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Quem pensa que, ao visitar uma exposição não se aprende nada, está enganado. Se o visitante entender a obra ele estará aprendendo sobre arte e mantendo o interesse pelo assunto. Leia mais:
Brincar de dama pode parecer jogar o tempo fora, mas o jogo pode ajudar alunos que não conseguem aprender matemática. Leia mais:
"O século 20 foi marcante para a dessacralização do espaço expositivo e para o surgimento das preocupações educacionais nos museus", afirma Maria Cristina Bruno, 46, coordenadora do curso de especialização em museologia do MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia) da USP. "Hoje, o maior desafio dessas instituições é saber como contribuir para a inclusão social, atendendo a diferentes setores da sociedade." A lógica é simples: se o visitante entende o que vê, a visita ao museu deixa de ser árida, torna-se prazerosa. Se ele puder experimentar um pouco do processo de criação artística ou entender a importância de itens históricos e naturais em oficinas, cursos e jogos, seu nível de compreensão subirá um degrau. A dificuldade é adequar as metodologias aos diversos públicos. Essa nova escolha se reflete não só nos museus tradicionais mas também em grandes exposições. Na exposição "China, Os Guerreiros de Xi'an e os Tesouros da Cidade Proibida" (até 18 de maio, na Oca do parque Ibirapuera, em São Paulo), são oferecidas ao público visitas com formatos especiais para grupos de deficientes físicos, mentais, auditivos e visuais. Para a próxima Bienal Internacional de Arquitetura e Design, estão previstas palestras abertas ao público para debater os trabalhos expostos. O evento ocorrerá de 14 de setembro a 2 de novembro, em São Paulo, e terá como tema a metrópole. "O papel da Bienal não é mais trazer apenas o núcleo histórico das artes. Isso está sendo feito pelos museus. Nossa função, hoje, é mostrar o que há de mais contemporâneo no mundo. Mas, para isso, é preciso explicar. O público em geral não entende o caráter interior do artista, a sensação que ele teve no momento da criação", diz o presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Manuel Francisco Pires da Costa, 62. O MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo oferece cerca de 40 cursos, muitos deles usando o acervo da instituição como referência. "A idéia surgiu em 1998. Estamos tentando fazer com que o público se sinta bem e venha sempre ao museu", diz Vera Barros, 46, coordenadora educativa do MAM. No Rio de Janeiro, em Petrópolis, o Museu Imperial promove regularmente o espetáculo "Som e Luz", que conta fatos marcantes da história do Brasil por meio de encenações e de filmes. As crianças recebem atenção todos os sábados, com oficinas na brinquedoteca do museu. "Educativo não é apenas aquilo que se relaciona com a escola. Também é democratizar o acesso à cultura", afirma Renata Bittencourt, 33, gerente de ação educativa do Itaú Cultural de São Paulo, que desenvolve, entre outras atividades, visitas específicas para pessoas atendidas por ONGs e por frentes de trabalho. Se a educação já encabeça a lista das principais metas dos museus, a formação do profissional responsável por ela ainda preocupa, como afirma o coordenador do serviço educativo do Masp (Museu de Arte de São Paulo), Paulo Portella Filho, 52. "Em alguns lugares, as pessoas que atendem ao público têm vínculos de trabalho precários. A função é encarada como um 'bico'. O educador deve saber criar e propor, e não apenas repetir um discurso. Deveria haver uma norma das secretarias de Educação que exigisse uma melhor formação para esses profissionais." Ana Mae, 60, professora titular do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da USP, acredita que a questão se explique pelo preconceito das diretorias dos museus e dos próprios autores com relação à educação. "A maioria dos artistas acha que a obra de arte é autônoma, que não precisa de explicações. É difícil para o arte-educador se afirmar e ter reconhecimento nos museus", diz. (Folha de S. Paulo - 25/03/03) Além do indefectível chapéu, há uma outra coisa que Sebastião Rocha não tira da cabeça: a idéia de que a escola, no sentido físico, é dispensável para a educação. O adereço se incorporou à sua figura há quatro anos. Quanto