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Com livros aprimorados e aulas mais criativas, escolas renovam o ensino da História. Passeios por cidades históricas, museus e filmes são algumas das armas utilizadas para incentivar e despertar a curiosidade dos estudantes. Leia mais
Para muitos brasileiros,
estudar História resume-se à experiência enfadonha
de decorar datas ou tangenciar biografias de heróis remotos e vilões
imperdoáveis. Há quem, no meio da vida, ainda se pergunte
por que guardar em uma gaveta da memória a relação
dos 13 presidentes da República Velha. Quem foram esses homens?
Quais ideais professaram? Que mudanças provocaram no país?
O tédio a que vinham sendo submetidas sucessivas gerações
pode estar com os dias contados. Passeiam por cidades como Ouro Preto e Salvador para discutir o Brasil Colonial. A escola, conhecida pelos altos índices de aprovação no vestibular, especialmente na área de ciências exatas, inova no ensino dos conhecimentos relacionados à sociedade. Aproxima-se, assim, de outra instituição paulistana, o Colégio Equipe. Lá, História sempre foi matéria-chave. Raymundo Campos, um dos professores do Equipe, autor de livros didáticos, recorre à sétima arte para discutir padrões civilizatórios. Os alunos aprendem até com os clássicos do cinema russo. "Os ângulos de filmagem estão a serviço das idéias políticas", reflete Campos. No Recife, o Instituto Capibaribe ousa em aulas sobre propriedade versus classe social. Os professores partiram do Império Romano e chegaram ao MST. Os estudantes conferiram os dois conceitos num acampamento de sem-terra. O insuportável amontoado de datas e nomes, terror do passado, começa a ganhar contornos mais próximos da realidade. Há um mês, Rodrigo Beréa, de 11 anos, estudante do colégio Porto Seguro, em São Paulo, visitou uma aldeia indígena. A atividade fazia parte de uma aula sobre os primeiros habitantes do Brasil. "Os índios têm uma cultura relativamente desenvolvida", concluiu. Seu avô, o economista Luis Fernando Bandeira Beréa, de 58 anos, recorda-se da lição, recebida há mais de quatro décadas, de que os índios eram selvagens e canibais. As conclusões revelam aprendizados distintos. O garoto foi direto à fonte. O avô decorara compêndios. "Tive uma educação sem questionamentos", teoriza o economista. A modernização do ensino chegou também às escolas públicas. Os alunos de nível médio da Escola Estadual General José Artigas, em Diadema, município da Grande São Paulo, não viam sentido em aprender fatos tão remotos quanto a Guerra de Canudos, em 1896. O professor José Alves mandou-os à favela. Teriam de coletar informações e imagens sobre o dia-a-dia de uma população carente. Com o material, os estudantes fizeram um documentário. Compreenderam que a pobreza da periferia paulistana é herdeira, em linha direta, da miséria que desencadeou conflitos como o de Canudos. Mesmo no centenário Colégio Militar do Rio de Janeiro, os ventos que sopram trazem mudanças. Na instituição onde vigora a disciplina da farda, a professora Beatriz Rietmann, em uma aula sobre o Segundo Reinado, apresentou à 6a série a Tarifa Alves Branco. Para ilustrar o assunto, comparou a venda de artigos importados no século XIX - como a casimira inglesa - com a comercialização dos produtos dos Tigres Asiáticos, que lotam os supermercados. "Hoje há artigos estrangeiros mais baratos que os nacionais", concluiu uma aluna, lidando com engrenagens da economia globalizada. Novos conceitos arejam parcialmente as aulas do liceu militar. "Estudamos a Revolução de 1964 porque o Exército se orgulha dela", ressalta o diretor, um tenente-coronel. "É abordada do ponto de vista do Exército. Não jogamos contra o próprio time." O interesse por História - brasileira ou mundial - extravasa os muros escolares. As prateleiras das livrarias estão repletas de