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Para garantir vaga na pré-escola, mães passaram a noite na fila das instituições. Mesmo assim, muitas voltaram para casa sem a confirmação da matrícula. A Secretaria Municipal de educação garante que atenderá toda a demanda. Leia mais.
Pais americanos defendem os erros dos filhos e chegam a acionar advogados, mesmo quando sabem que os alunos estão errados. Segundo especialistas, esse fenômeno reflete a culpa que muitos sentem por não presenciarem o desenvolvimento das crianças. Leia mais.
Luciana da Silva Andrade trabalha 14 horas por dia para sustentar, sozinha, os dois filhos e corre o risco de ser obrigada a continuar pagando pré-escola privada para que ao menos um deles possa estudar. Eric, de 4 anos, e Maicon, de 5, não conseguiram vaga. Eles e outras 60 crianças ficaram em lista de espera na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Castro Alves, em Jordanópolis, região do Grajaú, na periferia da zona Sul. "No ano passado foi a mesma coisa, colocaram meu nome na lista de espera, eu ligava quase todo mês e nunca saiu a vaga", queixa-se Luciana, que é manicure de dia e chapeleira de uma danceteria à noite. Com a pré-escola do mais velho, ela gasta 15% dos R$ 1.000 que consegue ganhar com os dois empregos. "O problema é que não posso pagar para os dois". Ao menos outras 60 crianças ficaram em lista de espera na Emei Castro Alves, onde mais de cem mães dormiram na fila na esperança de conseguir uma senha para matricular o filho esta semana. A situação não foi diferente na Emei Agenor de Oliveira Cartola, na Vila Guarujá, também periferia da zona sul. A fila por uma vaga começou domingo pela manhã e quando amanheceu a segunda-feira tinha mais de 400 pessoas. Marta Alves de Carvalho, mãe de Marcela, de 6 anos, e de Igor, que completa 5 em março, pagou para um conhecido dormir na fila mas nem assim conseguiu vaga. "Pus o nome na lista de espera, mas já conheço a novela", diz Marta que, no ano passado viveu a mesma situação com a filha Marcela. "O ano acabou e a vaga nunca apareceu, agora ela está indo direto para a 1ª série." O mesmo ocorreu com Camila, de 6 anos, a caçula dos cinco filhos de Ieda Pessoa. Só um de seus filhos conseguiu cursar pré-escola. "Foi a Denise, ela nunca repetiu. Vejo em casa e entre os sobrinhos que quem faz pré-escola se sai muito melhor depois", diz Ieda. A Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Educação garante que as Emeis terão vagas para todas as crianças entre 4 e 6 anos. "As crianças que ficaram em lista de espera serão informadas até o fim do mês sobre onde matricular-se", disse o assessor. Ele nega também que tenha faltado vagas nas Emeis no ano passado. "Toda a demanda foi atendida." (O Estado de S. Paulo)
Nas favelas de São Paulo, é comum as portas terem um buraco perto do trinco. É por meio dele que crianças deixadas em casa sozinhas, quase sempre tomando conta de irmãos menores, se protegem dos estranhos: espiando. "Se não enxergam, já ensinei as meninas. Têm de conhecer a voz. Sem isso não é para abrir", diz a auxiliar de limpeza Marislene Daniel, de 34 anos. Com a mãe fora de casa das 5h20 às 16h30 e o pai fazendo "bicos", Lilian, de 7 anos, e Luana, de 6, precisam virar-se sozinhas. "Deixo a comida pronta e a vizinha esquenta", afirma Marislene. "Escondo os fósforos porque já fizeram fogueira no banheiro." Lilian está na pré-escola. Luana nunca pisou nem em uma creche. "Fico o dia inteiro vendo TV em casa ou brincando na rua", diz a menina, moradora de um barraco, de um cômodo só, na Favela do Jaguaré, zona oeste da capital, que costuma ser invadido pela água das chuvas. "Espero há anos uma vaga na creche. A gente já é humilhada mesmo, então seja o que Deus quiser", diz a mãe. A secretária da Assistência Social, Alda Marco Antonio, admite o déficit de 104 mil vagas para crianças. Segundo o futuro secretário da pasta, Evilásio Farias, um estudo do Instituto Florestan Fernandes apontou que esse número chegaria a 190 mil. "É um grande desafio a ser enfrentado." Também fora da escola (onde só fez a 1ª série), Viviane Maria da Silva não sabe quantos anos tem. "Pergunte a Alaíde", avisa. É sua irmã, Maria Alaíde da Silva, de 22 anos, quem a socorre, não sem antes olhar na certidão de nascimento. "Tem 11." Veio da casa da mãe em Inhapi (Alagoas), há quatro meses, para olhar as sobrinhas Cristiane Maria, de 4 anos , e Josefa Maria, de 2. Nunca mais foi criança. Não tem boneca e seu único pertence, além das roupas
e sapatos, é um vidro de perfume quase no fim. Sua vida se resume
a limpar o barraco de dois cômodos, na Favela do Jaguaré,
e cuidar das meninas, dar banho, comida. "Tenho medo da situação. Viviane é uma criança",
afirma Alaíde, que ganha R$ 235,00 mensais como doméstica.