à convicção, é mais antiga. Data de meados dos anos 80, quando o antropólogo especializado em folclore ainda não era o premiado e polêmico educador identificado mundialmente com a pedagogia dos saberes populares. Aos 54 anos,Tião ("Sebastião é meu apelido, ninguém me chama assim") tem o prazer de ter visto sua idéia vingar. O caminho, porém, foi e continua sendo acidentado. A certa altura, em 1995, Tião esteve mesmo a ponto de não ver mais sentido em seu trabalho. Mineiro de Belo Horizonte, ele conta o "causo". Um dia, sentado debaixo de um pé de manga, numa roda de educadores em Curvelo (MG), se perguntou: "O que eu vim fazer aqui?". O motivo da reunião era avaliar um dos projetos com que trabalha, o Ser Criança, que atende crianças e adolescentes de 7 a 14 anos. "Percebi que estávamos avaliando as atividades, e não os objetivos do trabalho. Dava certo na hora de colocar no papel, mas havíamos nos perdido na hora de fazer a ponte com a prática", lembra. Essa reflexão
que coincidiu com o 11º aniversário do CPCD (Centro Popular
de Cultura e Desenvolvimento), uma ONG fundada por Tião provocou
uma crise que acabou se tornando um divisor de águas. O grupo decidiu
que, a partir de então, seus objetivos teriam de conduzir a resultados
palpáveis caso contrário, o esforço seria em vão. A sede do CPCD, em Belo Horizonte, fica na casa onde Tião nasceu e cresceu. "Conheço todas as pedras desta rua." Recém-casados, seus pais deixaram o oeste do Estado para tentar a vida na capital. O pai conseguiu emprego na prefeitura e aprendeu topografia. Lá era chamado de "doutor Rocha", mesmo tendo apenas a quarta série do ensino fundamental. Como trabalhava no planejamento da cidade, Rocha comprou um lote para construir a casa que abrigou a família de nove filhos (Tião é o penúltimo). Quando o menino tinha 11 anos, o pai morreu. "Sobrou para a minha mãe, uma baixinha forte e brava", conta ele. Dos irmãos, era quem mais apanhava, de correia, corda e vara de marmelo. "Hoje, enquadraria minha mãe no Estatuto da Criança e do Adolescente", brinca. Apesar da lembranças das surras, nunca quis sair de lá. "Sou muito ligado ao lugar. Tive uma rua muito boa, fui criado nela. Acho que fui um privilegiado, as pessoas que conheci lá me ajudaram muito. Hoje, tento disponibilizar tudo o que pude experimentar." Após formar-se em história, Tião se tornou professor da Universidade Federal de Ouro Preto. Depois de alguns anos, começaram os conflitos com a academia. "Estava encastelado. A universidade não recicla, cheira a mofo", reclama. Em 1982, pediu demissão e passou o ano seguinte planejando o CPCD. "Percebi que a pessoa física não tinha espaço", diz. Em 1º de janeiro de 1984, fundou com amigos a ONG da qual é, hoje, diretor. Quase 20 anos depois, o CPCD tem 30 pessoas na folha de pagamento, entre funcionários e membros da diretoria. Cerca de 15 mil crianças e adolescentes já passaram pelos projetos da organização, que tem cerca de 200 educadores. O trabalho começou em meados de 1984, quando a Prefeitura de Curvelo convidou Tião para ministrar palestras sobre cultura popular e folclore. Das conversas que manteve, surgiu um convite: assumir o Departamento de Educação e transformar o CPCD em parceiro institucional da prefeitura. "Quando começamos o trabalho, a pergunta que eu me fazia era: 'É possível fazer educação sem escola?'. Estávamos falando de um município pobre, com uma política de educação praticamente inexistente e com um monte de meninos circulando sem escola, semi-analfabetos." Nas primeiras reuniões, os professores da rede descreveram as suas atividades. "Uma professora contou que mimeografava o contorno de um patinho, que os alunos tinham que preencher com as cores certas ai de quem o pintasse de azul! Os desenhos ficavam, então pendurados no 'varal de criatividade'." Outra relatou que havia levado os alunos para fora da classe. As crianças fizeram desenhos no chão, com pedrinhas e folhas. "Ela me disse: 'Não sei se isso dá certo, mas os alunos estavam muito mais disciplinados'." Dessas discussões, surgiu o Projeto Sementinha, voltado para crianças de 4 a 6 anos e hoje espalhado por vários Estados. Tião foi à rádio da cidade e fez uma convocatória para quem estivesse interessado em participar das discussões para