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Meninos de cor negra ou parda, que estudam nas escolas públicas da região do Nordeste, apresentam maior atraso escolar. Leia mais:
O atraso escolar, mal crônico da educação brasileira, vem afetando de maneira diferenciada meninos e meninas. Dados tabulados a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2001 do IBGE mostram que a defasagem idade/série afeta principalmente os meninos, de cor preta ou parda, da região Nordeste e que estudam em escolas públicas. A taxa de defasagem idade/série é calculada a partir da porcentagem de estudantes de uma determinada faixa etária que, pela idade, já deveriam estar em séries mais avançadas. Os dados, tabulados pela pesquisadora Dolores Kappel, mostram que quase não há diferença entre homens e mulheres quando as crianças entram no ensino fundamental, aos sete anos. Aos sete anos, quando a criança deveria estar na primeira série, a taxa de defasagem idade/série dos meninos é de 16%, apenas um ponto percentual superior à taxa das mulheres, que é de 15%. Aos 14 anos, quando deveriam estar cursando a oitava série do ensino fundamental, essa diferença chega a nove pontos percentuais. Entre os meninos, 73% estão atrasados, contra 64% de meninas que ainda não chegaram à oitava série. Esses números indicam um problema inverso na educação em relação ao encontrado no mercado de trabalho. Enquanto no mercado de trabalho a preocupação é com a redução das desigualdades salariais a favor dos homens, na educação o problema é inverso: como fazer para diminuir a repetência e evasão masculina. Segundo a pesquisadora, uma das explicações para esse rendimento pior dos meninos é a entrada precoce deles no mercado de trabalho. Na avaliação dela, as famílias tendem a sacrificar mais os meninos quando precisam que uma das crianças trabalhe para aumentar a renda da casa. "A menina, quando trabalha, consegue conciliar os estudos com os afazeres domésticos. Os meninos geralmente trabalham fora de casa e nem sempre conseguem conciliar o trabalho com o horário das aulas", diz. Outra hipótese é o fato de os meninos estarem mais expostos à violência urbana do que as meninas, o que pode estar afetando o rendimento deles na escola. Guiomar Namo de Mello, conselheira do Conselho Nacional de Educação, concorda com a afirmação de que a necessidade de trabalho atinge primeiro os meninos. "No Brasil, há um peso considerável das condições de vida, pois os meninos são os primeiros a sair da escola para trabalhar quando a família precisa. Logo, tendem a ser mais atrasados." A conselheira diz, no entanto, que essa diferença a favor das mulheres não é uma característica exclusivamente brasileira e cita a cultura escolar autoritária como outra explicação para isso. "As mulheres são muito mais adaptáveis a uma "cultura escolar" de obediência e submissão", afirma. Na opinião dela, além de melhorar a situação econômica do país, essa desigualdade no ensino diminuiria com uma escola mais preparada para lidar com a rebeldia masculina. "A escola pode aproveitar essa rebeldia para promover a capacidade intelectual e cognitiva, com professoras e professores que não sejam tirânicos com meninos e meninas e não produzam em uns e outros rejeição da escola ou total rendição a ela", diz. Os dados do IBGE mostram que o atraso escolar atinge mais os negros e pardos. Aos 14 anos, 57% dos estudantes de cor branca estavam atrasados, contra 80% de negros e pardos. (Folha de S. Paulo – 27/06/03)
As pesquisas do IBGE e do Ministério da Educação mostram que o atraso escolar é maior entre os estudantes da rede pública e da região Nordeste. O Estado que mais confirma essa situação é o de Sergipe, onde a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2001 do IBGE indicava atraso em nada menos do que 100% dos estudantes de 14 anos da rede pública. Isso significa que todos que participaram da pesquisa aos 14 anos não haviam chegado à oitava série. A Secretaria da Educação de Sergipe confirma essa realidade. Segundo a diretora do Departamento de Educação, Ada Celestino Bezerra, o problema da repetência é mais grave na primeira série do ensino fundamental e a defasagem aumenta a cada série. "Nossos alunos têm levado, em média, de dois a três anos para fazer cada série", diz Bezerra. A diretora afirma que a atual administração, que assumiu no início deste ano, tomou algumas medidas. "Assinamos um convênio com a Fundação Roberto Marinho para corrigir a distorção da quinta à oitava série, que, na rede estadual, atinge 90 mil alunos." (Folha de S. Paulo – 27/06/03)
Edcarlos, 14, estudante da escola Acrísio Cruz, em Aracaju, está cursando pela segunda vez a 5ª série do ensino fundamental. Ele já repetiu de ano outras duas vezes: na 1ª e na 3ª séries. "Repeti várias vezes porque brinquei demais. Você sabe, né?" Edcarlos também culpa as condições econômicas da família pelo atraso escolar. O estudante disse que repetiu a 1ª série porque mudou do interior de Sergipe para a capital. "A coisa [trabalho] estava ruim por lá. Tivemos que vir morar aqui, o que atrapalhou um pouquinho minhas aulas." Dos 38 alunos da turma do adolescente, apenas dois estão na série correta. "Sei que estou bem atrasado, mas não sou o único na sala", diz o estudante. A falta de estímulo familiar e as condições econômicas ruins da família fizeram com que Maria Michele, 18, só ingressasse na escola aos 12 anos. "Comecei muito tarde", reconhece a jovem, que cursa a 8ª série do fundamental. Grávida de seis meses, Michele diz que não vai parar de estudar, mas a gravidez, possivelmente, fará com que repita o ano. (Folha de S. Paulo – 27/06/03) |
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