"Mas ela está melhor aqui. Veio magrinha, carregava água
e lenha na cabeça na casa da mãe." O sonho de Viviane:
Desde os 6 anos, Cristiane Góis, hoje com 13, fica responsável pelos irmãos menores - Cosme, de 10, e Sérgio Fabrício, de 9. "Trabalhava de dia como ascensorista e de noite era segurança", explica a mãe de Cristiane, Zélia Bernardo Góis, de 33 anos, que teve nove filhos, oito deles ainda vivos. Agora, está desempregada e separada do marido. "Vivo de ajuda da igreja." "Fazia bagunça com as crianças e os vizinhos, brincando de esconde-esconde no armário", confidencia a adolescente. Uma queimadura grande na perna, porém, é sinal de que a responsabilidade às vezes era grande demais. "A panela de óleo quente virou quando fazia a comida." Com dívida de R$ 120 do barraco de cômodo e banheiro da Favela Jaguaré, sem dinheiro e sem ter com quem deixar os filhos de noite e de madrugada, quando vende café no Ceasa, Maria de Lourdes Lima de Souza, de 35 anos, desesperou-se. "Joguei álcool e `taquei' fogo", conta, com as queimaduras repuxando pelo corpo. Mesmo assim, continua a venda diária. Deixa as meninas - Renata, de 11 anos, Tatiane, de 5, e Viviane, de 4 - sozinhas. "Os vizinhos reclamam que elas fazem barulho até de madrugada. Acho que ficam acordadas porque de manhã, na hora de ir para a creche, dormem em pé." Renata admite a farra das pequenas. "Canso da confusão, durmo e acordo com a casa na maior bagunça."
Depois de ir à escola, Juliana até levava o irmão nas atividades extracurriculares do Centro de Juventude da favela, mantido pela Secretaria da Assistência Social. Agora, o menino está na pré-escola e sua mãe, desempregada, já pode "olhar" os filhos. "Mas quando tenho de sair, a responsabilidade é da Juliana", avisa a mãe, Maria do Socorro da Silva, de 39 anos. Érica Sales da Silva, de 12 anos, faz o almoço da família desde os 10, na casinha da Favela Heliópolis. "É muito gostosa a comida", avalia seu irmão Jonas, de 6 anos, ao lado da pequena Sara, de 4. (O Estado de S. Paulo)
No passado, pais contritos costumavam ir ao escritório do diretor da escola e pedir desculpas caso seus filhos tivessem violado as normas. As crianças com certeza levavam tremendas broncas em casa se tivessem se comportado mal na escola. Agora, o cenário mudou dramaticamente, dizem educadores veteranos. Os dirigentes das escolas -e não os alunos arruaceiros- são freqüentemente as vítimas da fúria dos pais. "Alguns atrás, começamos a perceber uma mudança cada vez mais clara", diz Marla Shwarts, diretora de alunos na South High School, de Torrance, Califórnia. "Agora, os pais se irritam conosco, e a primeira coisa que dizem é que fizemos alguma coisa de errada, ou pior, que os advogados deles vão tratar do assunto". "No passado, era uma reação rara. Agora, a situação se inverteu. Mais freqüentemente do que não, os pais se posicionam como inimigos da escola", diz Shwarts, 50, que supervisiona a disciplina nessa escola que atende jovens de classe média alta em um subúrbio de Los Angeles. Em todo o território dos Estados Unidos, "houve uma revolução nas atitudes dos pais quanto aos professores e escolas", diz o psicólogo William Damon, diretor do Centro para a Adolescência da Universidade Stanford. "Há menos respeito. Os pais vão às escolas e se comportam como advogados ou agentes em nome de seus filhos". Damon viaja constantemente, conversando com pais e funcionários
