| |||||||||||||||
|
Oito estudantes brasileiros estão estudando medicina em Cuba, a convite do presidente Fidel Castro. Todos eles estudavam em escolas públicas de bairros pobres do país. Os bolsistas foram escolhidos entre os alunos da associação de cursinhos comunitários Educafro (Educação de Afrodescendentes e Carentes). Leia mais
Um grupo de brasileiros está agora em Cuba participando de uma revolução. São jovens que, a convite do presidente Fidel Castro, estão aprendendo a lidar com armas poderosas: bisturis, agulhas cirúrgicas e livros. Principalmente livros. A revolução, pequena por enquanto, está ocorrendo na vida de oito estudantes egressos de escolas públicas de bairros pobres em cidades brasileiras. Com bolsas de estudo concedidas pelo governo cubano, eles estão fazendo o curso de graduação na Escola Latino Americana de Ciências Médicas, em Havana, sem pagar nada. Os bolsistas foram escolhidos entre os alunos da associação de cursinhos pré-vestibulares comunitários Educafro (Educação de Afrodescendentes e Carentes), uma das diversas entidades selecionadas por Cuba para indicar quais devem ser os alunos da instituição. Atualmente, há 180 brasileiros estudando medicina na escola, alguns deles pagando. Entre as organizações que selecionam os alunos estão ONGs, como o MST, e partidos políticos, não só os de esquerda. Os bolsistas atestam que a fórmula socialista da escola dá certo. "As pessoas que podem pagar pagam e financiam a bolsa para os que não podem", diz a estudante Denise Aleixo do Nascimento, 21, que há um ano e meio se mudou do bairro do Imirim, em São Paulo, para Havana. A Escola Latino Americana de Ciências Médicas foi criada em 1999 só para estrangeiros e recebe anualmente 1.500 estudantes de 24 países da América Latina e África. Apesar de não terem feito nenhuma prova para obter a vaga, os estudantes da Educafro passaram por uma concorrida disputa interna. No ano passado, foram 85 estudantes concorrendo às duas vagas oferecidas. É um vestibular com resultado incomum: todos os candidatos que passam em medicina são jovens que estudaram a vida toda em escolas da rede pública. "Esses alunos são talentos que o sistema educacional brasileiro jogou fora. Todos eles prestaram vestibular em universidades públicas daqui e não conseguiram passar", diz o frade franciscano David dos Santos, coordenador da entidade. Roberto Jaguaribe Trindade, 22, outro bolsista indicado pela Educafro, é o segundo melhor aluno de sua turma, que tem 60 estudantes. No Brasil ele não teve sucesso nas duas vezes em que tentou os vestibulares da Unesp e da Unicamp para medicina. Para frei David, o êxito dos brasileiros na universidade de Cuba mostra "distorções" no acesso ao ensino superior. "Os vestibulares das universidades públicas fazem hoje uma seleção desonesta, baseada no acúmulo de saber acadêmico, não na capacidade do aluno", diz. Para conseguir a bolsa, os alunos dos mais de 150 cursinhos ligados à Educafro têm de obter bom aproveitamento nos estudos, provar que têm interesse na carreira e mostrar afinidade com a proposta da entidade. "Eles têm de provar que têm uma visão social ampla, de solidariedade", diz frei David, que participa pessoalmente de entrevistas com os candidatos. Neste ano, 143 alunos já manifestaram interesse. O que os alunos aprendem em Cuba parece retribuir a missão da entidade. Roberto Trindade diz que quer voltar ao Brasil para trabalhar em saúde pública. "Se a gente chegar aqui, entrar em um hospital particular e ficar sentado atrás de uma mesa, esperando gente que pode pagar, vamos contrariar tudo o que a gente está aprendendo lá, sobre como ser um médico solidário. Eu me sentiria mal se fizesse isso." Uma das preocupações da Educafro agora é garantir a validação do diploma dos primeiros brasileiros que voltarem formados. Para isso é necessário que uma universidade pública do Brasil reconhaça como legítimo o curriculo da escola de Cuba. Outras entidades com bolsistas em Cuba já procuraram a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). (Folha OnLine)
