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Há menos alunos
na rede privada, mas o número de escolas e cursos continua crescendo.
As matrículas em escolas particulares caíram 3% no país,
enquanto o volume de cursos aumentou 50,8%. Leia mais.
As Secretarias Estadual e Municipal de Educação adotam estratégias para organizar as matrículas e garantem vagas para todas as crianças. No entanto, as aulas começam quinta feira e ainda há crianças na espera por um lugar nas escolas de São Paulo. Leia mais.
O ensino particular brasileiro vive um paradoxo. Há menos alunos na rede privada, mas o número de escolas e cursos não pára de crescer. Uma das razões é a queda das taxas de natalidade no País - há hoje menos crianças e jovens em idade escolar do que se previa há duas décadas. Nesse universo, a lei da oferta e da procura foi revogada: diminui a demanda, mas novas vagas são criadas. Em São Paulo, o número de matrículas caiu 5,3% em 2001 em relação ao ano passado, uma taxa superior à média histórica anual da década, 3%, segundo a empresa CNA, que presta consultoria para a rede particular paulista. No País, a queda também foi de 3% entre 1994 e 1999. Na luta para atrair alunos, as escolas fazem de tudo. Faixas em postes, cartazes no metrô, ônibus pintados, outdoors. É o que fez o Colégio Cor Jesu, em Santa Cecília. Com uma faixa instalada numa rua de Higienópolis, a escola apregoa o valor da mensalidade, mais barata. "Diminuir o preço para tornar a escola mais acessível a um grupo maior de pessoas é uma tentativa de equilibrar a receita", diz o diretor Mateus Disner. A mesma tática é utilizada pelo tradicional Colégio Sion, que expõe seus preços em outdoor. O Colégio Piaget, no Imirim, faz propaganda em ônibus que circulam na zona norte. Está dando certo. "Até agora, mantivemos o número de alunos, mas não sabemos como será o futuro", diz a diretora Clisolda Araujo. A nova realidade do ensino pago é acompanhada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) do Ministério da Educação. Enquanto as matrículas nos níveis fundamental e médio caíram 3% no País, o volume de cursos cresceu 50,8%. Os colégios que tinham só pré-escola criaram classes de 1ª à 4ª série; as que ofereciam essas quatro, ampliaram a oferta até a 8ª série, esperando manter a clientela. Novamente, São Paulo ilustra o movimento: houve aumento de 64% no número de cursos oferecidos, que saltou de 2.908 em 97 para 4.782 em 2000. No mesmo período, as matrículas caíram 7,3% - de 505.358 para 468.356. Apesar de saberem que a concorrência é grande, muitos professores tentam realizar o sonho da escola própria. Depois de cinco anos economizando o salário de professora estadual, Solange Véras Felix montou, com uma amiga, a escolinha Criando e Rindo, na Vila Formosa. Muitas das unidades que viu abrir e fechar desde que se instalou no bairro, em 1991, também começaram assim. "O problema é ter de trabalhar da mesma forma e com a mesma vontade com muitos ou poucos alunos", afirma. "As despesas se mantêm mesmo com a perda de alunos". A situação econômica do País criou um vaivém de alunos entre escolas particulares e até entre as redes pública e privada. A diminuição de clientela deixou instituições particulares com espaço ocioso e introduziu no cotidiano de donos e diretores expressões do noticiário econômico. A regra é reunir duas ou mais escolas por fusão ou incorporação, segundo propõe o consultor João Paulo Nogueira, da CNA. "Agora que a quantidade de estudantes é menor, o número de instituições tem de diminuir." A Escola Caravelas e o Colégio Oswald de Andrade seguiram o conselho. As duas enfretavam redução do número de matrículas, mas não estavam deficitárias. "Percebemos, porém, que a expectativa de manter a estrutura e continuar crescendo não condizia com a realidade", conta Maria de Lourdes Trevisan, diretora do Caravelas e conselheira da nova instituição. Em setembro, as ex-concorrentes anunciaram a união. Sem fechar nenhuma
das unidades, o novo Oswald de Andrade-Caravelas oferece o ciclo completo,
da educação infantil ao ensino médio. As 820 matrículas
deste ano correspondem à soma de alunos das escolas em 2000. A Pueri Domus Escola Experimental apostou em associações. Em 93, criou um programa que hoje conta com 101 escolas associadas no País. A escola oferece proposta pedagógica, material didático, orientação administrativa e treina professores. "A escola que vai sofrer o menor impacto dessa queda é a que estiver fortalecida pela união com outras", diz o diretor-geral do programa, Tirone Lanix. Resta saber se escolas
de renome seguirão a tendência. Mas é pouco provável.
