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Na África do Sul, universidades negras estão à beira da falência No auge da luta contra o apartheid em meados dos anos 1980, protestos na Universi-dade de Durban-Westville eram tão comuns quanto lápis. Ironicamente, aqueles anos -onde estudantes enfrentavam continuamente a polícia em protestos contra a segregação- foram os melhores anos para a escola, uma "universi-dade negra" criada sob o regime racista para servir apenas aos estudantes não-brancos. A chegada da democracia seis anos atrás deveria ter iniciado uma era de ouro para o ensino na África do Sul. O país ganhou estabilidade, as barreiras raciais caíram, e o novo governo negro prometeu tornar o ensino acessível a todos. O novo livre mercado na educação teve alguns efeitos positivos. Pela primeira vez, es-tudantes não-brancos e acadêmicos tinham liberdade para escolher as escolas que desejassem. E algumas das universidades mais tradicionais exclusivamente brancas passaram a fazer um esforço notável para atrair e encorajar estudantes que antes eram barrados em seus campus. Mas a Durban-Westville e outras escolas tradicionalmente menos dotadas estão se saindo mal. Incapazes de competir com universidades mais dotadas, instituições inter-nacionais recém-chegadas, e escolas vocacionais, elas viram minguar o número de matrículas. O número menor de alunos implica em um rendimento menor. Ultimamente, pelo menos quatro faculdades negras tradicionais estão à beira de fechar suas portas. Praticamente todas as universidades negras estão fechando departamen-tos, realizando menos pesquisas, e cortando programas vitais que ajudavam alunos pobres e com formação inadequada. Como resultado, temem alguns acadêmicos e lí-deres estudantis, tais alunos menos dotados -aqueles que não podem pagar escolas mais caras ou não atingem as notas para entrarem nelas- sairão perdendo. No ano passado, a Durban-Westville quase fechou sua faculdade de engenharia, uma das melhores do país. Neste ano, ela fechou os departamentos de letras, religião e ar-tes plásticas. Em março, a faculdade de administração foi transferida para o novo pré-dio de música da universidade, e um orgão de tubo que custou centenas de milhares de dólares há apenas poucos anos agora está silencioso, aguardando para ser vendi-do. As faculdades negras "fornecem historicamente um acesso maior à estudantes pobres e mal preparados", disse Salim Vally, um especialista em educação da Universidade de Witswatersrand de Johannesburgo. "Elas estão localizadas mais próximas dos estudantes, possuem taxas menores e exigências menos rigorosas". Sem elas, disse Vally, "seria mais difícil para os alunos pobres e mal preparados terem acesso a programas mais avançados". O declínio ocorre quatro anos depois da África do Sul, em sua nova constituição, decla-rar que "todos têm direito a dar continuidade a sua educação, que o estado, por meio de medidas razoáveis, deve tornar progressivamente disponíveis e acessíveis". Tal meta está sendo frustrada pelos custos. Um ano depois, um estudo do governo concluiu que o ensino superior "perpetua padrões injustos de acesso e participação", falha em "atender às exigências morais, sociais e econômicas da nova África do Sul, e não pode sobreviver sem o pagamento das mensalidades." O governo enfrenta um dilema: como reestruturar as universidades, faculdades e esco-las vocacionais, para fornecer um melhor acesso à alunos pobres e mal preparados, e oferecer programas necessários para produzir uma força de trabalho tecnologicamente avançada, racialmente tolerante e diversa, sem esgotar os recursos da nação? A África do
Sul possui 36 instituições de ensino superior, que formam
um sistema projetado, segundo Kader Asmal, o ministro da Educação,
para atender à "idéia geopolíti Para acertar os desequilíbrios, o novo governo negro pressionou as escolas mais dota-das para que diversificassem seu corpo estudantil. O governo também ofereceu subsí-dios para assegurar a melhoria das faculdades negras e permitir que os alunos pobres e mal preparados pudessem freqüentar o ensino superior. Tais recursos ampliaram a disputa pelos alunos e pelos subsídios que acompanham tais matrículas, disse Jonathan Jansen, reitor do corpo docente da Universidade de Pretória. "No momento, eu aceitarei qualquer aluno", disse ele, argumentando que es-tudantes não-brancos no momento desfrutam de oportunidades sem precedentes. Mas a nova ajuda financeira governamental também permitiu que algumas escolas de performance ruim permanecessem abertas, privando de recursos instituições mais ca-pacitadas. Pelo menos cinco universidades negras, espalhadas pelo país, apresentam médias de notas de formatura muito baixas e são marcadas por dívidas e corrupção. Em junho, uma força-tarefa governamental recomendou a fusão de algumas faculdades negras com escolas tradicionalmente brancas mais dotadas, para minimizar a sobrepo-sição de programas acadêmicos, ao mesmo tempo em que asseguraria que o sistema desse ênfase à ciência e tecnologia. As recomendações geraram controvérsias em todas as partes. Os críticos disseram que o governo está falhando em resolver duas importantes ten-dências que estão contribuindo para o encolhimento da base estudantil. Uma é a rápida chegada de escolas internacionais oferecendo cursos rápidos de mestrado. A outra é o declínio da taxa de graduação no segundo grau. Atualmente, menos da metade dos alunos do segundo grau são aprovados no exame que permite o ingresso no ensino superior. Enquanto isso, as faculdades que tradicionalmente atendiam aos alunos pobres e mal preparados e que prosperavam apesar das restrições do apartheid, estão lutando para se adaptar. Localizada em meio a barracos e moradias de baixa renda nas colinas atrás do princi-pal porto do Oceano Índico da África do Sul, a Universidade de Durban-Westville foi criada dentro do sistema do apartheid para atender apenas aos alunos de descendên-cia indiana. No início dos anos 1980, entretanto, ela adquiriu a reputação de desafio, aceitando alunos negros apesar da resistência do governo. Ela manteve, entre outros programas, as melhores faculdades de engenharia, ciências médicas e administração disponíveis para estudantes não-brancos, e entre seus ex-alunos estão figuras-chave dos setores público e privado. Atualmente, Durban-Westville declara estar lutando "para tornar o ensino universitário acessível para todos, especialmente estudantes que estão em desvantagem financeira ou educacional". Mas estudantes pobres geralmente custam mais e recebem menos, dizem membros da Durban-Westville, e a universidade sentiu o aperto. Em maio, pela primeira vez, a esco-la disse para cerca de 500 estudantes que não poderiam continuar estudando a menos que pagassem mensalidades atrasadas. A ação gerou protestos. A polícia foi chamada, e um estudante foi morto à bala. "Atualmente nós reunimos a maior parte da população de estudantes africanos, e o problema do financiamento é uma questão básica entre estes alunos, considerando a origem deles", disse Simon Kakana, vice-chanceler adjunto da Durban-Westville. "Nós estamos em uma posição muito difícil. Nós precisamos dos estudantes negros, mas a maioria deles não pode pagar". As dificuldades financeiras forçaram a Durban-Westville a cortar programas que visa-vam ajudar a melhorar o ensino de alunos menos dotados educacionalmente. A escola também decidiu, atendendo à ênfase do governo em ciência e tecnologia, reduzir os cursos da área de ciências humanas. Para isto, ela está voltando suas atenções para os colégios das redondezas para "plan-tar uma safra", como disse Kiru Naidoo, um membro da Durban-Westville. "A menos que a gente saia e crie um corpo de calouros de ciência e tecnologia, nós não os tere-mos". (The Boston Globe) |
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