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Mais uma vez, mães paulistanas passaram o dia na fila para conseguir uma vaga para seus filhos na pré-escola. No Jardim Colombo, zona sul, a fila começou no domingo às 8h, sendo que o atendimento somente aconteceria hoje (29/01). Leia mais.
Professores cubanos abandonam a profissão para trabalhar com turismo. Depois que o governo liberou a circulação da moeda americana, profissionais da educação, que ganhavam entre US$ 15 e US$ 30 por mês, buscaram empregos onde, apenas com as gorjetas, podem superar o antigo salário em um dia. Leia mais.
Mães do Jardim Colombo, periferia da zona sul de São Paulo, organizaram uma fila um pouco diferente para garantir uma vaga na Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Desembargador Dalmo do Valle Nogueira, Vila Sônia, na mesma região. Para não ter briga para definir quem chegou primeiro, a líder comunitária Olga Maria Lino, 45, ia escrevendo com uma caneta hidrográfica vermelha de ponta grossa o número de chegada na mão da pessoa, perto do pulso. A "fila" começou ontem às 8h, mas o atendimento estava previsto para começar apenas hoje a partir das 7h. "O problema é que o pessoal vai chegando e se acumulando e, de repente, ninguém sabe quem chegou primeiro", diz Olga. Um cartaz na porta da escola informava que só seriam atendidas as 50 primeiras pessoas da fila e que as senhas para o atendimento só começariam a ser distribuídas hoje a partir das 7h. "Mas não adianta pegar o número e ir para casa dormir porque não é justo", diz Olga. "Tem que passar a noite com a gente aqui na fila e ter cuidado para o número não apagar da mão." O cuidado das mães do Jardim Colombo (uma área que comporta duas favelas) para assegurar a lisura da ordem de chegada deve-se a escassez de vagas da prefeitura para crianças de 4 a 6 anos. A estimativa das Secretarias da Educação e do Bem-Estar Social é de pelo menos 27 mil crianças estejam sem vaga. A Emei Dalmo do Valle Nogueira conseguiu abrir novas vagas porque algumas das crianças que fizeram pré-matrícula não confirmaram presença. Na primeira chamada para novos alunos, no último dia 14, segundo as mães, mais de 200 pessoas fizeram fila na porta da escola. "Eu era o número 58 e só tinha vaga para as 50 primeiras pessoas", diz a dona-de-casa Jacilene Virgínio da Silva, 25. Ontem Jacilene estava orgulhosa de ser a primeira da fila. Ela havia chegado às 8h. A Prefeitura de São Paulo está tentando conseguir mais 5.000 vagas até o início do ano letivo em escolas e prédios públicos que tenham espaço ocioso. (Folha de S. Paulo)
David, 39, foi aluno exemplar e trabalhou durante dez anos como professor num instituto tecnológico em Havana. Ensinar é, segundo ele, sua verdadeira vocação, mas o professor não pensou duas vezes quando surgiu a oportunidade de trocar a sala de aula por um emprego no setor de turismo, a galinha dos ovos de ouro em Cuba. "Graças aos conhecimentos técnicos, consegui um emprego na manutenção de um hotel", disse David à Folha, pedindo que sua identidade completa não fosse revelada. O ex-professor continua ganhando em pesos, mas o importante para ele é estar perto dos dólares, que podem lhe trazer uma vida melhor. Desde 1993, quando o governo permitiu a circulação da moeda norte-americana no país, centenas de professores, que ganham entre US$ 15 e US$ 30 por mês, vêm abandonando as escolas para trabalhar como carregadores de mala, recepcionistas, garçons ou motoristas de táxi no crescente setor de turismo, que já superou o do açúcar como a maior fonte de divisas de Cuba. Médicos, engenheiros e cientistas estão fazendo o mesmo. Eles podem ganhar em gorjetas num dia o que recebiam durante um mês de trabalho. "Houve uma deserção maciça de professores nos últimos anos. O governo teve de colocar na sala de aula professores aposentados ou estudantes de pedagogia, o que baixou o nível do ensino", disse à Folha por telefone o jornalista Raúl Rivero, da agência de notícias independente "Cuba Press". O jornalista inglês Tom Gibb, que foi correspondente da BBC em Havana nos últimos quatro anos, diz que os professores cubanos ganham muito mal. "Isso pode afetar a