(O Estado de S. Paulo)
A queda da qualidade do ensino público, a partir da década de 70, fez com que a educação privada deixasse de ser um luxo. "Agora é uma necessidade da classe média", avalia o consultor João Paulo Nogueira. Pais que procuram educação qualificada relutam em trocar o colégio dos filhos e estes também se queixam do que encontram na escola pública. A funcionária pública Denise Condeixa está entre os pais que não se importam de conviver com dívidas para pagar a escola. "Vivo uma situação bem típica", diz. Quando as contas apertam, atrasa as mensalidades, em torno de R$ 600,00, mas não pensa em tirar os dois filhos do Arquidiocesano. E confessa que fica triste por viver "num País que não dá uma escola com estrutura, ética e oportunidades aos jovens". Há ainda pais que procuram fugir da escola pública migrando do colégio mais caro para o mais barato. Só em último caso enviam seus filhos para a rede pública - e logo descobrem que vale qualquer sacrifício para voltar para a particular. As crianças
reclamam do barulho na sala, de ter aulas sobre assuntos que já
aprenderam em séries anteriores na escola particular e da falta
de estímulo. As escolas que Maria do Carmo visitou agora se mostraram muito mais dispostas a negociar o valor das mensalidades e as formas de pagamento do que há três anos. Mesmo assim, já avisou aos filhos que não haverá roupa nova nem presentes ao longo do ano. Alguns dos colégios mais tradicionais enfrentam situação diferente dos demais. O Arquidiocesano, uma instituição de 127 anos, é uma das exceções da área, com 2% de crescimento nas matrículas no último ano. "Há público para todas as faixas de mensalidade e propostas pedagógicas", diz o diretor do Arquidiocesano, Ascânio João Sedrez. "Às vezes, é uma questão de os pais acreditarem na imagem construída por uma certa escola e, então, ela começa a se encher de alunos", afirma o diretor do Liceu Coração de Jesus, o padre salesiano Ailton Antônio dos Santos. Preservando a ênfase na formação religiosa, o Liceu conseguiu manter nos últimos anos uma média de 1.500 matrículas. Em 1991, eram 1.792. (O Estado de S. Paulo)
A três dias do início do ano letivo, o garoto Lucas da Silva Faria, ainda não sabe se vai conseguir uma vaga na 1ª série. Embora já tenha idade para ingressar no ensino fundamental - vai completar 8 anos em junho -, ele está na fila de espera da Escola Estadual Itiro Muto, no Parque das Nações, zona sul. No outro lado da cidade, na zona leste, o menino Eduardo Gomes da Silva também aguarda uma vaga na 1ª série. "Não consigo nem pôr seu nome em lista de espera, porque alegam que ele só completará 7 anos no meio do ano", explica sua avó, Terezinha Rosa da Silva. "Mas se não começar a estudar, ele vai ficar atrasado, não?" Casos como o de Lucas e Eduardo mostram que, apesar das estratégias adotadas pelas Secretarias Estadual e Municipal da Educação para organizar a matrícula este ano e do compromisso de garantir um lugar para todas as crianças, ainda existem pais que vivem, às vésperas do início das aulas, a angústia de não ter a certeza de que seu filho conseguirá uma vaga na rede pública, um direito assegurado a toda criança de 7 a 14 anos. "Fui várias vezes à escola e à diretoria regional de ensino. Só consegui a informação de que talvez o Lucas consiga vaga numa escola que só ficará pronta depois do dia 20", diz a mãe do garoto, Simone da Silva Farias. O caso de Eduardo é pior, pois sua avó nem sequer conseguiu cadastrá-lo, apesar de ter tentado duas escolas. E o problema não se restringe ao ensino fundamental: 10 mil crianças de 4 a 6 anos estão correndo o risco de começar o ano letivo com atraso por falta de vagas nas escolas municipais de educação infantil de São Paulo. Embora a Secretaria Municipal da Educação se comprometa a apresentar uma solução para todos os problemas que surgirem, o secretário Fernando José de Almeida admite que faltam vagas nas Emeis de determinadas regiões da cidade - justamente as mais pobres e onde a demanda é maior. Enquanto em bairros de classe média sobram vagas em Emeis - na Lapa são 551 -, no Grajaú, na periferia da zona sul, há um déficit de 68,6% de vagas em relação à população de 4 a 6 anos. Se forem computadas todas as vagas em pré-escolas, inclusive nas particulares, o déficit no Município é de 55,1% (480 mil vagas). "A população pobre, da periferia, cresce mais rápido que a do centro", analisa a vereadora Aldaíza Sposati (PT), autora do Mapa da Exclusão/Inclusão Social. Por falta de planejamento, porém, a infra-estrutura não acompanhou o movimento da população, criando bolsões de falta de vagas, o que só deverá ser resolvido com a construção de novas escolas onde elas realmente são necessárias. No ensino fundamental,
há 1,7 milhão de vagas para 1,4 milhão de crianças
entre 7 e 14 anos. Mas, como ocorre na educação infantil,
nem sempre a vaga está onde o estudante precisa. Sandra da Silva
Cardeal tentou inscrever sua filha Ester na Emei Zumbi dos Palmares. Mas
como a menina completaria 7 anos em outubro de 2000, acabou sendo encaminhada
para uma escola de ensino fundamental. Nesses casos - em que a criança não consegue vaga em uma escola distante até 2,5 quilômetros de casa -, o Ministério Público obriga a Prefeitura e o governo do Estado a providenciarem o transporte para elas. Os pais, porém, ainda não podem contar com essa solução: o esquema para 2001 está pronto. "Precisamos saber quem são as crianças que realmente precisam de transporte e elaborar um plano em conjunto com a Prefeitura", explica a secretária estadual da Educação, Rose Neubauer. "Mas devem ser poucas." (O Estado de S. Paulo) |
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