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Um evento histórico pode fazer com que uma expressão se incorpore à língua. Mas em tempos de guerra, como esta dos Estados Unidos e Inglaterra contra o Iraque, que não conta com o aval de grande parte da população mundial, o uso de jargões militares presente nas coberturas feitas pela mídia deve ser visto com desconfiança e senso crítico. "As pessoas são sensíveis aos meios", lembra o jornalista e colunista da Revista Educação Josué Machado, "por isso é natural que os profissionais que escrevem sobre a guerra e os responsáveis pela cobertura - editores e diretores editoriais - não reprimam o jargão com firmeza. Isso está sendo mais particularmente difícil na cobertura `patriótica´ dos correspondentes norte-americanos, inseridos nos corpos combatentes", disse. Nesta guerra em especial, o problema tem sido os excessos de jargões sem qualquer explicação prévia ao público sobre o seu significado. O uso de expressões como "fogo amigo", "dano colateral", "espanto e medo", "oportunidade de alvo", "houve baixas", entre outros jargões que fazem sentido para os militares, podem fornecer ao leitor-ouvinte da notícia uma conotação diferente se analisados a fundo. Segundo Orlando Vian Jr, doutor em Lingüistica Aplicada e professor do Departamento de Lingüística Aplicada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), por mais que para fazer parte da linguagem cotidiana de um grupo o significado de determinado termo dependa de um acordo tácito entre os membros dessa comunidade, nada impede que o significado desse termo sofra alterações com o passar do tempo. "Isso está relacionado à questões de hegemonia e ideologia. Dependendo do interesse da notícia que veicula, a ideologia de cada mídia será o fator determinante do caráter da informação, podendo ter tanto o objetivo de mascarar uma realidade ou de colocá-la totalmente à mostra", explica Vian. De qualquer maneira, quando as expressões são atreladas às imagens que os representam, a situação pode parecer assustadora. Dizer "dano colateral" quando civis são atingidos por bombardeios parece não relatar o que de fato isso significa. Funciona quase como um eufemismo, algo para suavizar a situação. Para Josué Machado, é muito pior do que isso. "Fogo amigo é de uma ironia atroz; `dano colateral´ de um cinismo desavergonhado, e `houve baixas´, uma fórmula eufêmica, lembra o eufemismo médico civil, que substitui `morreu´ por `entrou em óbito´, mas sem a carga de cinismo tenebroso que caracteriza as expressões bélicas", disse Machado. Segundo ele, é natural que, lendo e ouvindo muito sobre a guerra, o repórter tenda a expressar-se na linguagem em que está mergulhado. "Os resultados são os excessos, inclusive de linguagem. Aprende-se na escola de jornalismo que o ideal é primar pela clareza, simplicidade e objetividade da língua. O estudante aprende também que é preciso interpretar com cuidado as fontes, ser crítico em relação a elas e ouvir todos os lados. Talvez isso não tenha sido aprendido muito bem", afirma Machado. Para Luiz Egypto, redator-chefe do Observatório da Imprensa, a mídia hoje peca por reproduzir as informações e análises oriundas das fontes oficiais sem se dar ao trabalho de avaliá-las. "No caso da mídia brasileira, a cobertura está boa no atacado e com vários pecadilhos, no varejo", afirma. Para ele, mais uma vez foi vendido ao público um outro conceito, o de uma guerra "limpa", mais tecnológica e por isso mais rápida. "Mas a realidade se encarregou de lembrar a todos que guerras limpas e ataques cirúrgicos somente são possíveis no começo. Depois, os alvos se disseminam e os civis começam a morrer", disse Egypto. As lembranças dos horrores de uma guerra ficam na memória principalmente daqueles que sentiram na pele suas seqüelas. No caso de quem está longe, as conseqüências acabam sendo de ordem ideológica, deixando a pessoa confusa em meio ao turbilhão de informações. "Para a língua, o que ficará do jargão guerreiro?", pergunta Josué Machado, "pouco, talvez nada. Em geral, o jargão, a gíria, as expressões feitas vêm e vão, como ondas. Na guerra ou na paz". (Bianca Justiniano - 10/04/03) |
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