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Mudança na educação infantil tira crianças com mais de quatro anos das creches públicas. Ao sair da creche, as crianças deixam de receber cuidados em período integral. A grande preocupação das mães é com quem deixar os filhos quando estes estiverem fora da escola. Leia mais.
A partir do ano que vem, as creches públicas de Cidade Dutra, zona sul de São Paulo, não vão mais atender crianças entre 4 e 6 anos. A medida coloca em prática a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que determina que as crianças nessa idade devem freqüentar o ensino infantil regular. Para as mães, a mudança, inesperada, representa não ter mais com quem deixar os filhos para irem trabalhar. Isso porque as creches atendem até 12 horas ao dia, enquanto nas Emeis, a jornada é de 4 horas. As mães estão organizando um movimento pedindo que as Emeis funcionem em período integral ou que, provisoriamente, as crianças possam permanecer nas creches. Elas reuniram-se ontem na frente da Escola Municipal Miguel Vieira, em Cidade Dutra, onde faziam um abaixo-assinado. Mãe solteira de Gabriel, de 4 anos, Adriana Rodrigues está desesperada. Ela passou três anos sustentando o filho com bicos incertos, como o de distribuidora de panfletos em semáforos. Há oito meses passou em um concurso e tornou-se agente escolar da rede municipal. "Não posso perder esse emprego, não tenho com que deixar o menino e não posso levá-lo para o trabalho, o estatuto do funcionário público não permite", queixa-se. Mãe de três filhos, desempregada e separada, Eliane de Oliveira compartilha angústia semelhante. Para procurar emprego, ela contava com a creche de período integral para a caçula Tainá, de 4 anos. Pretendia deixar Thauani, de 6 anos, com a irmã mais velha, Tanires, de 10. "Não posso deixar a mais velha com dois pequenos e preciso trabalhar." "O pior é que só fomos avisadas dessa mudança no mês passado", queixa-se Suely Moreira, que teve seu filho designado para uma Emei longe de sua casa. "Eu trabalho o dia todo, pago perua e a sogra fica meio período com o meu mais velho, que está no ensino fundamental, mas ela tem idade e está doente, não pode cuidar de dois". (O Estado de S. Paulo)
Lucas Lopes tem 6 anos, já cursou dois de pré-escola na rede pública, mas corre o risco de interromper os estudos justamente quando ia entrar na 1ª série do ensino fundamental. O problema é que a escola que lhe foi designada pelo sistema unificado de matrícula fica a "dois ônibus" de distância de sua casa. "É impossível ir a pé e eu não tenho como pagar perua, por isso se não arranjarem vaga mais perto, ele vai parar de estudar", diz o pai, Luís Lopes. Ele pediu vaga na Escola Municipal Miguel Vieira, onde estuda a filha Thais, de 9 anos. "Quem leva e traz é a avó, de 67 anos, que, duas vezes ao dia anda 20 minutos e volta de lotação." Cerca de 30 mães e pais com o mesmo problema reuniram-se ontem na porta da Escola Miguel Vieira, em Cidade Dutra, periferia da zona sul. Marlene Marques da Silva Matos, moradora do bairro, enfrenta o problema pela segunda vez. Há quatro anos, quando seu filho mais velho Felipe entrou na 1ª série, ela passou três meses tomando dois ônibus de ida e dois de volta para levá-lo à escola, no bairro de Veleiros. Como não tinha com quem deixar o caçula, Henrique, de 2 anos, levava-o junto e passava quatro horas com ele no pátio. "Levava uma hora só para ir, não dava tempo de voltar para casa e nem haveria como pagar tanto ônibus", conta, lembrando que acabou conseguindo transferir o filho para uma escola perto de casa. Agora, enfrenta o mesmo problema com o caçula, que só conseguiu vaga na Escola Estadual Padre Francisco Azevedo, no Jardim Cruzeiro, a cerca de 30 minutos de ônibus de sua casa. "Vou ter de largar o mais velho sozinho em casa para levar o pequeno de ônibus e voltar a pé", diz. Mãe de sete filhos, Ana Maria Fagundes dos Santos está "calejada" para manter a maioria numa só escola: "Se não for assim, fica impossível levar e trazer." Os quatro mais velhos (Ricardo de 10 anos, os gêmeos Renato e Renata, de 9, e Paloma, de 8) estudam no Miguel Vieira, a 10 minutos a pé de casa. Já Airton, de 6 anos, que conclui a pré-escola perto de casa, só conseguiu vaga para a 1ª série na Escola Estadual Alex Mozzilli, a 30 minutos de ônibus. "Lá vai ser impossível, não tenho dinheiro nem com quem deixar os três pequenos", diz Ana Maria. Os caçulas Juan, de 3 anos, e Larissa, de 2, não conseguiram vaga na creche. A família vive com R$ 300 que o marido consegue como catador de papel e ferro-velho. Diante do problema, Carlos Giannazi, diretor da Miguel Vieira e conselheiro do sindicato dos Profissionais do Ensino Municipal, entrou ontem com representação no Ministério Público, solicitando que o governo do Estado pague o transporte para as crianças que só conseguiram vaga longe de casa. O argumento é que o Estatuto da Criança e do Adolescente garante o acesso à escola pública e gratuita próxima de casa. A Secretaria de Estado da Educação paga o transporte de uma parcela das crianças. A maioria dos que ficaram longe de casa freqüenta Emeis. O cadastramento e a designação da escola foram feitos pela Secretaria Municipal de Educação. Por meio de sua Assessoria de Imprensa, essa secretaria esclareceu que a escolha das escolas foi feita buscando-se sempre a vaga disponível mais próxima da residência do aluno. "É possível que tenham ocorrido alguns erros em 151 mil cadastros, mas foi um porcentual ínfimo ", disse a assessoria. A orientação é para que os pais façam a matrícula na escola designada e preencham um pedido de transferência. "Até o fim de dezembro, a secretaria pretende resolver a maioria dos casos". (O Estado de S. Paulo) |
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