de escolas. Os pais se tornam tão intrusivos e hostis que neste final de ano um grupo de mais de 100 escolas independentes na região de Washington DC e do Estado de Maryland está divulgando um novo código para conduta cortês entre os pais e as escolas. Ao matricular seus filhos, os pais "concordam em aceitar a missão, seguir as regras e cumprir as decisões das escolas", é a mensagem do novo código para os pais. Embora apóie e aceite divergência "construtiva" em relação às decisões da escola, o código diz que os pais "não deveriam esperar que o Conselho Curador funcione como um órgão de apelação", e adverte que é "contraproducente" pressionar outros pais nessas situações. Se "um pai não pode continuar sendo um membro construtivo da comunidade escolar... é melhor que ele e a escola considerem se outra instituição não se adaptaria melhor às necessidades de sua família". Hoje em dia, em escolas públicas e privadas, até mesmo repreensões amenas aos jovens estudantes podem fazer com que os pais apresentem queixas. "Esse é o lado sombrio das mães que acompanham os filhos em tudo", diz Fred Grossman, psicólogo escolar de Beaverton, Oregon. "Os pais de classe média se envolvem demais nas vidas de seus filhos. As vidas de pais e filhos terminam por quase se fundir, coisa que não acontecia no passado. Se algo de ruim acontece às crianças, o caso passa a ser de vida ou morte para os pais". Há quem acredite que essa abordagem de "meu filho, mesmo que esteja errado" reflete um anseio de compensação, causado pela culpa que os pais sentem por passarem tantas horas longe de seus filhos, especialmente nas famílias em que os dois pais trabalham fora, ou naquelas em que só o pai ou a mãe criam as crianças, sem um parceiro. Os pais hoje em dia passam cerca de 11 horas a menos por semana com seus filhos do que costumava ser o caso na década de 60, de acordo com um relatório do Conselho Nacional de Pesquisa divulgado no ano passado. Existe também um lado "consumista" em muitos pais hoje em dia, diz Richard Jung, o diretor da Bullis School, em Potomac, Maryland. Os pais encaram a educação como apenas mais um produto; ele é bom se beneficia a criança, mas se as regras da escola bloquearem o caminho, o produto é rejeitado. No que tange à disciplina, Jung vê uma grande ironia. "Os pais mais militantes quanto ao combate às drogas e ao álcool são exatamente aqueles que costumam interferir mais quando seus filhos são alvo de medidas disciplinares. Eles perseguem o professor, questionam a decisão, abordam membros do conselho escolar, acionam advogados". As negações de responsabilidade de parte dos estudantes, diz Shwarts, vão a extremos absurdos. "Mesmo que um observador adulto neutro veja uma transação com drogas na escola, os pais continuam a dizer que seus filhos não fazem isso". (USA Today)
As mudanças no clima do Judiciário são um fator chave para encorajar o ativismo dos pais na área da disciplina, concordam pais e educadores. Por exemplo, sob leis federais que foram reformuladas recentemente, as escolas não podem suspender jovens incapazes de aprender ou que sofram de distúrbios emocionais por mais de 10 dias em cada ano letivo sem que realizem uma audiência para determinar se os problemas de conduta foram causados pelo problema de saúde ou de aprendizado do jovem. "É quase impossível tratar desses casos, de modo que a maior parte dos distritos escolares limitam as suspensões a 10 dias", diz Julie Weatherly, uma advogada de Atlanta que representa diversos sistemas escolares. Um número crescente de pais obtêm para seus filhos diagnósticos como o de "Síndrome de Deficiência de Atenção" (SDA), diz Weatherly. Eles então alegam que os problemas de comportamento são causados por uma questão de saúde, e exigem programas de ensino especiais para esses jovens, como requer a lei. "Sei de um caso em que uma menina no final do primeiro grau começou a provocar brigas e atear incêndios. Os pais alegam que isso se deve à sua SDA, mas muitas crianças que sofrem do problema não se comportam assim. Vemos muitas crianças que não sofrem de SDA -são simplesmente más, e seus pais usam a lei para protegê-las contra as medidas disciplinares". Deborah Crockett, uma psicóloga escolar do condado de Fayette, Geórgia, diz que "parte dos pedidos de programas especiais de educação têm fundamento, mas a maioria deles não". A situação que mais a irrita