|
||||||||||||
|
Jovens homossexuais, cansados do repúdio e preconceito que sofrem nos colégios onde estudam, agora poderão frequentar uma escola pública aberta especialmente para eles. A Harvey Milk School, no bairro de Greenwich, em Nova York (EUA), foi inaugurada agora em setembro, causando as mais diversas reações nos Estados Unidos, onde houve manifestações. Conhecida internacionalmente por ser uma cidade cosmopolita, a cidade de Nova York chamou a atenção mais uma vez, não pela ameaça de ataques terroristas, mas por colocar em xeque um conceito que vem sendo amplamente discutido no meio educativo: uma escola deve ou não ser inclusiva em todos os aspectos? “A intenção é boa, mas é uma bobagem. Confinar esses jovens em uma escola especial é como deixá-los em uma redoma. Nela, os alunos estarão protegidos do preconceito, mas isso não vai prepará-los para enfrentar a realidade, que é outra. Nem na sociedade americana isso funcionaria”, disse o jornalista e diretor do Mix Brasil, André Fischer. Para Walkyria Monte Mór, professora do departamento de Letras Modernas da USP, a abertura de uma escola como a Harvey Milk School parece, por um lado, fornecer condições de existência para aqueles que são considerados divergentes na sociedade. Mas, por outro, pode soar também como uma punição ou aceitação dessa diferença. Nos estudos que desenvolve sobre diversidade cultural, ela diz ter aprendido que “a segregação daqueles que a sociedade considera diferentes, como as mulheres independentes, os negros, os índios, os homossexuais, do modelo que deva ser aceito e seguido é o caminho mais fácil e conveniente para o equilíbrio social, do ponto de vista da estrutura dominante”. Apesar da segregação ser sempre o caminho mais cômodo para aquilo que a sociedade não quer ver ou aceitar, a escola atiçou a ira dos mais conservadores. Para Marcelo Cerqueira, educador e presidente do Grupo Gay da Bahia, o surgimento da Harvey Milk School condiz com a realidade americana. “Não condeno, mas defendo o conceito de escola inclusiva. Uma escola como essa não deixa de ser uma alternativa a hostilidade que sofrem os adolescentes homossexuais”, disse. Cerqueira defende, mais do que abertura de uma escola especial para gays, uma ação humanizadora entre os professores, que precisam ser educados para trabalhar com a diversidade e combater o preconceito. “Falar sobre orientação sexual para jovens nas escolas ainda é um tabu”, afirma. Para a professora da USP, viver e respeitar a diversidade cultural representa hoje um dos grandes desafios da sociedade. “Mas isso requer reaprendizado, tolerância, compreensão de que atualidade exige que aprendamos a lidar com os conflitos ao invés de eliminá-los. Aliás, estudiosos perceberam que os conflitos são muito mais presentes e ensinam mais do que a pretensa harmonia que achamos que vivemos”, alerta. (Bianca Justiniano – 17/09/03) |
|
||||||||||