qualidade de ensino a longo prazo se o governo não encontrar formas de atrair e manter os bons profissionais", comentou Gibb, que trabalha agora para a BBC em São Paulo. Segundo ele, o setor educacional em Cuba só continua funcionando porque conta com muitos profissionais dedicados. "Há um grande número de pessoas que adoram ensinar, e o mesmo acontece na área da saúde. Conheci alguns médicos e professores extremamente dedicados trabalhando quase de graça. Mas é duro para eles verem outras pessoas trabalhando como garçons e ganhando muito mais", disse. O embaixador cubano no Brasil, Jorge Lezcano Perez, reconhece que a liberação do dólar "gerou contradições". "É certo que as pessoas que hoje ganham em dólar têm mais possibilidades de adquirir determinados recursos. Mas o governo tomou medidas importantes para garantir os princípios de solidariedade e igualdade", disse Lezcano, lembrando que, embora os salários sejam baixos, os cubanos continuam tendo educação e saúde de graça, não pagam aluguel, os custos dos transportes, da energia e da água são irrisórios e a população recebe uma cesta básica subsidiada. A perda de bons professores não é, no entanto, a única ameaça à qualidade do ensino cubano. Apesar de ser uma das prioridades do governo, a educação não escapou da crise econômica provocada pelo colapso da União Soviética em 1990 e o fim da ajuda financeira que a ilha recebia de Moscou. Entre 1989 e 1993, Cuba perdeu 35% do PIB e ainda não conseguiu recuperar-se do baque. Muitas escolas estão deterioradas, faltam lápis, cadernos e livros, e tecnologia é algo praticamente inexistente. Mas, segundo Lezcano, o grande investimento de Cuba é no professor. "Pode haver uma escola que tenha dificuldades na sua estrutura e necessite de reparos e material escolar, mas ali há um professor de qualidade muito alta", afirma. Lezcano diz que o governo está atento à questão salarial e aumentou as verbas da educação em 2001 para garantir os salários de 4.400 novos professores que vão se incorporar ao ensino pré-escolar, primário e secundário. "Por outro lado, a economia cubana está se recuperando consideravelmente, e isso está garantindo os recursos necessários para a educação", afirmou. Gibb é mais cauteloso em relação ao futuro. "A manutenção das conquistas cubanas na educação e na saúde dependerá bastante da capacidade do país de consertar a economia. Eu estive lá por quatro anos, e a situação estava melhor no final do quarto ano, mas o quadro está melhorando muito lentamente", comentou. Os dólares que chegam com o 1,6 milhão de turistas por ano não estão seduzindo apenas professores e outros profissionais. Um número cada vez maior de jovens começa a achar que é mais lucrativo entregar pizzas do que ingressar na universidade. "Muitos jovens, infelizmente, estão olhando não só para o turismo mas também para o "messias" que chega, o estrangeiro, pensando em sair da situação de pobreza em Cuba. Buscam um bem-estar imediato e não pensam no futuro", disse à Folha, por telefone, a professora aposentada Gládis Linares, integrante de um grupo independente que pesquisa a educação em Cuba. Ela lamenta que muitos jovens também estejam optando pela prostituição e pelo crime. Gibb diz que a frustração dos cubanos com os baixos salários e a falta de perspectiva profissional é grande. "Uma das críticas que ouvi de cubanos que passaram pelo sistema educacional do país é que, quando eles se formam, não há muitas oportunidades para usar aquela educação", comenta o jornalista. "Eles educam os cubanos para fazer o quê?" (Folha de S. Paulo)
A educação é considerada, junto com a saúde, a grande conquista da revolução socialista cubana. Quando Fidel Castro tomou Havana no dia 1º de janeiro de 1959, metade das crianças do país em idade escolar não tinha acesso ao ensino. Somente 6% dos cubanos haviam concluído o segundo grau. Fidel fez da educação uma prioridade nacional. As escolas religiosas e privadas foram fechadas. A educação passou a ser gratuita, e milhares de novas escolas foram construídas. Em 1961, cerca de 250 mil professores e alunos foram enviados ao campo para ensinar a população rural a ler e a escrever. A campanha reduziu o analfabetismo de 24% para 4% da população. O ensino é compulsório para todas as crianças até os 11 anos, mas a maioria completa o segundo grau. O número de universidades cresceu de três, em 1959, para 46. O número de graduados subiu de 1% para 5%. (Folha de S. Paulo)
