|
|||||||||||||||||||||
|
União entre escola, instituições e comunidade tenta reerguer a Escola Estadual Antonio Alves Cruz que já foi modelo em educação. Leia mais. Escolas desprezam estrelas do livro didático Do total de livros distribuídos para as escolas da rede pública, apenas 17% são considerados excelentes pelo Ministério da Educação (MEC). Os professores, no entanto, afirmam que a seleção do MEC não condiz com a realidade de muitas escolas. Leia mais.
O grande desafio da rede pública nos últimos anos tem sido atender à demanda de alunos. Porém, essa não é a realidade da Escola Estadual Prof. Antonio Alves Cruz. Das 45 classes disponíveis no ano de 2000, apenas 17 foram utilizadas. A diretora da escola, Sônia Marli Boarin, acredita que a pequena demanda não está relacionada com a qualidade do ensino - o Alves Cruz já foi uma escola padrão na época em que a Secretária de Educação utilizava essa denominação. "Estamos em uma bairro de classe média-alta. As famílias não têm tantos filhos, e aqueles que têm colocam as crianças em escolas particulares", explica Boarin. Glenn Lopes Vieira, ex-aluno do Alves Cruz, acredita que não é apenas a localização que influi na falta de alunos. "O colégio pegou a fama de Alves clube, e quando os alunos chegam lá é esta a realidade", diz, evidenciando o problema de falta excessivas dos professores. Ainda existe, segundo Vieira, uma rotatividade muito grande na direção e no quadro de funcionários. "Nos últimos dois anos, passaram oito diretores pelo Alves Cruz; e dos dezenove professores, apenas cinco são efetivos". Para colocar o Alves Cruz novamente em uma posição de reconhecimento no bairro, não faltam esforços. No ano que vem, serão introduzidas treze atividades extra-classe; cada uma conta com o apoio de uma instituição. A Cidade Escola Aprendiz, por exemplo, colocará seus programas à disposição da escola. "Pretendemos colocar alunos em todos os programas desenvolvidos pelo Aprendiz", afirma Lia Roitburd, coordenadora das atividades Aprendiz/Alves Cruz. Segundo Roitburd, a união da escola, comunidade e instituições que se propuseram a ajudar, pode transformar o Alves Cruz novamente em uma escola modelo, mesmo que essa denominação já não exista de acordo com a Secretaria. Além do apoio da Cidade Escola Aprendiz, o Alves Cruz conta com a participação da ONG Sou da Paz, USP (Universidade de São Paulo), PUC-SP, Polícia Militar, Rotary, Associação dos Moradores do Jardim das Bandeiras e do Projeto Fênix -grupo de ex-alunos e ex-professores que trabalham para viabilizar ações dentro da escola. Para o ano de 2001, Glenn Vieira está otimista. "Os projetos têm tudo para vingar. E o número de matrículas já está maior que a dos anos anteriores", diz. Mesmo esperançoso, o antigo aluno não acredita na diminuição das dificuldades. "A gente sente bastante resistência dos professores. É necessário trabalhar a auto-estima e ajudá-los a se adaptarem aos Parâmetros Curriculares", prevê. (Hellen Santos)
Seis em cada dez livros didáticos de 1ª a 4ª série escolhidos pelos professores para uso na rede pública no próximo ano receberam apenas uma estrela no guia do Ministério da Educação (MEC). Apesar de estarem dentro dos padrões mínimos de qualidade, condição indispensável para a inclusão na lista de compras, essas obras são recomendadas com ressalvas pelos especialistas que fizeram a avaliação. O dado é referente a todo o País, menos São Paulo, que recebe sua cota em dinheiro e faz a compra separadamente. Dos 77 milhões de livros didáticos adquiridos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), 48 milhões (62%) figuram no guia com só uma estrela. É o caso de Viver e Aprender Português - 2ª série (Saraiva), um dos dez títulos mais comprados para 2001. Segundo o guia, os textos literários dessa obra são de "pouca qualidade" e há "insuficiência" no trabalho com a linguagem escrita. "A abordagem tradicional e descontextualizada da gramática exigirá um professor atento e qualificado para superar dificuldades e suprir falhas", conclui a resenha, cujo objetivo é orientar a escolha dos professores. Mesmo assim, 1,1 milhão de exemplares de Viver e Aprender Português serão distribuídos e usados em sala de aula no próximo ano letivo. Outro com apenas uma estrela e muitas ressalvas é Viva Vida - 3ª série (FTD), que apresenta exercícios "desconectados de qualquer aplicação ou uso que se possa fazer deles, repetitivos e excessivos". O professor que adotar Viva Vida, segundo o guia, deverá "evitar a