A Austrália é moderna e maravilhosa, primeiríssimo
mundo, sem dúvida. A grande ferida deste país, porém,
são os povos indígenas ('indigenous') - chamados de aborígines
aqui.
Os indígenas australianos provavelmente farão vários
protestos durante as Olimpíadas. A cultura destes povos está
em alta. Mantém-se viva por sua grande capacidade de adaptação
- artistas indígenas pintam, por exemplo, quadros com temas e estilo
tradicionais em telas de acrílico, alguns misturando elementos
com imagens da cultura européia.
O problema é que o orgulho indígena e a vitalidade de suas
manifestações não se refletem em sua condição
de vida. O Department of Employment, Education, Training and Youth Affairs
- Departamento de Emprego, Educação, Treinamento e Juventude
(olha só como os australianos entendem bem a inter-relação
destes pilares) - tem uma comissão especial que cuida da transição
dos indígenas da vida escolar para o trabalho.
Essa comissão fez um estudo sobre a educação e empregabilidade
dos indígenas e descobriu que estes jovens deixam a escola antes
dos não-indígenas (que hoje são os descendentes de
europeus, asiáticos, árabes e muitos outros). A juventude
indígena também é menos propensa a ingressar na faculdade
e a encontrar um emprego em tempo integral.
Pelo menos um terço dos rapazes com idade entre 20 e 24 anos e
metade das garotas estão ou desempregados, ou fora da população
economicamente ativa ou não estão estudando.
Mas a pior conclusão do estudo é que, mesmo com qualificações
escolares similares às de um não-indígena, um jovem
aborígene tem menos chances de conseguir um emprego.
A Austrália teve uma política oficial sistemática
para separar as crianças
indígenas de suas famílias entre os anos 1800 e 1969. Cerca
de 100 mil foram levadas para instituições do governo, adotadas
ou criadas por famílias brancas, para que pensassem e agissem como
brancos. Foram proibidas de falar suas próprias línguas
e de ter contato com suas famílias originais. Os resultados: abuso
sexual, drogas, alcoolismo e suicídios, temas sempre presentes
nos quadros de artistas indígenas.
As chamadas 'stolen generations' (gerações roubadas) hoje
lutam por
reconhecimento e indenizações. Devagarinho, a mentalidade
vai mudando. Na seção indígena do Australian Museum,
uma placa dirige-se especialmente a eles, dizendo o seguinte: "O
museu tentou assegurar que nenhum material secreto ou sagrado esteja em
exposição. Se qualquer imagem ou áudio desta exibição
for ofensiva, favor entrar em contato com os funcionários do museu
e serão tomadas as ações cabíveis". Super
politicamente correto e bem melhor do que jogar o exército para
cima deles.
PS: Mais um ponto para a cidadania em Sydney: com 4,5 milhões de
habitantes e muitos carros, todos os cruzamentos da cidade tem,
além de guia rebaixada para cadeira de rodas, avisos sonoros para
a travessia de pessoas cegas ou com problemas na vista.
Cristina
Mori é jornalista. De Sydney, Austrália, escreve
suas impressões para esta coluna.