obras palatáveis, algumas elevadas à categoria de best seller. Os três volumes da Coleção Terra Brasilis, do jornalista Eduardo Bueno, sobre o Brasil quinhentista, atingiram a casa dos 400 mil exemplares - tiragem digna do mago Paulo Coelho. A coleção História da Vida Privada no Brasil, da editora Companhia das Letras, chega ao quinto volume com 126 mil exemplares. A biografia de dom Pedro II, As Barbas do Imperador, alcançou as 35 mil unidades em um ano. "Além do acadêmico, há outro público interessado nesse tipo de livro", avalia a historiadora Lilia Schwarcz, responsável pelo renascimento do monarca de cabelos brancos e jeito de avô, figura das mais interessantes na cena brasileira. A vida cotidiana ganha importância na safra de bons livros. Nos anos 50, o sociólogo Gilberto Freyre já ensinava a seus sucessores como se deve amassar (e fermentar) o pão da História. Na obra Casa-Grande & Senzala, sacou exemplos eloqüentes sobre o sistema socioeconômico fundado na escravidão. Falava de crianças negras que imitavam cavalos para o sinhozinho montar. De uma brincadeira, Freyre extraía um baú de significados. "Valorizamos situações corriqueiras, recortadas do dia-a-dia, em vez de focalizar só os grandes processos", explica o historiador Nicolau Sevcenko, autor de A Corrida para o Século XXI e Pindorama Revisitada. O apreço pelo cotidiano surgiu entre historiadores franceses no fim da década de 20. Demorou a aportar nas escolas brasileiras, mas começa a trocar a roupagem de fatos notórios. Aplica-se, por exemplo, ao episódio conhecido como a Revolta da Vacina, tema de um dos livros de Sevcenko. Em 1904, o sanitarista Oswaldo Cruz enfrentou a ira da população do Rio de Janeiro ao encabeçar uma campanha de saneamento e vacinação. Sempre se atribuiu o incidente à ignorância da plebe rude, que morava em ruelas estreitas e fétidas. "Se analisarmos melhor a situação em que o povo vivia, deparamos com a cegueira da elite, que queria impor um tratamento desrespeitoso ao povo, às vezes vacinado à força", diz o historiador. Outra tendência do momento tem a ver com o ensino temático. Em vez de seguir a rota cronológica dos acontecimentos, livros e cursos abordam temas que atravessam os séculos. Por exemplo, a imigração. Através dela, conta-se a história dos portugueses que "migraram" para o Brasil e dos negros "emigrados" da África. Do vaivém de pessoas, mergulha-se na dinâmica e nas razões dos fluxos migratórios. Selecionar temas ajuda a criar referências e a relacioná-las com os dias de hoje. "Contar tudo é impossível. Livros com essa pretensão formam um erudito, não um cidadão habituado a refletir sobre seu tempo", diz Holien Bezerra, coordenador de História do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) do MEC. Existem no Brasil cerca de 30 coleções de livros didáticos de História em uso no ensino fundamental. Exercem papel importante na transformação do aprendizado. Desde que os livros didáticos começaram a ser avaliados pelo MEC, em 1998, autores e editoras estão mais cuidadosos. As coleções estão mais ricas e elaboradas. Acontecimentos recentes ganham realce. Nos livros tradicionais, a História acabava em 1930. Hoje se estende até o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique, com destaque para a Campanha pelas Diretas e o governo Collor. No capítulo do impeachment presidencial, em 1992, livros trazem fotos do motorista Eriberto França - aquele que, ao depor no Congresso Nacional, contribuiu para apear Fernando Collor de Mello do poder. Em outros tempos, dificilmente um homem do povo seria elevado à condição de protagonista da História. O episódio seria contado na ótica de oligarcas e heróis de virtudes duvidosas. Esse vício gerou distorções duradouras, como as versões transmitidas nas escolas sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870). O