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Um levantamento recém-concluído pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) conclui que a física está perdendo o espaço para a biologia, em particular a genética. Trata-se da mais extensa série histórica de dados já montada no país. Leia mais
Um levantamento recém-concluído pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) confirma o que todos já desconfiavam: a física está perdendo terreno e prestígio para a biologia, em particular a genética, segundo diversos indicadores. Trata-se da mais extensa série histórica de dados já montada no país. A comparação fica mais clara observando-se os números da pós-graduação - o índice mais importante e significativo, de acordo com a pesquisadora Gláucia Maria Gleibe de Oliveira, da Universidade de Brasília, uma das responsáveis pelo levantamento. "A quantidade de pós-graduandos reflete diretamente o montante de recursos disponíveis para determinada área científica", afirma Oliveira (veja o quadro à direita). É verdade que a genética, com a titulação de apenas 81 doutores, em 2000, ainda é bem "menor" que a física, que formou 178 pesquisadores no mesmo ano. O ponto, porém, é que o número de pós-graduados, a cada ano, está subindo mais depressa na primeira do que na segunda. Basta ver que, de 1987 para cá, a massa de doutores em genética cresceu quatro vezes e meia, enquanto a da física apenas triplicou. Consideradas no conjunto, as ciências biológicas em 1980 receberam 299 bolsas de mestrado contra 208 destinadas à física. Em 2000, no entanto, já haviam subido para 707, enquanto as de física caíam para 190. São dados preocupantes, diz a pesquisadora, para quem a física é estratégica. "Tanto que os bioquímicos, por exemplo, precisam saber mecânica quântica, uma teoria da física." Há quem pense que a falta de dinheiro nem é o ponto central. As críticas que se fazem ao projeto genoma, por exemplo, não dizem que ele atrai mais recursos do merece, mas que é badalado de maneira excessiva, condenando outras áreas a um certo ostracismo. "Parece que agora não há mais ciência, só genoma", afirma Oliveira. Algo parecido diz o presidente da Sociedade Brasileira de Física, José Roberto Leite, da USP. "Toda hora surge alguém querendo sequenciar os genes de algum organismo, mas não vejo ninguém empenhado em lançar um programa intensivo de pesquisa em nanotecnologia", afirma. "E veja que a nanotecnologia tem importância econômica imediata, enquanto os resultados dos mapeamentos genéticos, a despeito de seu enorme potencial, são de aplicação a mais longo prazo." Até em áreas biológicas se ouvem reclamações do mesmo tipo. "Tem muita gente insatisfeita", conta a farmacêutica Sílvia Regina Cavani, da USP e do Instituto do Coração. "Há uma sensação de que, fora dos genes, não há o que aprender em termos de ciências médicas. E isso, evidentemente, não é verdade." Desde o final do século 19, tornou-se hábito na comunidade acadêmica referir-se à física como "a rainha das ciências". Antes de mais nada, porque nas últimas décadas do século 16 a física foi a primeira área do conhecimento a lançar mão do método científico, baseado na lógica e na experimentação prática. Esse método, a seguir, passou a ser utilizado por outras áreas do conhecimento, além de proporcionar um rápido progresso à própria física. Ela chegou ao ápice na segunda metade do século 19, com o estabelecimento das leis fundamentais do calor, da mecânica e da eletricidade e do eletromagnetismo. Foram esses conceitos que, na primeira metade do século 20, serviram de alicerce para as descobertas espetaculares sobre as estrelas e o universo, e para a investigação detalhada do interior do átomo. O resultado, no último caso, foi a explosão tecnológica contemporânea, que resultou em uma infinidade de aplicações práticas, das telecomunicações e satélites aos tomógrafos e às substâncias sintéticas, incluindo plásticos, semicondutores e remédios. Nos últimos 20 anos, porém, o prestígio da velha soberana foi abalado seriamente pelo crescimento da biologia, ou, mais precisamente, da genética. Assim, enquanto minguavam as verbas para átomos e galáxias, engordavam as dotações para os genes e os cromossomos, até que os físicos resolveram tomar uma atitude. Não chega a ser um protesto: eles reconhecem a importância da genética e a necessidade de estimular o seu desenvolvimento - inclusive com dotação de fundos superiores aos da física. Mas dizem que, se essa última ficar muito fraca, a perda será geral - simplesmente porque as conquistas das ciências biológicas, nos últimos 50 anos, foram feitas, em larga medida, com a ajuda de conceitos, instrumentos e métodos proporcionados pela física. Essa análise consta do mais recente relatório do Conselho Nacional de Pesquisa (NRC, na sigla em inglês), órgão criado em 1916 para assessorar o governo federal dos Estados Unidos na formulação da política científica. O NRC prepara relatórios de dois em dois ou de três em três anos, conforme a necessidade, e baseia-se em uma avaliação cuidadosa de cada área científica nos dez anos anteriores à publicação de um relatório. Em 2001, saiu o relatório referente à física, assinado por Thomas Appelquist, da Universidade Yale, e Donald Shapero, diretor do Conselho Nacional de Pesquisa daquele país. Suas conclusões, em princípio, só têm valor para os Estados Unidos, mas é razoável inferir que retratam também a situação internacional. Primeiro porque, dado o peso da física americana, seu possível enfraquecimento certamente terá repercussão global. Além disso, a genética não está disputando a primazia só nos Estados Unidos, mas vem crescendo acima da média em toda parte. "A física e as ciências conceitualmente próximas a ela, como a química, a matemática e a computação, forneceram