é quando os pais ficam procurando por pretextos para obter tratamento especial para crianças -"Há modelos para isso na Internet, maneiras de garantir que os filhos mereçam tratamento especial não importa o que aconteça, e os pais os usam. O fato é que essas crianças dispõem de salvaguardas especiais contra a disciplina, de que outros alunos não desfrutam; são muito mais difíceis de expulsar". O distrito escolar para o qual ela trabalha começou a oferecer cursos para pais três anos trás, sobre tópicos atuais como "Viver e Criar Filhos em Uma Comunidade Indulgente" e "Como Enfrentar a Ira Infantil". A meta principal é prevenir problemas "mas sugerimos vigorosamente a alguns pais que eles participem dos cursos, e estamos obtendo ótimos retornos". (USA Today)
Há motivos válidos para que a preocupação quanto à possibilidade de que travessuras juvenis terminem no histórico escolar seja mais séria hoje. Uma delas é a questão de admissão ao ensino superior. Durante seus 30 anos de carreira, "jamais foi mais difícil entrar em uma faculdade", diz Jung. "Os pais sentem que se não defenderem seus filhos, as crianças sofrerão desvantagens na competição". Estudos demonstram, além disso, que crianças que sofram de alguma deficiência têm maior chance de serem suspensas do que os seus colegas, diz Russell Skiba, pesquisador da educação na Universidade de Indiana. Assim, os pais desses garotos têm motivos para protegê-los contra medidas disciplinares exageradas e em lutar por uma educação adequada. Os processos judiciais contra distritos escolares devido a medidas disciplinares vêm aumentando em número nos últimos anos, dizem os especialistas, embora não haja um bom registro nacional sobre eles e a maioria dos casos sejam decididos por acordo. Quando os casos vão a julgamento, "os alunos em geral perdem os processos", diz Paul Zirkel, especialista em leis da educação na Universidade Lehigh, em Bethlehem, Pennsylvania. "Há mais processo porque há mais em jogo", diz Zirkel. Em lugar de punições menores, muitos jovens agora enfrentam suspensões ou expulsões automáticas, "e os pais lutam contra isso". Apenas 13 Estados exigem alternativas de educação para os estudantes expulsos. À medida que aumenta o volume de informação sobre escolas que expulsam alunos por delitos como levar alicates de unha e oferecer analgésicos aos seus colegas, os críticos da política de tolerância zero acreditam que os pais estejam na verdade defendendo seus filhos e contestando regulamentos severos em excesso. Eles apontam para casos como o de Kurt Armstrong, que estava no segundo grau na Collingwood High School, Nova Jersey, e foi expulso por ter usado o computador da escola para enviar uma mensagem que as autoridades da escola alegaram conter uma ameaça de bomba. Ele estava apenas brincando com os seus colegas. A mãe dele contestou a decisão e venceu, mas o garoto teve de estudar durante um ano em outra cidade. Muitos observadores acreditam que uma polarização indevida esteja se desenvolvendo no que tange à disciplina escolar. De um lado temos pais saltando em defesa de seus príncipes e princesas não importa o que tenham feito, e usando processos judiciais como meio de pressionar as escolas públicas, que não dispõem de muito dinheiro. De outro, escolas com regulamentos extremamente severos que visam proteger os distritos contra acusações de disciplina arbitrária e a conter a violência entre os alunos. "O bom senso não é mais usado", diz Damon, de Stanford. "Os distritos escolares ou largam a mão, e cedem aos pais, ou reprimem todas as crianças". Quem perde com isso? Os alunos. "Se tudo o que fazemos é trocar acusações -os pais culpam as escolas, as escolas culpam os pais e todo mundo culpa o governo-, estamos andando em círculos", diz Ted Feinberg, da Associação Nacional de Psicólogos Escolares. (USA Today) |
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