presidente paraguaio Francisco Solano López chegou a ser apontado como um arauto do antiimperialismo por desafiar os interesses da Inglaterra na Bacia do Prata. Atualmente é considerado um caudilho ambicioso, que lançou seu país num conflito sangrento e suicida. Há ainda muito a levantar sobre a participação do Brasil, o vencedor de uma guerra que ceifou mais de 100 mil vidas. Visões definitivas estão em baixa. Para discutir o Estado Novo (1937-1945), o livro História Temática, da Editora Scipione - que recebeu boa avaliação do MEC e foi laureado em 2000 com o Prêmio Jabuti - confronta textos distintos. Num deles, a ascensão de Getúlio Vargas, em 1930, é apresentada como "um verdadeiro divisor de águas (...). O Brasil estava maduro e pronto para alterações em suas lideranças políticas". Em outro, diz-se que "a Revolução de 30 talvez seja a construção mais bem elaborada do pensamento autoritário no Brasil". Comparando fragmentos antagônicos, espera-se que o estudante tire suas conclusões sobre os fatos e perceba que eles podem ter mais de uma dimensão. Até o início do século XIX, a História não era considerada conhecimento científico. Misturava-se às brumas da filosofia e da teologia. A partir disso, foi organizada com o objetivo de construir identidades nacionais. "Quando as escolas ocidentais adotaram a disciplina em seus currículos, os estudantes foram motivados a valorizar os princípios da nação. Deviam enaltecer suas tradições e seus governantes", explica o historiador canadense Christian Laville, da Universidade Laval. O ufanismo era sedimentado em sucessivas camadas, ao longo do aprendizado. "Essa vertente perdeu sentido após a Segunda Guerra, com a estabilidade política das nações ocidentais." Manipular fatos, ou interferir no modo como são contados, não constitui mania de brasileiro. Nos anos 90, o Congresso americano tanto fez que impediu a aprovação de novos padrões para o ensino de História nos Estados Unidos. Propunha-se a inclusão nos currículos da história dos imigrantes, dos negros e das mulheres. Significava, na prática, revolver esqueletos no armário, como a Ku Klux Klan. Prevaleceu a reverência a heróis como George Washington. Historiadores e pesquisa competentes jamais faltaram no Brasil. Mas análises refinadas raramente chegavam às escolas. A ditadura militar agravou a falha, aprisionando a disciplina em siglas burocráticas: ES (Estudos Sociais), EMC (Educação Moral e Cívica), OSPB (Organização Social e Política Brasileira). Os conteúdos foram despolitizados em favor de uma abordagem que justificasse o regime. "A idéia não era discutir a História, mas comemorá-la", explica o professor e autor de livros didáticos Ricardo Dreguer. Nesse período, reedições consagravam o clássico livro do professor Joaquim Silva, lançado em 1941 e consumido por gerações de brasileiros. O teor cívico-militar dos anos 70 conviveu com outro fenômeno: o aparecimento de obras de inspiração marxista, como História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, um intelectual americano filho de russos, e As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Serviram como guias para textos didáticos e professores da década seguinte. Os capítulos exalavam a acidez crítica de seus autores. O juízo sobre os fatos, contudo, vinha pronto e acabado para os alunos - o que hoje se contesta. Numa ótica reducionista, o mundo resumia-se ao conflito entre dominantes e dominados. "Cresci aprendendo que índios e negros eram gentalha. No cursinho, os reis viraram canalhas; negros e índios, heróis", afirma Eduardo Bueno, autor da Coleção Terra Brasilis. Com a redemocratização brasileira, nos anos 80, o veio econômico foi aprofundado. Funcionou como ferramenta de avaliação sobre fatos e personagens, diversificando a linha de análise essencialmente política. Para Sevcenko, quando muda o cenário