Projeto
Telemar de Educação implanta internet em comunidades de
baixa renda
Ainda não fez um ano que a telefonia foi incorporada ao cotidiano
dos moradores de Massambará, distrito de Vassouras, no centro-sul
do Estado do Rio de Janeiro, a 116 km da capital. Até maio passado,
o povoado de 2 mil habitantes, boa parte moradores da zona rural, não
possuía nem mesmo um telefone público.
Por apresentar esse
perfil, a cidadezinha foi uma das escolhidas pela Telemar, a maior operadora
de telecomunicações da América Latina, para integrar
o Projeto Telemar de Educação, que atinge os 16 Estados
da área de concessão da empresa. Até 2004, ele estará
beneficiando 952 escolas, 700 mil alunos e 25 mil professores, num investimento
que ronda os R$ 35 milhões. A intenção do programa
é assegurar a comunidades de baixa renda o acesso ao conhecimento,
reduzindo a exclusão social e criando oportunidades de emprego
para a população local.
Em Massambará,
a primeira providência da Telemar foi instalar um telefone público.
O local escolhido foi um ponto em frente à Escola Municipal Abel
José Machado que, mais tarde, receberia computadores e impressoras
do projeto, além do acesso à internet. "Não
tínhamos telefone na cidade", recorda a diretora-geral Rita
de Cássia Carneiro Dias. "Havia apenas um PS1, que funcionava
dia sim, dia não." Muitos dos alunos nunca tinham ouvido o
toque de um aparelho e, depois que o orelhão foi instalado, encaravam
a novidade com espanto e curiosidade. "As crianças faziam
filas para ver o telefone. Quando ele tocava, todos queriam atender",
conta Rita.
O segundo passo do
projeto educacional veio anular outra deficiência da escola: a falta
de computadores. Na própria cidade, contava-se nos dedos de uma
mão o número de pessoas que possuíam um PC em casa.
Foram instalados seis computadores - todos conectados à internet
- e uma impressora. "Isso causou uma reviravolta em nossa vida. Todo
nosso trabalho era feito à mão", lembra a orientadora
Cláudia Lacerda. A sala onde os micros foram montados tornou-se
uma atração para os estudantes e as aulas passaram a ser
encaradas com mais seriedade, mesmo com o número de computadores
inferior ao de alunos - numa proporção de um para dois.
"Nem as turmas mais agitadas deram trabalho. Todos sabiam esperar
sua vez", diz Cláudia.
No ano passado, além
da escola Abel José Machado, que possui 478 alunos e 21 professores,
o programa da Telemar dedicou-se a outros 15 municípios, numa fase
do projeto chamada de piloto, porque avaliou as possibilidades de viabilização
do programa em escala maior. Em alguns casos, a estruturação
técnica foi um desafio para a empresa. Em São Gabriel da
Cachoeira (AM), localizada a 800 km de Manaus, a conexão foi feita
por satélite, já que a proximidade com a floresta amazônica
impossibilitava a instalação de cabos subterrâneos.
Atualmente, cerca
de 300 funcionários da Telemar estão envolvidos no projeto.
O objetivo da empresa é que seu pessoal tenha um envolvimento ainda
maior e comece a se voluntariar contribuindo para expandir o trabalho
social.
Depois de pronta a
infra-estrutura básica de telecomunicações nas escolas
selecionadas, a etapa seguinte do projeto foi o treinamento dos professores.
Para a capacitação, a Telemar contou com a parceria da Escola
do Futuro, da USP. Num primeiro momento, cinco professores de cada escola,
num total de 80, foram levados a quatro capitais - Manaus, Belo Horizonte,
Recife e Fortaleza - para receberem instruções sobre como
utilizar a informática na sala de aula. Em uma outra fase, os educadores
da USP viajaram pelos 16 Estados para, juntamente com os professores já
treinados (multiplicadores), ensinar os demais docentes a respeito do
funcionamento pedagógico do programa.
Sílvia Fichermann,
coordenadora pedagógica da Escola do Futuro, explica o ineditismo
do projeto. "A maioria das escolas que criam salas de computadores
só capacita os professores para trabalharem com as máquinas.
No programa da Telemar, fazemos um acompanhamento pedagógico, e
em uma grande escala, como nunca antes foi feito no Brasil." Sílvia
conta que seus educadores, conhecidos no projeto como tutores, tiveram
de lidar com a heterogeneidade: alguns professores possuíam computadores,
enquanto outros nunca tinham ouvido falar. "Presenciamos um caso
curioso em que a professora não queria pegar o disquete porque
estava com medo de se infectar com o vírus que ele continha."
O projeto-piloto rendeu
bons resultados nas escolas em que foi implantado e criou perspectivas.
"Computador é uma ferramenta de disseminação
de conhecimento. Todos querem trabalhar nele. Acredito que isso vai reduzir
muito a evasão escolar", avalia Maurisian Melo, secretária
de Educação de Tacaimbó (PE), cidade cuja escola
participante do programa funciona em uma estação de trem
desativada.
Aproveitando o entusiasmo
da turma com os computadores, as professoras de Massambará prontamente
passaram a incentivar os estudantes a usar a nova ferramenta. "Quando
estávamos estudando o barroco, fizemos pesquisas sobre o tema pela
internet", conta Amanda Brasil Carneiro, 14 anos. "Uma aula
com o computador é muito melhor do que só com os livros",
diz a aluna, que pretende optar por um curso de informática quando
for prestar o vestibular. "Eu já tinha esse interesse, mas
o programa me incentivou ainda mais."
As coordenadoras da
escola Abel José Machado, baseadas nas instruções
que receberam dos educadores da Escola do Futuro, desenvolveram em 2000
dois projetos: um para alunos de 1a a 4a séries (Conhecendo Nossa
Comunidade) e outro para os estudantes de 5a a 8a (Valores Humanos). Ambos
envolviam não apenas pesquisas pela internet, mas também
estudos de campo. Em Conhecendo Nossa Comunidade, os temas propostos foram:
perfis de pessoas ilustres da cidade, a história do Rio de Janeiro
e o tomate, cujo cultivo é fonte de renda para os agricultores
da região de Massambará. As crianças foram até
as lavouras, fotografaram, entrevistaram pessoas e depois produziram um
relatório ilustrado no computador.
Laís da Silva
Carvalho, 12 anos, participou do projeto Valores Humanos e fez uma revista
eletrônica sobre os direitos humanos das crianças. "A
gente aprendeu bastante e os professores nos ensinaram muito bem",
considera. A jovem comenta que o que mais a fascina na internet é
a possibilidade de poder conversar com pessoas de outros lugares. Só
lamenta que as conversas não sejam olho no olho. Sua fascinação
pelos chats vem acompanhada de desconfiança. "A pessoa do
outro lado pode mentir para nós e nos enganar, sem que a gente
perceba; não dá para vê-la", explica.
Em Massambará,
a lembrança do tempo em que a cidade não possuía
telefone tornou-se, assim como no poema de Drummond, apenas um quadro
na parede. Alunos e professores da escola local prepararam um mural com
textos e fotos que contam, em forma de linha do tempo, as mudanças
pelas quais passaram. Hoje, o som do orelhão já não
causa mais espanto.