Ao longo dos últimos 40 anos, as escolas cubanas têm produzido bons médicos, professores, técnicos e outros profissionais. Mesmo dissidentes e críticos de Fidel Castro reconhecem a alta qualidade do ensino na ilha, que é gratuito e beneficia toda a população. A chave desse sucesso está no alto investimento que o país faz na formação de professores. Grande parte dos professores cubanos tem formação universitária com especialização em pedagogia, e todos passam por cursos de aperfeiçoamento ao longo da carreira. Atualmente, Cuba conta com 1 professor para cada 13 alunos na educação primária e secundária. Os Estados Unidos têm 1 professor para cada 16 alunos, a média registrada nos países desenvolvidos. No Brasil, são 27 alunos por professor. Em relação ao ensino universitário, o número de professores disponíveis em Cuba é muito maior: 1 docente para cada 4,5 alunos. "Também estamos desenvolvendo um programa para que todos os professores do ensino primário tenham curso universitário. Os novos que estão se incorporando já têm", disse o embaixador cubano no Brasil, Jorge Lescano Peres. É esse grande investimento na formação do professor que, segundo os analistas, tem ajudado Cuba a manter os bons indicadores na educação, apesar da crise econômica que levou à falta de material didático e à deterioração das escolas. "Apesar de todas as dificuldades, as pessoas continuam estudando, os professores continuam sendo muito bem preparados, e os cursos são bem dados", disse à Folha a historiadora carioca Cláudia Furiati, autora de uma biografia de Fidel Castro que será lançada em abril. Furiati morou por alguns anos em Cuba, país que visita com frequência. "Fui a muitas universidades, convivi com acadêmicos e não senti queda na qualidade", observou a historiadora. Segundo ela, a pior fase da crise já passou, e a situação econômica do país está melhorando. Uma das grandes dificuldades de Cuba, no entanto, é acompanhar os avanços tecnológicos e instalar equipamentos eletrônicos e computadores em escolas e universidades. Cuba recebe doações de equipamentos de outros países, inclusive de organizações beneficentes norte-americanas, mas a presença do computador nas escolas ainda é limitada. "Os cubanos ficam aquém no sentido de não terem esses equipamentos tão imersos no seu cotidiano, a convivência é reduzida", reconhece Furiati. "Mas os alunos não ficam desprovidos desse ensino. O que eles fazem é compartilhar ao máximo o pouco que têm", afirma. O jornalista da BBC Tom Gibb, ex-correspondente em Havana, acha, no entanto, que a falta de recursos tecnológicos é uma ameaça real. "Com o tempo, a falta de equipamentos tornará mais difícil para Cuba acompanhar a qualidade do ensino dos países desenvolvidos", afirma. A grande crítica que se faz à educação em Cuba é o seu conteúdo ideológico. O socialismo é glorificado, e os alunos aprendem desde cedo os símbolos da pátria por meio de cartilhas ou cantando canções em homenagem aos heróis da revolução, como Che Guevara e Fidel Castro. "Eu acho os esforços do governo na área da educação louváveis, mas é uma educação pervertida pela politização de educadores e educandos", afirma o jornalista Raúl Rivero, diretor da agência de notícias independente "Cuba Press". "Faz sentido ensinar uma pessoa a ler e a escrever e depois proibi-la de ler e escrever o que quiser?", indaga Rivero, lamentando a existência de uma forte censura no país. "A educação técnica é muito boa, temos bons profissionais. Mas me parece um preço muito alto a pagar. É um exagero, uma torpeza, uma arbitrariedade que se corte a liberdade de um indivíduo para conseguir um bom médico, arquiteto ou engenheiro. Para que haja bons técnicos, uma sociedade inteira tem de estar submetida a esse regime onde prevalecem só as idéias dos comunistas", afirmou Rivero. (Folha de S. Paulo) |
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