histórico, muda também o jeito de formular a realidade. O historiador vale-se desse raciocínio sofisticado ao afirmar que não constitui absurdo haver versões diferentes para os mesmos acontecimentos. Apesar dos avanços, ainda é possível encontrar publicações didáticas com visões bastante ultrapassadas - e mercado para adotá-las. "Enfrentamos décadas de má-formação de professores, que muitas vezes vão recorrer a manuais tradicionais", afirma Sylvia Bassetto, da Associação Nacional de História. O tratamento menos cerimonioso (e mais instigante) do passado, adotado hoje em boa parte das escolas brasileiras, deixa perguntas sem respostas. Pesquisadores do ramo ainda não sabem como explorar o cotidiano sem que a disciplina seja reduzida a um apanhado de curiosidades. Ou como deixar de lado análises econômicas para centrar-se em grandes temas sem transmitir uma visão fragmentada. E há quem questione o abandono definitivo dos heróis consagrados. "Relatos laudatórios caíram em desuso entre os acadêmicos. Mas isso não vale para o público em geral", avisa o brasilianista britânico Kenneth Maxwell. Lembra que biografias têm vocação para best seller - como a do Barão de Mauá, da Companhia das Letras, que vendeu 110 mil exemplares. Os leitores talvez estejam dizendo que, assim como não há versão única para um mesmo fato, também não existe uma fórmula definitiva sobre como ensinar a matéria. Para vivenciar o dilema, as escolas colocam os alunos na pele do historiador. Numa unidade do colégio Pueri Domus, em Santo André, em São Paulo, estudantes da 1a à 5a série montam um museu com fotos, certidões de nascimento e objetos de família. Analisam indumentária, costumes, revolvem, enfim, as próprias raízes, levantando hipóteses. Nas classes, confrontam descobertas inquietantes - como a coincidência de muitos terem nascido na mesma maternidade, em um determinado ano. Sentem-se protagonistas da História, já a partir do berço. (Época)
O "pedágio" -nesse caso, para pagar uma carteirinha de identificação- é ilegal. Escola pública não pode obrigar alunos a pagar taxa ou material escolar. Logo após o início do ano letivo, a direção determinou que quem não apresentasse o documento, exigido na hora da entrada, seria barrado na porta da escola. Como a comunidade é pobre, muitos dos 1.200 alunos ficaram de fora. Para "resolver" o problema, a direção elaborou uma lista com o nome dos estudantes que não possuem a carteirinha. Quando o aluno chega à escola sem carteirinha, tem de dizer para o funcionário que fica na porta que seu nome "está na lista". Às vezes é preciso aguardar que o funcionário verifique se a informação é verdadeira enquanto os que têm carteira entram. A lista acabou ficando conhecida entre a garotada como a "lista dos mais pobres", e os alunos, especialmente os adolescentes, ficam constrangidos de ter de assumir publicamente que seus pais não têm R$ 5,00 disponíveis."Tive que explicar na frente de todo mundo que minha mãe não tem condições de pagar a carteirinha", diz Jucelaine Gabriela,13, que foi barrada duas vezes. Ela tem mais três irmãos na escola e diz que "dá muita vergonha" ter que repetir todo dia "meu nome está na lista". O pai dela é camelô, e a mãe, dona-de-casa. As mães explicam que a cobrança da carteirinha começou desde o ano passado, mas, como custava apenas R$ 1,00, as famílias pagaram sem reclamar. Algumas mães da comunidade, que tem cerca de 5.000 habitantes, disseram que o dinheiro arrecadado no ano passado foi para comprar grades para reforçar a segurança da escola. Este ano, o "pedágio" virou problema devido ao valor, considerado elevado por grande parte das famílias. "Metade da comunidade está desempregada", diz a dona-de-casa Carmem Batista. Além da carteirinha, os alunos só entram na escola se estiverem usando camiseta branca. "Não pode ter nada escrito e nenhuma figura", diz Mauricélia Martins Castão, uma aluna "com carteira". Os alunos contam que há dias em que o funcionário pede para eles levantarem a blusa de frio para verificar se a camiseta de baixo é "mesmo branca". A dona-de-casa Marlídia Teixeira de Aguiar, 33, teve de ir à escola para evitar que seu filho, Henrique Teixeira de Aguiar, 7, fosse barrado na porta. O garoto sofre de psoríase em grau avançado, e a doença já tomou suas duas mãos. "Gasto todo mês R$ 150,00 com pomadas para ele. Como ainda vou ficar pagando carteirinha?" (Folha de S. Paulo)