pensar na escola que queriam fazer. As reuniões eram sempre em círculo, o que deu origem ao primeiro dos três pilares que compõem a metodologia do CPCD: a pedagogia da roda. "Na roda, todo mundo, confortavelmente instalado, vê todo mundo. Todos falam e escutam, ninguém é excluído", explica o educador. Nela, não há eleição: sempre se busca o consenso. "Se temos 20 pessoas e dez propostas, colocamos as dez em pauta e começamos pela mais urgente. Isso leva todo mundo a propor coisas", afirma Tião. A roda dá início às atividades do dia em todos os projetos da ONG. Em Curvelo, surgiu também a segunda base metodológica da ONG: a pedagogia do sabão. Quando Tião pediu às professoras relatórios avaliando as escolas, a resposta veio em forma de listas de materiais em falta. "Perguntei: 'Para fazer educação vocês precisam disso?'. Uma professora disse que havia vários produtos que ela mesma poderia fazer." Ele mandou a professora ir em frente e os alunos da quarta série fizeram sabão. Essa atividade desencadeou o Projeto Fabriquetas (ou Núcleos de Produção de Tecnologias Populares), hoje presente nas cidades mineiras de Curvelo, São Francisco e Araçuaí. O projeto apropriou-se e adaptou mais de 1.700 tecnologias populares de baixo custo. São aplicados e criados instrumentos de organização coletiva e auto gestão, que possibilitam a autonomia das unidades. Os produtos, feitos por jovens e mulheres das comunidades, são vendidos pela Cooperativa Dedo de Gente, que reúne esses núcleos desde 1996. Para tornar-se membro, é preciso integrar uma Fabriqueta. Esse preceito também está na base da metodologia do CPCD: "educação é algo que só ocorre no plural". Entre os produtos comercializados pela cooperativa, está o Bornal de Jogos"Vem de embornal, sacola; é que mineiro é pão-duro, come as palavras", brinca Tião. O produto foi desenvolvido com base no terceiro pilar do CPCD: a pedagogia do brinquedo, no Projeto Ser Criança. Quando as primeiras crianças deixaram o Sementinha para entrar na escola, o CPCD decidiu acompanhá-las. Elas queriam continuar com as brincadeiras, e a ONG não oferecia atividades de reforço escolar. Resultado: no final do primeiro ano, todas repetiram. "Os pais queriam tirar as crianças do grupo, e vimos que a batata quente estava nas nossas mãos", conta o educador. A solução acabou vindo à tona. Um dos meninos do projeto, quatro vezes repetente da primeira série, não conseguia aprender as operações matemáticas. "Só que ele era bom no jogo de damas. Pensamos: dama não é lógica? Inventamos um tabuleiro com números, peças com sinais de 'mais' ou 'menos' e criamos um jogo", diz. O menino não só aprendeu a fazer conta como foi advertido pela professora, que duvidou da autoria da lição de casa. Para provar sua inocência, o menino levou o jogo à aula, onde acabou sendo adotado. Ao devolver a "damática" (dama+matemática), a professora perguntou por outros jogos. "O menino abriu a porta", conta Tião. A partir da "damática", um grupo composto por crianças e adultos começou a criar brincadeiras para resolver dificuldades de aprendizado. Foram desenvolvidos e adaptados 168 jogos, depois testados na rede educacional de Curvelo. Os que tiveram mais de 70% de aprovação por parte de alunos e professores foram considerados "tecnologias de educação". Hoje, são produzidos pelas fabriquetas e vendidos pela cooperativa, acomodados dentro de um colorido embornal de pano. Um dos pontos cruciais do trabalho desenvolvido pelo CPCD é a formação dos educadores. "Educador também aprende", afirma Tião. Não é preciso RG ou diploma: professores com especialização ou mães semi-analfabetas passam pelo mesmo processo. "A diferença está nos instrumentos de apoio. Para quem não sabe ler, não damos textos, contamos histórias", explica Tião. Nos primeiros anos, a ONG foi financiada principalmente por fundações estrangeiras, como a Fundação Kellogg, dos Estados Unidos, parceira desde 1991. De 1995 até 2000, entraram em cena parceiros brasileiros. Já nos últimos anos, além da prestação de serviços, o CPCD tem visto os seus projetos serem incorporados a políticas públicas. Bom de prosa, o único assunto sobre o qual Tião desconversa é a sua vida pessoal. Divorciado, namora Regina Bertola, diretora do Ponto de Partida, grupo musical e