compartimentalização de conteúdos" e reduzir "o excesso de operações fora de contexto". Cerca de 330 mil alunos vão usar esse livro, a um custo superior a R$ 1 milhão. O guia de 1ª a 4ª série selecionou 315 títulos de português, matemática, ciências e estudos sociais - livros com erros ou preconceitos ficaram de fora. Mas, entre os aprovados, os melhores foram destacados com três estrelas (35), seguidos pelos de duas (80) e uma estrela (210). Cada escola recebeu exemplares do guia e indicou ao FNDE duas opções por disciplina e série. O resultado foi a escolha reduzida de títulos com três estrelas (17%), proporção que caiu em relação aos últimos três anos, quando os livros mais estrelados corresponderam a 19% e 21% das compras. No caso de alfabetização e 3ª e 4ª série de estudos sociais, porém, o guia este ano não oferecia opção com três estrelas. Como nas demais disciplinas, nas quatro séries de matemática havia mais obras classificadas apenas com uma estrela (37). Mas não faltavam opções com duas estrelas (29) e três (17). Apesar disso, professores escolheram, e o FNDE comprou, 27 mil exemplares do Promat 2 - Projeto Oficina de Matemática (FTD), livro que apresenta os conteúdos de forma "confusa" e deve ser usado com "cautela", segundo o guia. Quatro dos cinco títulos mais comprados, no entanto, receberam três estrelas e fazem parte da mesma coleção de matemática, Vivência & Construção (Ática). "Trata-se de um excelente livro, com clareza e precisão", diz o guia, referindo-se ao exemplar da 3ª série. (O Estado de S. Paulo)
A escolha majoritária de livros com uma estrela é fruto da insegurança de professores, que preferem não correr riscos, segundo a secretária de Educação Fundamental do MEC, Iara Prado. "O professor precisa perder o medo de que o livro três estrelas possa saber mais do que ele." Este ano, pela primeira vez, o Guia do Livro Didático de 1ª a 4ª série deixou de apresentar os títulos não-estrelados. Até 1999, essas obras integravam a lista e, apesar de não recomendadas, ganhavam em preferência dos estrelados, constituindo mais de 40% das compras, enquanto os de uma estrela ficavam no patamar de 20%. Por conta disso, a secretária entende que houve avanço, já que a escolha este ano recaiu sobre títulos com estrela. "O professor já está enfrentando um livro de maior qualidade", destaca ela, que é contrária ao MEC decidir quais títulos serão comprados. (O Estado de S. Paulo)
Marca de qualidade no Guia do Livro Didático, a classificação de três estrelas não funciona como atrativo para muitos professores da rede pública. Pelo contrário. "Muitas vezes o livro com três estrelas não condiz com a nossa realidade", diz a coordenadora das turmas de alfabetização Carmem Lúcia Pereira Araújo, da Escola Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, no Distrito Federal. Esse é o raciocínio de outros professores ouvidos pelo Estado em algumas cidades-satélite de Brasília. "No momento da escolha, não nos detivemos nesse detalhe (das estrelas)", conta a assistente de direção da Escola Assis Chateaubriand, Neusa Silveira Silva. Segundo ela, pesou a experiência dos professores. Todos os 17 títulos solicitados pela escola de Carmem Lúcia, no Paranoá, receberam apenas uma estrela na avaliação do MEC. Segundo os critérios adotados pelo guia, portanto, fazem parte das piores obras disponíveis. Mas não é o que pensa a coordenadora de alfabetização. "Procuramos escolher de acordo com o nível das turmas. Os livros de matemática mais estrelados, por exemplo, têm explicações muito complexas e exercícios difíceis", afirma ela. "O conteúdo que ensinamos é o mesmo, só a abordagem precisa ser mais simplificada." A diretora da Escola Professor Walter José de Moura, Carla Diana Santana, em Águas Claras, concorda: "De nada adianta escolher um livro maravilhoso que não esteja de acordo com a capacidade das crianças." Destaca ainda que "pode haver discordância entre nossa avaliação e a de especialistas do MEC". A falta de estrutura familiar para acompanhar o estudo das crianças e ajudar na lição de casa é outra justificativa para a escolha de livros menos complexos. É o que pensa a coordenadora pedagógica da 1ª e 2ª série Cristina Márcia Antunes. "Temos de nos adequar ao que podemos cobrar", observa ela, informando que a maioria de seus alunos não freqüentou a pré-escola e vive numa área invadida. (O Estado de S. Paulo)