Nara Lúcia Norato, dirigente regional da zona leste 1 da Secretaria de Estado da Educação, afirmou que será feita uma diligência para apurar a denúncia da cobrança de carteirinha na escola do Jardim Querelux. Ela explica que a diligência é o primeiro passo antes da criação de uma sindicância para apurar a responsabilidade da diretora da escola. Se as denúncias forem comprovadas, a diretora poderá ser substituída, disse Nara. "É ilegal cobrar por carteirinha", disse Nara, que é responsável por 90 escolas na zona leste e que falou com a reportagem em nome da secretaria. Ela explica que os 23 supervisores da área inspecionam as escolas pelo menos uma vez por semana e se reúnem com a comunidade. Segundo Nara, em uma das atas está expresso que o documento de identificação não pode ser cobrado. Até antes da denúncia, feita ontem pela comunidade, Nara havia sido informada de que as famílias não estavam sendo obrigadas a pagar pela carteirinha. "Pensei que era uma contribuição voluntária para a Associação de Pais e Mestres." Além disso, afirmou ela, nenhum aluno pode deixar de assistir aula por não possuir carteirinha. A escola do Jardim Querelux foi uma conquista das famílias da comunidade, diz Nara. O colégio atende 1.200 alunos, da 1ª série do ensino fundamental à 1ª série do ensino médio. "Nossa política é ter a comunidade dentro da escola", disse Nara ao citar os programas da secretaria que visam atrair a comunidade. Ela também vai investigar se a escola fecha aos domingos para impedir que os alunos usem a quadra, que é a única do bairro. (Folha de São Paulo)
Os adolescentes da escola do Jardim Querelux que não possuem carteirinha de identificação, especialmente os garotos, encontraram um jeito de driblar a "lista dos pobres": eles pulam o muro para entrar na escola. Leandro Carlos Santos,
15, diz que prefere "mil vezes" pular o muro do que ter de ficar
repetindo, na hora da entrada, que seu nome consta da lista dos alunos
que não têm R$ 5,00 para pagar o documento de identificação. "Eu já
tive a carteirinha e perdi. Agora tenho que ficar pulando o muro",
diz Alan Lourenço, 12. "Nem é
tão difícil porque o pessoal já colocou uma pedrona
bem alta lá no muro", diz Danilo Rocha Martins, 12, outro
que escala a parede, ao explicar que isso facilita "o pulo"
para o outro lado. Jacileide Gabriela, 12, que já foi barrada duas vezes por não ter carteirinha, aguarda ansiosa a próxima terça-feira. "Minha mãe disse que pode ser que tenha dinheiro para a carteirinha." (Folha de S. Paulo)
Terça-feira, 20h40, hora do intervalo na Escola Estadual Padre Tiago Alberione, Cidade Júlia, bairro de periferia da zona sul de São Paulo. Alunos e alunas do período noturno conversam em rodas, fumam, paqueram, fazem piadinhas sobre futebol -como em qualquer colégio. Algumas imagens, no entanto, não combinam com a hora do recreio. Um carro da Polícia Militar está estacionado dentro do pátio, e três policiais circulam entre os estudantes. No lado de fora, pais e mães se espremem para checar se está tudo bem. Escola modelo até quatro anos atrás, quando chegou a ser usada como exemplo na campanha eleitoral do governador Mário Covas, a Tiago Alberione foi parar no noticiário policial na semana passada, vítima de uma espiral de violência que inclui ameaças de