Educação
deve estar a serviço da comunidade, defende consultor da Unesco
Há quase duas décadas, o professor brasileiro Marco Antonio
Rodrigues Dias vive em Paris e percorre todos os continentes para debater
questões ligadas à educação e ao sistema universitário.
Ex-diretor da divisão de ensino superior da Unesco e atual consultor
da Universidade das Nações Unidas, ele não perdeu
o foco dos problemas do Terceiro Mundo e muito menos aderiu ao pensamento
único. Crítico do desmonte público da educação
em todo o mundo, Dias bate pesado em conceitos como globalização
e sugere que a dívida externa dos países em desenvolvimento
seja perdoada em troca de um fundo para resolver os problemas da educação,
da pobreza e do meio ambiente. Suas idéias são inspiradas
na atual resistência francesa ao neoliberalismo em voga no mundo
ocidental. Na França, aliás, ele foi o segundo brasileiro
a ser contemplado com a Legião de Honra, a mais alta condecoração
daquele país (o primeiro a recebê-la foi o escritor Paulo
Coelho). Dias recebeu a medalha pelos serviços prestados ao ensino
por intermédio da Unesco. Foi ele o organizador do megaevento internacional
sobre educação superior, que reuniu há dois anos,
em Paris, mais de 4 mil pessoas vindas de mais de 180 países. Seu
novo desafio é ampliar a rede de cooperação universitária
da Unesco.
Educação
- A Conferência Mundial sobre Educação Superior de
1998, organizada pela Unesco, produziu diversos documentos e propostas,
entre elas a de que cada estabelecimento deve definir sua missão
de acordo com as necessidades presentes e futuras da sociedade. Como isso
está repercutindo nas universidades? Marco
Antonio Dias
- Desde o início dos preparativos para essa conferência,
em particular nas conferências regionais preparatórias em
Havana, Dakar, Tóquio, Palermo e Beirute, ficou muito claro que,
antes de decidir que tipo de educação superior um país
deseja estabelecer, é necessário decidir sobre que modelo
de sociedade pretende-se construir. Ao contrário do que se passava
em décadas anteriores, na dos anos 60, por exemplo, muitos políticos
dos países em desenvolvimento, como também seus intelectuais,
não estão dando provas de serem capazes, nas circunstâncias
atuais, de criarem projetos nacionais mobilizadores, suficientes para
entusiasmar os cidadãos e, em particular, as juventudes cada vez
mais céticas e mesmo desesperadas com os rumos de nossas sociedades.
Nos anos 70, grupos católicos, no Brasil e na América Latina,
falavam de um ideal histórico, tema que hoje, quando colocado em
discussão, provoca comentários irônicos sobre utopias
não realizáveis. Os estabelecimentos de ensino superior,
e em particular as universidades públicas, devem ter como compromisso
básico servir a sociedade. Em conseqüência, devem adotar
esse elemento como essencial na definição de suas missões.
Educação
- Muitos reitores e dirigentes públicos da educação
brasileira parecem estar mais preocupados com as necessidades do mercado.
Dias - O seguimento dos resultados da conferência da Unesco
não pode se limitar a decisões do governo ou de instituições
globais. As ações devem vir da base, da comunidade acadêmica
e das instituições e indivíduos a ela vinculados
na busca dos mesmos objetivos: melhorar a qualidade e a pertinência
das instituições e do sistema de educação
superior. Tudo isso aceitando os princípios da autonomia e liberdade
acadêmica. Mas falta diálogo entre autoridades governamentais
e o mundo acadêmico, entre sociedade e os membros da comunidade
acadêmica.
Educação
- Quais os elementos que deveriam nortear essa política?
Dias
- Não pode haver qualidade se não houver pertinência,
entendida como participação na busca de solução
para os problemas principais da comunidade onde está inserida e
da humanidade, como a construção da paz, a luta pelo desenvolvimento
humano, a proteção do meio ambiente e o respeito aos valores
culturais diversificados.
Educação
- A educação está sendo globalizada?