A dedicação dos alunos e a qualidade dos professores que lecionam na Escola Latino Americana de Ciências Médicas, em Havana, compensam a falta da infra-estrutura do curso, que sofre com o embargo econômico à ilha socialista. Essa é a opinião de alguns dos brasileiros bolsistas na instituição. Um dos problemas que os estudantes têm de enfrentar é o da falta de bibliografia. "Uma vez eu precisei fazer um trabalho com 12 referências bibliográficas. Fui para todas as bibliotecas de Havana e só consegui três ou quatro. Tive de pedir ajuda para minha mãe. Ela mandou do Brasil alguns livros e mais de cem referências", conta a estudante Denise Aleixo do Nascimento, 21, aluna do segundo ano, de férias em São Paulo. Os livros e informações conseguidos pela brasileira são usados pelo seu grupo de estudos, e os trabalhos realizados pelos alunos são incorporados ao acervo da universidade, que realiza periodicamente uma jornada científica para catalogar informação. Outra forma de superar o problema encontrado pelos médicos da ilha é a colaboração de autores estrangeiros que abrem mão dos direitos autorais para livros editados em Cuba. "A gente usa um tratado de fisiologia que aqui custa quase R$ 200 e lá é de graça", afirma Denise. Mesmo enfrentando alguns percalços, a escola, que só recebe estrangeiros, tem condições de oferecer um privilégio que outras faculdades de medicina de Cuba não têm. Lá os alunos recebem toda a bibliografia básica de graça. "A gente vê que em outras escolas cubanas não é assim. Nossos equipamentos são melhores, nossas bibliotecas são melhores. Os estudantes cubanos acabam usando os mesmos livros, mas eles têm mais trabalho para encontrar", conta Roberto Jaguaribe Trindade, também no segundo ano. A falta de recursos na escola parece de fato ser restrita à bibliografia. Os alunos, que possuem um microscópio para cada um na hora de estudar, se enchem de brio para falar dos professores. "Temos aulas com um dos melhores anatomistas da América Latina e a autora de um dos melhores livros de bioquímica", afirma Denise. Os gastos com a escola são alvo de críticas dos opositores de Fidel Castro, que o acusam de usar a instituição para fazer propaganda internacional do regime. Dois pontos fortes das ciências médicas em Cuba parecem exercer atração nos estudantes: a medicina preventiva e a saúde pública. A ilha comunista conseguiu durante o período de ajuda soviética erradicar mais de uma dezena de doenças tropicais que ainda são encontradas no Brasil. Com as dificuldades econômicas geradas pelo embargo econômico dos EUA, isso passou a ser prioritário, já que prevenir é mais barato do que remediar. "Lá quando o mosquito da dengue começa a aparecer, eles já começam a fazer um trabalho com inseticidas no país inteiro, para evitar que apareça o primeiro caso", diz Trindade. "A malária está erradicada há mais de 30 anos. Tem médicos que só conhecem a sintomatologia por livro." A atenção à saúde publica é vista pelos alunos como uma cláusula pétrea na missão do médico. Roberto diz que não pensa nem em sonho abrir um consultório particular depois de formado para "ficar sentado atrás de uma mesa, esperando gente que pode pagar". Além das aulas, o espírito de colaboração aparece nas atividades extra-classe em que os alunos se envolvem. Roberto ganhou um diploma como reconhecimento por trabalhar em plantio de cana. "O Fidel Castro sempre convida os alunos da escola para as marchas [passeatas] e tribunas [manifestações], como a que teve pela volta do Elián González para Cuba.", diz Denise. Tanta proximidade com o comandante da revolução acabou inspirando os brasileiros, que querem retribuir os anos de estudo com todas as despesas pagas. "Nós dois sozinhos não vamos fazer uma revolução aqui [no Brasil], na saúde, mas a gente pode começar. A gente pode ajudar a oferecer uma assistência um pouco mais digna para as pessoas que necessitam", afirma Roberto. (Folha OnLine) |
| |||||||||||||