morte, professores agredidos em sala de aula, carros pichados e incendiados no estacionamento, alunos espancados dentro do banheiro ou em fila. No começo da semana, apavorados, os professores suspenderam as aulas para pedir mais segurança. As aulas voltaram, mas a rotina pouco mudou. Cidade Júlia é um daqueles bairros que se encaixam na categoria "favela melhorada", típicos da periferia paulistana: mal iluminados, ruas esburacadas e milhares de barracos. Ali se cumpre fielmente a lei mais respeitada na periferia, a do silêncio. "Têm garotos de fora que entram na escola porque querem matar alunos, invadem a quadra e dão tiros. No intervalo, você tem que ficar segurando o material para não roubarem. Os professores têm medo e não querem mais dar aula aqui", diz Simone*, 15, do primeiro ano do ensino médio. A realidade violenta não é monopólio da Tiago Alberione. Segundo pesquisa concluída em dezembro pela Udemo (Sindicato de Especialistas em Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo), que consultou 496 escolas da rede pública estadual, 81% sofreram algum tipo de violência no ano de 2000. A pesquisa mostrou ainda que 84% registraram agressões ou desacato a professores; 68%, brigas internas envolvendo alunos; 24%, tráfico e consumo de drogas dentro da unidade escolar; 22%, ameaças de morte; 19%, invasão de estranhos; 18%, porte de armas; e 4%, homicídio de alunos. Mas no caso da escola da Cidade Júlia o que dói, dizem os envolvidos, é o fato de a escola "modelo" ter "degringolado". "As mães faziam fila de madrugada para conseguir colocar seus filhos lá dentro", afirma o líder comunitário Ubiratã Virgínio da Silva, 38. "É aquela coisa. Um aluno pobre, com pais pobres, vivendo uma vida miserável, e um professor que também tem problemas financeiros. Aí, um fala mais alto e pronto, começa uma briga", diz Adilson, 37, policial militar que há 13 anos faz ronda escolar em 12 escolas da região, incluindo a Tiago Alberione. Alunos e alguns professores atribuem a derrocada da escola a uma sucessão de direções incompetentes e à violência. Mas o conflito explodiu, dizem, depois de 5 de junho, quando três policiais -um deles identificado como "Diabo Loiro"-, chamados pela escola, teriam espancado um aluno no banheiro da escola. Adilson não acredita nessa versão. "Todo mundo fala que bateram nele, mas cadê o BO? Por que não deram queixa?" Ele acha que pais e alunos têm sua parcela de responsabilidade. "Olhe o que os seus filhos fazem! Depois vocês vêm aqui na porta reclamar da escola e da polícia. Eles picham os muros, quebram carteiras, criam desordem", afirma. O policial mora em Vila Clara, também na zona sul. Seus dois filhos (de seis e nove anos) estudam em escola pública. Como o salário é insuficiente para sustentar a família, o policial faz bico no comércio. Somando os dois empregos, ganha cerca de R$ 1.500. É pouco mais do que os R$ 1.260 recebidos por Antônio, 30, que dá aula na Tiago Alberione há oito anos. Professor em duas escolas públicas, ele trabalha de manhã e à noite, de segunda a sexta. Tem aproximadamente 400 alunos. Não é casado nem tem filhos. Tem boa relação com os alunos do colégio e é um dos mais respeitados da escola, segundo os estudantes, mas também já sofreu agressão física. "Eu estava dando aula e um menino começou a chutar a porta, queria entrar. Eu gritei com ele, e ele voou para cima de mim. Fiquei calmo, levei na conversa", conta. Antônio defende os alunos, diz que é preciso abrir um canal de diálogo, ganhar respeito, não impor. "Esses são os professores que se dão bem entre alunos barra-pesada", declara. "Muitos são perueiros clandestinos, sofrem ameaças ou são office-boys. Nenhum tem dinheiro. É o desemprego, a influência do bairro onde vivem, nenhuma perspectiva de futuro. É um total abandono aliado a uma educação que exclui." Afirma que não