Duas crianças de mãos dadas seguindo o caminho para a escola na capa de um livro e a letra "g" desenhada como um gato são imagens que muitos brasileiros, principalmente aqueles com mais de 30 anos, guardam na memória ao lado do bê-a-bá. As ilustrações da cartilha Caminho Suave foram usadas por mais de três décadas como principal suporte para alfabetização no País. Apesar de, em 1995, a cartilha ter sido retirada do catálogo do MEC (portanto, não é avaliada), ainda tem cerca de 10 mil exemplares vendidos por ano. É o carinho de professores e ex-alunos pelo livro e um certo apego à tradição que sustentam a venda. A gerente da editora Edipro, atual responsável pela produção da Caminho Suave, Maria José Jorge, conta histórias como a do empresário paulista que comprou 50 cartilhas para presentear os amigos no Natal. "Chega todo tipo de gente aqui - carregador, advogado - e diz: `Nossa! Estudei nesta cartilha!'", conta Maria. "Eu mesma sou apaixonada pelo livro desde pequena." Segundo ela, a Caminho Suave é vendida para algumas escolas particulares e antigos professores que trabalham com alfabetização de jovens e adultos. Uma distribuidora também envia os livros para o Japão, usados por filhos de emigrantes. Desde o lançamento, foram vendidos 40 milhões de exemplares e calcula-se que um terço da população tenha sido alfabetizado por ela. A autora, Branca Alves de Lima, hoje com 90 anos, criou o método visual, em que cada letra ou sílaba é associada a um desenho. Caminho Suave é também símbolo de uma época em que se ensinava pela repetição e memorização, práticas hoje discutidas. Alfabetizada com o "g" de gato e o "f" de faca, a professora do Colégio Albert Sabin e da rede estadual Ana Maria Coimbra chegou a usar o livro com as primeiras turmas que alfabetizou. "Algumas palavras cuja escrita eu decorava nem sabia o que significavam." Quando se tornou professora e precisava usar aquelas palavras, Ana tinha o cuidado de explicar seu significado e como se podia usá-las numa frase. "É angustiante para a criança entrar em contato com uma palavra que ela não sabe o que significa", argumenta. A coordenadora do Colégio Albert Sabin Maria da Graça Bianchini já sabia ler quando foi apresentada à Caminho Suave na 1ª série. Sua impressão sobre a cartilha era a de um brinquedo, um jogo de encaixe. "Quando você entrava na 2ª série queriam que você desenvolvesse um texto não cartilhado, mas tínhamos passado um ano formatando palavras desconexas e frases sem sentido", diz Maria da Graça. A coordenadora acredita que retomar o padrão de ensino representado pela cartilha seria voltar atrás nas práticas pedagógicas. Para a professora da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis, Raquel Lazzari Leite Barbosa, a fragmentação no ensino da língua distancia a criança da leitura. "Ao estudar frases que não têm o menor sentido de comunicação, a criança não reconhece a função social da leitura e da escrita." Grande parte das escolas usa o método da educadora argentina Emília Ferreiro, pelo qual textos "de verdade" são usados. O objetivo é fazer a criança identificar a estrutura da língua escrita. Mas a hegemonia do método tem sido questionada e mesmo o "b" de barriga e "a babá lava o bebê" fazem parte da discussão de novas metodologias. (O Estado de S. Paulo)
Enquanto o Guia do Livro Didático procura orientar os professores com base em critérios de qualidade pedagógica, as editoras apostam no marketing e enviam seus representantes às escolas. Distribuição gratuita de exemplares, palestras com autores e orientação técnica por pedagogos são algumas das estratégias. A Editora Ática, a terceira em vendas este ano, distribuiu 600 mil exemplares como amostra grátis antes da escolha das obras, no primeiro semestre. Seus cem divulgadores visitaram cerca de 25 mil estabelecimentos de ensino, segundo o diretor editorial e comercial, Alfredo do Amaral Chianca. "É como uma eleição, com direito a campanha e cabos eleitorais", diz o dono da Editora Módulo, Fausto Charneski. Com um volume de venda 15 vezes menor que o da Ática, a Módulo espalhou 170 mil exemplares pelas escolas. "A capacidade de convencimento do vendedor é decisiva, principalmente no interior." A Editora Formato conta com seis pedagogos para orientar durante o ano o trabalho dos professores que escolherem seus títulos. Além disso, mantém uma linha de telefone 0800 para tirar dúvidas sobre as lições e conteúdo das obras didáticas. "Os professores não estão preparados para usar o livro de três estrelas", diz o dono da Formato, José de Alencar Mayrink. (O Estado de S. Paulo) |
|
|||||||||||||||||||