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Em 1999, o sociólogo e educador Dinho Rodrigues resolveu conciliar o prazer e o gosto pela música e a vontade de realizar um trabalho diferenciado na favela do Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo. Munido de alguns instrumentos de percussão, foi ensinar a garotada a batucar. Nascia assim o projeto Barracão dos Sonhos (www.morumbivirtual.com.br/barracaodossonhos/). Todos os finais de semana, ele reunia um grupo crianças e jovens da favela, perto de onde acontecia a feira livre da região. "O lugar era uma sujeira", diz Rodrigues. O que parecia um empecilho para dar continuidade à iniciativa foi incorporado em músicas e nas atividades dos garotos. Entre um ensaio e outro, a sujeira, a situação de insalubridade da favela e a necessidade de reciclagem do lixo animava toda a turma - virou letra e campanha. Pouco tempo depois, com a ajuda das mães de alguns garotos, instalou-se um projeto de coleta seletiva. Uma mãe cedeu um pequeno terreno para a construção de uma edícula. Assim como ocorreu com o lixo, a música passou a ser o meio para problematização de outros assuntos. Atualmente, mais de 150 crianças e jovens participam da iniciativa. Conteúdos escolares como a matemática e a língua portuguesa são estudadas por meio da construção de melodias e de poesias. "Nós descobrimos a música e o ritmo um princípio pedagógico", explica Dinho. Outras entidades estão chegando à mesma conclusão. A Associação Ginga Molleke, por meio da música, está promovendo o resgate da auto-estima e dando novos significados para educação dos estudantes negros da escola municipal Comandante Garcia D'Avila, zona Norte da Capital. Nas tardes de sábado e domingo, as aulas tradicionais cedem espaço para os instrumentos de percussão, berimbaus e violões que tocados pelos alunos relembram tradições e histórias da população negra. "É a realização de um antigo sonho", diz Marcos Antonio dos Reis, professor de História e idealizador do projeto. Para produzir músicas, as crianças e adolescentes são estimuladas a pesquisar. "Nós fazemos com que eles descubram o prazer de estudar coisas significativas", conta. Atualmente, 35 estudantes participam das atividades de percussão. Segundo Reis, o número só não é maior porque não há instrumentos suficientes. O sucesso da música entre a garotada tem explicação: ela é uma forma de representação simbólica do mundo e seu caráter lúdico e prazeroso concilia o prazer com a aprendizagem. A explicação é da educadora Teca Alencar de Brito, coordenadora de atividades da Teca Oficina de Música (www.artenaweb.com.br/teca/frame1.html) e uma das relatoras do conteúdo de música do Plano Curricular Nacional. A educadora conta que a música favorece a postura ativa dos estudantes e estimula a criação. "Eles passam a compor, inovar e cantar". Entretanto, apesar dos benefícios, na maioria das instituições de ensino a música é esquecida ou virou acessório - é lembrada nas festividades da escola, na fanfarra, etc -, "uma perda enorme," segundo ela. "A possibilidade de trabalho deveria ser assegurado à todos. Para uma população que já possui muitas carências a possibilidade de desenvolver a musicalidade passa a ter enorme significativo", defende Teca. (Raquel Souza) |
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