adianta endurecer, gritar, ameaçar ou chamar a polícia. Antônio diz que chegou a conversar com Diego, o aluno supostamente agredido. "Disse para ele sair do meio da confusão e se controlar, para não revidar a agressão." Conta que muitos professores são a favor da expulsão dele. "Eu acho que ele merece uma chance, é um garoto especial." Personagem central do conflito, Diego, 19, primeiro ano do ensino médio, estuda na Tiago Alberione desde o primário. Todo mundo o conhece, e é apontado como um dos autores do incêndio ao carro de um professor, ocorrido no dia 13. "Não sou cabeça de nada", ele diz, "mas "eles" sempre pegam os inocentes". Diego diz que apanhou no dia 5 de junho, depois que a escola amanheceu cheia de cartazes que ameaçavam a diretora. A agressão, diz, durou 20 minutos. "Um dos policiais gritava que eu era um vagabundo qualquer, que qualquer dia ia me matar. Levei coronhadas no peito e consigo me lembrar da dor forte dos dois primeiros chutes no saco... Os outros, nem senti mais." Não faltam histórias para os moradores das imediações: troca de tiros toda madrugada, traficantes que teriam expulsado moradores de quatro casas, uma senhora que foi assassinada por engano quando voltava para casa. Virou rotina. "Não tenho mais medo, já estou acostumada. Olha, são 21h e eu estou na rua", afirma Patrícia, 17, terceiro ano, que estuda na Tiago Alberione desde 1996. O pesquisador Eduardo Brito, 32, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, aponta outro aspecto de situações como a da Tiago Alberione. "Esse ambiente de exclusão, de miséria, de abandono, vai pouco a pouco minando a capacidade do indivíduo de sonhar, de querer fazer as coisas. Isso é o mais grave, o mais triste." (Folha de S. Paulo)
Lançado em fevereiro, o programa Bolsa-Escola começa a virar realidade hoje, sendo aplicado em menos de 1% dos municípios brasileiros. Serão beneficiados, no começo, 24 mil estudantes, o que representa 0,2% dos 11 milhões de alunos que o governo espera atingir. Os primeiros cartões magnéticos para a retirada do dinheiro serão entregues pelo presidente Fernando Henrique Cardoso às famílias carentes de Capão Bonito, a 230 quilômetros de São Paulo. A cidade paulista é uma das 43 já credenciadas no programa em 11 Estados. O programa atenderá a estudantes de 6 a 15 anos que freqüentem o ensino fundamental (1.ª a 8.ª série). Cada família receberá entre R$ 15,00 e R$ 45,00 por mês, de acordo com o número de filhos. A taxa mínima de freqüência é 85% e será verificada a cada três meses. Além disso, só podem participar famílias cuja renda mensal per capita não ultrapasse R$ 90,00. Com o Bolsa-Escola, o governo espera garantir não só o acesso, mas a permanência de todas as crianças na escola. Atualmente, 96% da população de 7 a 14 anos freqüenta turmas de 1.ª a 8.ª série. O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, espera que o ritmo de adesões aumente nos próximos meses até chegar às 5.561 cidades do País. Pedidos de participação de 700 municípios já estão em vias de homologação, segundo o secretário nacional do Bolsa-Escola, Floriano Pesaro. Esse número, no entanto, está aquém do atendido pelo extinto Programa Nacional de Renda Mínima - iniciativa semelhante que beneficiava mais de mil prefeituras e deu lugar ao Bolsa-Escola. "Não dá para negar o que é evidente", admite Pesaro. "Houve um hiato entre o fim de um programa e o início do outro." Curiosamente, são recursos orçamentários do Renda Mínima que vão financiar o início do novo programa. Isso porque o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza, criado no ano passado e principal fonte de verbas do Bolsa-Escola, ainda não foi regulamentado pelo Congresso. Os repasses este ano poderão chegar a R$ 1,7 bilhão. (Demétrio Weber) (O Estado de S. Paulo) |
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