teatral sediado em Barbacena (MG). No pouco tempo livre, Tião precisa percorrer 170 km para visitar a namorada. Conhecedor do sertão mineiro, seu autor preferido é Guimarães Rosa. "Já li 'Grande Sertão: Veredas' umas 40 vezes. Li de trás para frente, do meio para o fim, falo trechos salteados", conta. "Foi um dos livros mais importantes para me fazer educador. A matéria pura da vida está em Guimarães Rosa, além da beleza literária." O seu grande sonho, admite, era ser jogador de futebol. Chegou a integrar a equipe juvenil do Atlético Mineiro, escondido dos pais. Descoberto, levou uma surra que, somada à forte miopia, enterrou seu projeto esportivo. A determinação que faltou na época como jogador lhe sobraria mais tarde como educador. Tião, afinal, se encaixa perfeitamente naquela definição de mineiro do escritor Pedro Nava: "um estado de espírito de teimoso". (Folha de S. Paulo - 25/03/03)
A profissionalização de setores em que imperava a intuição coincide com o maior interesse que têm despertado a moda e a gastronomia no Brasil. Marcas como Herchcovitch, Fause Haten e Mercado Mundo Mix já estão sob os holofotes internacionais. Quanto à culinária, poderá logo obter algum espaço no mesmo palco, considerando-se a grande procura pelos cursos superiores no setor. São Paulo concentra a maior parte das iniciativas de ensino de moda e gastronomia, mas os esforços não se restringem à capital econômica do país. Em relação à moda, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior se associou ao Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e ao IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e, desde o ano passado, oferece cursos de design em diversos pólos de confecção, de Maringá (PR) a Fortaleza (CE). O sucesso de estilistas brasileiros aumentou a procura por cursos superiores de moda. Na pioneira Faculdade Santa Marcelina, na qual o curso existe há 15 anos, há uma média de quatro candidatos por vaga. Raquel Valente, coordenadora dos cursos de graduação e pós-graduação em moda, lista entre ex-alunos figuras como os estilistas Alexandre Herchcovitch, Vinicius Campion (de A Mulher do Padre), Erica Ikezili (que tem loja própria na galeria Ouro Fino, em São Paulo), e Icarius de Menezes, que vem fazendo sucesso na Europa, ultimamente em Milão. A graduação na Santa Marcelina, que hoje tem 500 alunos, dura quatro anos (mais 160 horas de estágio). No curso de pós-graduação, de um ano e meio, os alunos aprendem a gerenciar uma marca, a criar identidade própria, a ser diretor de criação ou a administrar uma confecção. Atraídos pelo glamour das passarelas, falta a muitos candidatos conhecimento sobre a profissão. O leque de atuação vai da produção de moda para revistas e do vitrinismo ao marketing para tecelagens, confecções e varejo, passando por modelagem, design e criação de conceito. Os detalhes são importantes. "O tamanho da roupa tem um impacto muito grande no planejamento de uma coleção", exemplifica Sergio Garrido, coordenador dos cursos de moda da Universidade Anhembi Morumbi. A mudança no perfil do mercado não se deu por acaso. Ao contrário, a profissionalização foi a forma que as empresas encontraram de sobreviver depois da abertura a importações a partir dos anos 90. Uma inundação de tecidos e roupas baratas, vindos da China e de outros países, levou muitas confecções a fechar as portas. A solução, além da modernização do maquinário, foi abandonar a antiga prática de copiar o que era feito no exterior e buscar uma linguagem própria. "Deu uma quebradeira geral", conta Lucila Mara Sbrana Sciotti, diretora da Faculdade Senac de Moda. "Elas tiveram de se reinventar e se reestruturar para poder recuperar mercados." O curso de moda do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) já passou por várias modificações. Em 1994, ganhou impulso com um convênio fechado entre a instituição e a Esmod, escola de moda francesa a mais antiga do mundo, com 160 anos de história. O convênio durou três anos e serviu de base para a abertura do curso superior. O bacharelado do Senac, com duração de quatro anos, foi inaugurado em 1999. Ele se divide em duas áreas básicas: estilismo e modelismo. Adaptando-se às necessidades do mercado, a Anhembi Morumbi acaba de reformular seu curso e, agora, oferece