inspiração e instrumentos decisivos para o Big Bang de avanços que vemos atualmente em curso nas ciências da vida", afirma Appelquist, acrescentando que essa interação deverá continuar, nos próximos anos. Mas, para que isso aconteça, recomenda ampliar os recursos da física. "Nos últimos 20 anos, o apoio federal a ela caiu 20% em relação ao crescimento da economia, enquanto as ciências da vida cresceram 20% acima da economia" (veja o quadro à direita). Qual seria o nível mínimo de financiamento necessário para que os físicos dêem conta da responsabilidade que eles mesmos julgam ter, como desenvolver inovações e instrumentos para outras ciências? É difícil dizer. O relatório do NRC recomenda que as dotações orçamentárias sejam recompostas nos níveis de 1980, mas isso pode não ser suficiente, na opinião de muitos cientistas. É o caso do físico Steven Weinberg, da Universidade do Texas, para quem a situação é mais crítica do que se pinta no relatório do NRC. Ganhador do Prêmio Nobel em 1979, Weinberg afirma que a comparação de fundos com a genética é menos importante do que uma revisão de prioridades dentro da própria física, que revelaria, segundo ele, carência total de apoio à pesquisa fundamental. "O que chamo de física fundamental é a busca das leis mais profundas da natureza, das quais depende a validade de quaisquer outras leis científicas", afirma ele. "Esse campo está terrivelmente mal financiado e faminto de dados que só podem ser obtidos usando equipamentos caríssimos", continua. Essa insatisfação pode refletir, em parte, apenas uma questão de momento, como coloca o linguista Carlos Vogt, da Unicamp, vice-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) "A pesquisa genética segue os interesses mercadológicos que, atualmente, estão transformando a sociedade", diz Vogt. "É natural, portanto, que os físicos americanos se sintam abalados, mas isso é normal." A geneticista Mayana
Zatz, do Instituto de Biociências da USP, diz o mesmo, com outras
palavras. "O fato de algumas áreas terem mais verbas que outras
é fruto da demanda de mercado, dos objetivos da sociedade",
explica a pesquisadora, que reconhece o papel da física. "Ela
foi e é fundamental para a pesquisa biomolecular, mas a genética
estava defasada no Brasil, por isso está crescendo mais agora". Entre elas, estão a falta de planejamento e uma tendência a acompanhar linhas de pesquisa estabelecidas no exterior, em detrimento de áreas de maior interesse local. Mesmo sem reivindicar verbas, Miguel Rodrigues, diretor do Museu de Zoologia da USP, chama a atenção para esse ponto. "O Brasil é dono de uma vasta diversidade biológica e não pode se submeter a um papel diminuto nesse campo", diz. A questão, portanto, é bem mais complexa do que a simples contabilidade financeira. Envolve a necessidade de avaliar, com todo o cuidado e regularmente, como fazer a distribuição dos recursos disponíveis para que sejam aproveitados da melhor maneira possível. Em linguagem mais direta, não interessa muito saber quem é a rainha. O essencial é que se faça um bom governo. (Folha de S. Paulo)
O exemplo mais conhecido e mais espetacular do apoio da física a outras áreas do conhecimento foi a descoberta da estrutura química do DNA, em 1953 - simplesmente, o evento fundador da genética contemporânea. Por incrível que pareça, a estrutura em dupla hélice do DNA começou a ser desvendada devido ao esforço de um físico britânico para neutralizar a superioridade aérea nazista no início da Segunda Guerra Mundial. John Randall, da Universidade de Birmingham, Inglaterra, levou a sério um apelo do governo do Reino Unido para que se construísse um radar capaz de detectar caças alemães a longa distância. Os aparelhos de vigilância disponíveis à época empregavam ondas de rádio e não enxergavam os pequenos caças alemães de muito longe. Randall resolveu o problema inventando o radar de microondas (usado ainda hoje), que podia identificar os agressores ainda fora do território inglês. Alçado à categoria de herói, com verba farta para estudar o que quisesse, Randall decidiu dar uma mão aos biólogos e aprimorar um instrumento capaz de mostrar como os átomos estão arranjados dentro das moléculas químicas. Nasceu, assim, o cristalógrafo de raios X, uma espécie de aparelho de radiografia sofisticado, que, não muitos meses mais tarde, revelou a estrutura em hélice da molécula de DNA. A equipe responsável pela proeza era composta pelos físicos Maurice Wilkins e Rosalind Franklin e pelos biólogos James Watson e Francis Crick. Três membros do quarteto receberam o Prêmio Nobel de Medicina em 1962. Watson, aliás, começou 2002 sendo condecorado condecorado no Reino Unido com o título honorário de cavaleiro. Rosalind Franklin ficou de fora, o que é considerado por muitos cientistas uma injustiça histórica da Real Academia de Ciências da Suécia. Hoje a comunidade de físicos insiste no reconhecimento ao nome da pesquisadora. Esse fato, diga-se de passagem, é narrado com detalhes no livro "O Sol, o Genoma e a Internet", lançado no Brasil no fim do ano passado, do físico americano Freeman Dyson, do Instituto para Estudo Avançado, da Universidade Princeton. Histórias e injustiças à parte, a física, nos anos 50, ainda mantinha o seu cetro e continuou fornecendo ferramentas decisivas para os avanços das ciências biológicas. Os exemplos mencionados pelos físicos americanos são inúmeros e, de resto, bem conhecidos - vão ao laser e do ultra-som aos tomógrafos, endoscópios e microscópios eletrônicos cada vez mais potentes. Isso para não falar no computador, sem o qual não teria sido possível, no prazo de apenas dez anos, ter mapeado o genoma humano, a realização mais badalada da genética atualmente. (Folha de S. Paulo) |
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