|
||||||||||||||||||||||
|
Alguns alunos da Escola Estadual Recanto Campo Belo, localizada em Parelheiros, São Paulo, estão deixando de estudar pela falta de higiene na escola, material didático e professores. Leia mais:
Muitas escolas pensam que se os alunos não tem um bom rendimento escolar, o culpado são os pais. Entretanto essa culpa pode ser da instituição que não sabe trabalhar a relação do aluno com o professor. Leia mais:
Precariedade é um termo que não combina com educação, mas prevalece em pelo menos duas escolas públicas da periferia da Capital, visitadas pelo DIÁRIO. Em Parelheiros, Zona Sul, pais e alunos da Escola Estadual Recanto Campo Belo estão inconformados com uma série de problemas crônicos. As dificuldades podem ser sentidas no portão de entrada. Ali, o saneamento básico é precário. A rua não é asfaltada e há esgoto a céu aberto. Quando chove, alunos deixam de ir à escola, pois a água da chuva mistura-se com a do esgoto e torna a passagem intransitável. E, apesar de o ano letivo ter começado no início de fevereiro, os livros didáticos não chegaram. Os pais também reclamam da falta de professores e funcionários. A dona-de-casa Leonilda Maria dos Santos Sena, que tem duas filhas na escola, conta que os professores da 5ª a 8ª do ensino fundamental fazem rodízio e algumas classes ficam sem aulas. "Só na semana passada minha filha foi dispensada três dias. O pior é que não há outra opção mais próxima". Camila Aparecida Santos Souza, de 12 anos, filha de Leonilda, que está na 6ª série, diz que desde o início do ano letivo não teve aulas de matemática, educação artística e ciências. Camila também conta que a escola é suja. "Duas vezes fiquei após as aulas para ajudar na faxina porque o mau-cheiro estava insuportável". Leonilda revela que durante duas semanas também cooperou na limpeza. "Acho legal participar, mas desisti quando percebi que a direção não se esforçava". Mariza Augusta, de 12 anos, revela que não tem ânimo para estudar. "Fico inconformada porque me esforço para ir à escola e sou dispensada quase todos os dias." Ana Maria da Conceição dos Santos, mãe de uma aluna da 1ª série, conta que por causa da falta de vigias, a merenda das crianças foi furtada. "A professora da minha filha avisou que até o final de março teremos de mandar lanches porque só há bolacha e leite". Vera Ilse, dirigente regional de ensino, responsável pela Zona Sul 3, explicou que a escola sofreu um furto, mas que as providências estão sendo tomadas. Também alegou que bolacha e leite fazem parte da merenda escolar. Quanto à falta de professores, a dirigente destacou que alguns não entregaram a documentação necessária para começar a lecionar. Quanto ao trabalho de pais e alunos na limpeza, além de não ver problema, acha positiva a participação da comunidade. Segundo a assessoria da Secretaria da Educação estadual, no início de abril os alunos receberão os livros escolares. O problema, acrescentou a assessoria, ocorreu por causa do cronograma administrativo, pois a solicitação ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) deve ser feita no mês de agosto para que o material seja entregue no início do ano letivo seguinte. (Diário de S. Paulo - 31/03/03)
Alunos da Escola Estadual Rosarita Torkomian, localizada no bairro Itaim Paulista, Zona Leste da Capital, reclamam da constante falta d'água. Com isso, os estudantes evitam usar banheiros e quando o mau cheiro é muito forte, acabam sendo dispensados das aulas. Solange Aparecida Martins da Silva, mãe de quatro filhos, matriculados na escola, conta que o problema existe há quatro anos e até agora não foi solucionado. "Eu sempre coloco na lancheira da minha filha mais nova uma garrafinha de água, porque na escola não tem água nem no bebedor", reclamou Solange. A secretária Maria da Penha Bispo Dimas, que faz o curso supletivo da escola no período noturno, contou que a única maneira de usar um pouquinho de água é ir ao banheiro privativo dos professores. "Lá, pelo menos é mais limpo. Tem um balde de água para ser despejado no vaso sanitário. Quando o cheiro fica insuportável e nós reclamamos, o coordenador não tem outro jeito a não ser liberar a gente uma hora mais cedo". Para a desempregada Cláudia Ulisses Parente, que também freqüenta o curso supletivo, a escola não tem a menor condição de permanecer aberta e a situação enfrentada pelos alunos é terrível. "Se uma escola não tem condição mínima de funcionar, como o governo não intercede?" A Secretaria da Educação
estadual se defende garantindo que desconhecia o problema, mas garantiu
que a escola será abastecida em breve por um caminhão-pipa
até que o problema ser solucionado. Uma equipe de engenheiros esteve
no colégio na última terça-feira fazendo um levantamento
de todos os problemas para resolvê-los o mais rápido possível,
segundo a Secretaria.
O mau rendimento escolar de crianças e adolescentes é um assunto que preocupa os pais e costuma deixá-los sem saber como enfrentar a situação. A psicóloga Wanda Maria Junqueira, vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia, alerta para o fato de que o problema, às vezes, pode não ser do aluno, mas da instituição escolar ou do professor. "Na maioria dos casos, a escola chama o pai e diz que o filho tem problemas de aprendizagem. Isso é aceito sem questionamentos. O pai passa a achar que a criança é burra, que não tem capacidade para acompanhar os estudos", afirma ela. Wanda diz que isso acontece principalmente em escolas públicas. Ela chama a atenção também dos psicólogos que acompanham esse tipo de caso. "Antes de começar a tratar a criança, o psicólogo precisar verificar se o problema está nela ou na escola. Por isso, é necessário avaliar o trabalho educacional, conversar com o professor, em vez de simplesmente concordar com a tese de que o aluno é que tem dificuldades." Se for diagnosticado que é a instituição que está produzindo o fracasso escolar, o psicólogo deve ajudar a desenvolver uma relação melhor entre professor e aluno ou analisar e tentar alterar a organização e a dinâmica educacional da escola. Na opinião da psicóloga, os pais e a escola não podem inferiorizar a criança, fazer com que ela se sinta excluída do resto do grupo. "Isso só piora a situação. O importante é tentar ajudá-la a superar as dificuldades, sem cobranças." (Diário de S. Paulo - 31/03/03) |
|
||||||||||||||||||||