quatro opções: produção de moda, desenvolvimento de produto, varejo de moda e merchandising. Quem quiser estudar por mais dois anos e completar a graduação pode focar em design (que inclui criação, desenho e construção de peças) ou em marketing, que forma planejadores. O setor vive um efeito de bola-de-neve. Com a abertura de mais cursos de moda, mais profissionais começaram a chegar ao mercado na década de 1990. Com a entrada deles, as próprias empresas começaram a se interessar por pessoas formadas. Os que já tinham colocação perceberam a mudança e procuram as escolas para se atualizar. Mas ainda há muito chão pela frente antes que o Brasil possa se considerar um grande centro produtor de moda e não só fabricante de peças. Mesmo toda a atenção atraída por eventos de moda como a São Paulo Fashion Week ainda não se traduz em negócios. "A Fashion não movimenta nem 0,5% desse mercado. Trata-se muito mais de ego do que de profissionalismo", diz Beto Lago, criador do Mercado Mundo Mix, que abriu espaço para estilistas alternativos e movimenta, segundo ele, R$ 1,5 milhão por fim de semana. Para ele, realidade é a moda que se vende no Brás e no Bom Retiro, bairros paulistanos que concentram as confecções que fornecem roupas para as butiques de vizinhanças mais nobres. Interessadas na profissionalização, essas confecções já saem atrás dos estilistas formados, que dão um direcionamento diferente às coleções. O próprio Mercado Mundo Mix está planejando lançar cursos curtos de estilismo no começo de 2004. O processo pelo qual passou a moda há uma década pode ser comparado ao observado na gastronomia. Chefs conhecidos aprenderam sua arte em outros países ou começaram lavando pratos e avançaram para picadores de cebola até conseguirem mostrar seu talento com temperos e cozidos. Em breve, no entanto, devem começar a aparecer os chefs formados nas escolas brasileiras. Não que a figura do imigrante nordestino, que já rendeu ótimos cozinheiros, vá desaparecer. "Afinal, é preciso ter mão para a arte, algo que nem sempre pode ser aprendido na escola", diz Josimar Melo, crítico gastronômico da Folha e professor da Universidade Anhembi Morumbi. "Há quase três anos, estamos vendo um boom impressionante", diz ele. Todas as classes do curso, de dois ou três turnos por semestre, lotam. Na fila, 200 pessoas aguardam uma oportunidade. Aos alunos é passado não só um conhecimento técnico 70% do curso é prático mas também uma formação humanística e de cultura geral, história, gastronomia e mesmo sociologia. Aprendem por que as facas adquiriram formatos diferentes em países diferentes ou como é a comida no Mediterrâneo. "O perfil dos estudantes é interessante", diz. Mais da metade deles é composta por pessoas entre 35 e 40 anos que resolveram mudar de vida e virar mestres-cucas. "Vinte anos atrás, essas pessoas não tiveram coragem de dizer aos pais que queriam ser cozinheiros", diz Melo. Os objetivos de quem entra na faculdade variam. Há quem pense em abrir um restaurante, um negócio menor, uma confeitaria ou um bufê. Mas os formados também podem trabalhar em empresas de catering, em hospitais ou até em fábricas. Só uma minoria consegue montar e manter um negócio próprio. Na cozinha, como na passarela, há glamour, e isso atrai candidatos. No Senac, os alunos têm perfis que vão de um extremo ao outro, segundo Ronaldo Lopes Pontes Barreto, coordenador de alimentos e bebidas da instituição. Vai do jovem aventureiro que se anima com o prestígio dos chefs ao que descobriu que é do ramo. "Os alunos têm de se conscientizar de que a profissão exige longas horas e trabalho no fim de semana e no Réveillon", afirma Barreto. "O chef trabalha quando os outros se divertem." No currículo do Senac, há história da gastronomia, economia, sociologia e até microbiologia. "Comida é química", diz Barreto. As aulas de terminologia gastronômica, em que se aprende o jargão culinário, também são essenciais. O professor ensina aos alunos o modo correto de fazer e de escrever "cebola piquée", que vem cravejada com cravo-da-índia e louro, e também a mais comum "batata sautée", que se fala "sotê" um chef que se preze não pode cometer a gafe de escorregar no francês. (Folha de S. Paulo - 25/03/03) |
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