, ao mesmo tempo, a menor TV educativa do mundo", salientou. Para Maria Lúcia, a implantação caótica do ciberespaço e das tecnologias digitais pode fazer com que o Brasil perca mais uma oportunidade. Segundo a professora, a fusão entre TV e computador já é viável. Só não ocorreu ainda porque o público não está preparado para ser mais ativo diante da telinha. "As novas gerações já virão preparadas para isso e aí a TV poderá ser verdadeiramente educativa. Precisamos entender o 'educar' como o aumento da sensibilidade do indivíduo, não como a repetição. Repetir, que é o que a TV faz atualmente, não é educar", concluiu. (Cristina Mori)
O educador precisa entender que a escola não carrega sozinha o peso da crise da sociedade. O alerta foi feito pelo professor da UFMG Juarez Dayrell durante o 1o. Seminário Educação e Comunicação, realizado em São Paulo. Para Dayrell, que estudou a socialização dos jovens de Belo Horizonte através do rap e do funk, apenas uma ampla articulação de políticas públicas resolverá as questões que tanto afligem a sociedade, como a violência e a desigualdade econômica. A escola não pode, contudo, deixar de pensar na mudança de sua estrutura. "A cultura escolar se construiu com base na sociedade de massa, onde os indivíduos eram considerados homogêneos. A sociedade de consumo de hoje parte do princípio de que os indivíduos são diferentes, com demandas específicas e diferenças culturais", afirmou. O professor alertou que essa cultura escolar de massa está arraigada em professores, pais e alunos, dificultando qualquer transformação. Já Ana Lúcia Castro, da Unicamp, ressaltou o problema criado na relação entre professores e alunos a partir do momento que a Educação virou um produto. "A Educação hoje é um bem simbólico, comprado e vendido, quando na verdade deveria ser um processo de sensibilização do indivíduo", afirmou. "Essa monetarização da relação professor-aluno é uma perda irreparável na Educação". (Cristina Mori)
Os Direitos Humanos estão sendo virados do avesso em nome deles próprios e a mídia não está ajudando o público a equacionar o problema. Foi o que afirmou, em tom de alerta, a professora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP), Maria Victoria Benevides, em mesa redonda sobre o tema "Educação na Comunicação: Uma Questão de Ética", durante o 1o. Seminário Educação e Comunicação, realizado em São Paulo. O comentário da professora é relativo à proposta norte-americana de tornar o uso da tortura uma "arma" legítima - aprovada por lei - contra o terrorismo. Enquanto isso, no Brasil, o poder público realiza uma ampla campanha de combate à tortura nas delegacias, onde a prática não deixa de ser usada como forma de obter confissões. Maria Victoria pontuou a necessidade de se integrar a ética como tema realmente transversal no currículo escolar. "É preciso discutir os Parâmetros Curriculares Nacionais e aproveitar os caminhos que eles abrem, ao invés de negá-los", ressaltou. "Temos a obrigação de propor como integrar uma comunicação democrática a uma educação democrática". Para o jornalista e professor Eugênio Bucci, da Faculdade Cásper Líbero, não se pode deixar a Educação e o mundo serem regidos pelos princípios de mercado. "O mercado promove inversões perversas de valores éticos. As empresas agora valorizem profissionais ambiciosos e agressivos. Isso é perigoso", acredita. Na opinião dos palestrantes, a questão da ética envolve a discussão sobre a mentira e as promessas não cumpridas. "Vivemos um boom de discursos sobre a ética, atrelado apenas à corrupção", alertou Flávia Schilling, professora da FEUSP. "Deveria ser muito mais amplo". Maria Victoria avaliou ainda que a ética passa necessariamente pelo direito do indivíduo à comunicação, e não apenas à informação. "Afinal, os Direitos Humanos moderníssimos incluem o direito não apenas à vida, mas à vida com dignidade", concluiu. (Cristina Mori) |
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