|
||||||||||||
|
"Me sinto um trouxa. Eles (Estados Unidos) acabando com o mundo e nós aqui cantando música". Foi o que disse ironicamente Rappin Hood, um dos principais nomes do Hip Hop paulistano, ao sair da sessão do filme Tiros em Columbine, polêmico documentário de Michael Moore, que desconstrói todo o pensamento belicista norte-americano em busca de uma resposta: "somos uma nação de loucos por armas ou somente loucos?" Mordaz, a produção tenta explicar ao espectador porque a busca da felicidade do americano médio está tão arraigada ao porte de armas. O mesmo pode-se dizer das letras do rapper ao criticar a omissão do Estado que empurra o jovem de baixa renda para a marginalidade e para o crime. Ambas as visões foram levantadas e discutidas por jovens participantes das ações sociais da Cidade Escola Aprendiz e da Fundação Bradesco, no debate sobre cinema realizado na última sexta-feira (13/06), em São Paulo. Durante o evento, a violência foi o grande assunto em pauta. De um lado, Moore captando a falta de perspectiva do jovem de classe média norte-americano por conviver em uma sociedade doente, e Rappin Hood, por outro lado, avaliando a luta do jovem brasileiro para ser ouvido em meio ao caos social que se encontra. "Lá as crianças se preparam desde pequenas para a guerra, aqui se vive em uma guerra por justiça social", afirmou o rapper à platéia que assistiu ao filme gratuitamente na sala Uol de Cinema. Nesse sentido, o argumento geral foi de que o conflito gerado por esse contexto é o grande potencializador da cultura do medo, presente nos EUA e em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. "As pessoas, não só da classe média, como também da periferia, têm medo de sair de casa", lembrou o rapper em completa sintonia com Tiros em Columbine. No caso do Brasil isso pode ser provado: o medo fez crescer a procura pela segurança privada, segundo mostrou recente pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento aponta um crescimento de 26,8% no número de empresas que prestam serviços de segurança em todo o país. O dado alimenta a idéia de que o brasileiro vive em pânico. Outro ponto levantado no debate foi a questão do preconceito, que instiga ainda mais violência em ambas as sociedades. E o abismo em termos de desenvolvimento econômico que separa os Estados Unidos do Brasil é mínimo quando o assunto é inclusão social da população negra. Em ambos os países, o racismo ainda é um fator de risco seja no acesso à educação de qualidade, ao trabalho e remuneração e mesmo no atendimento no sistema de saúde. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostra isso quando prova que no Brasil a renda mensal de um trabalhador negro é 50% inferior a do branco. Nos EUA, para cada dólar pago a um branco, um negro recebe o equivalente a 40% desse valor. "Essa é uma das chaves da violência, precisamos e exigimos políticas de valorização do negro", explica Rappin Hood. Enquanto isso, Moore coloca ao espectador: "O que fizeram os brancos quando os negros se insurgiram? Correram amedrontados para os subúrbios e lá, ainda com medo, compraram milhões e milhões de armas. E o que nós temos? Mais de quarto de bilhão de armas nos EUA são de propriedades de brancos que vivem em bairros seguros, onde não existe, virtualmente, nenhum crime." No final, Raapin Hood disse a todos para manter a esperança para mudar o que está errado. "Eu saí da sala de cinema me achando impotente frente ao que se vê no filme. Mas temos que continuar. Se conseguirmos mudar pelo menos uma pessoa, viveremos melhor." (Rodrigo Zavala - 16/06/2003) |
|
||||||||||