Dias -
O conceito de globalização não é novo, mas
sua difusão ampliou-se enormemente a partir de 1989, com a queda
do comunismo como sistema político baseado na União Soviética
e a consolidação de um regime econômico e financeiro
dominante no mundo inteiro. Passou-se, então, a discutir o advento
de uma nova ordem mundial, baseada na abertura das fronteiras econômicas,
na desregulamentação com o enfraquecimento do poder controlador
dos Estados, com a aceitação do mercado como único
elemento para definir as regras de conduta e para orientar as relações
entre indivíduos e entre as diversas sociedades.
Educação
- Qual o impacto disso na esfera do ensino?
Dias
- A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico (OCDE) tentou aprovar, em 1998, o Acordo Multilateral
de Investimentos (AMI) - que daria às multinacionais a liberdade
total de ação em todos os países e, na prática,
retiraria dos governos do mundo inteiro qualquer possibilidade de regulamentar
os fluxos comerciais e financeiros. O acordo, é bom lembrar, só
não foi aprovado porque a França concluiu, a tempo, que
ele significaria o fim de sua indústria cultural e, sem cultura,
a França já não seria a mesma, deixaria de ser uma
nação para ser apenas uma parte de um conjunto sobre o qual
os franceses não teriam nenhum peso. No entanto, o tema continua
em discussão na Organização Mundial do Comércio
(OMC).
Educação
- O Brasil talvez entrasse na onda...
Dias -
Princípios como a desregulamentação, o enfraquecimento
dos Estados e o poder avassalador do mercado são a base de uma
nova teologia, que domina as relações entre os povos. Nos
anos 70, tivemos a "teologia da liberação", que
sofreu ataques de todas as partes. Agora temos a "teologia do mercado".
E foi baseado nesses princípios, transformados em objetivos, e
seguindo os conselhos dos tecnocratas do Banco Mundial, do fundo Monetário
Internacional, da OCDE, e agora mais que nunca da OMC, que nossos países
da América Latina, como outros na África e Ásia,
simplificando as formalidades de importação, privatizaram
o patrimônio público, enfraqueceram as funções
e os serviços públicos, permitiram que as multinacionais
destruíssem completamente os incipientes parques industriais nacionais,
suas instituições de pesquisa, e, de quebra, estimularam
uma crise financeira e de identidade nos estabelecimentos públicos
de educação superior.
Educação
- Qual é a saída?
Dias
- É necessário reconhecer a existência do fenômeno
para poder enfrentá-lo. Parece-me inútil discutir a questão
da globalização da mesma maneira como poderíamos
fazê-lo nos anos 60 ou 70 ou mesmo nos anos 80. A realidade hoje
é outra. O que estamos vivendo não são mudanças
cosméticas. Estamos falando de uma nova civilização
e esta, infelizmente, para os países da periferia, acarreta problemas
sérios.
Educação
- Por exemplo?
Dias
- É o caso da dívida externa, que muitos consideram impagável.
Impagável, mas países como Brasil, Argentina e México,
apenas para citar três nações latino-americanas, estão
vendo todo o resultado de seu trabalho ser entregue, sem discussão,
ao sistema financeiro internacional, sem que ao menos a dívida
diminua. Falar da dívida parece que saiu de moda, mas, se a questão
não for resolvida no Brasil, na Argentina, no México e em
outros países, não são as universidades públicas
que vão desaparecer: são os países, eles mesmos.
Educação
- Como o sr. propõe resolver o problema da dívida externa?
Dias -
Somente em juros dessa dívida, o Brasil paga anualmente mais de
70 bilhões de dólares. E o orçamento anual do Ministério
da Educação é de cerca de 10 bilhões de dólares.
Em outras palavras, o que o Brasil investe em educação em
um ano é a sétima parte do que está sendo entregue
a seus credores. Se esse montante fabuloso de dinheiro, em lugar de ir
para o sistema financeiro internacional, fosse utilizado em programas
sociais, inclusive em educação, que impacto essa medida
poderia ter para o país? Não quero por lenha na fogueira
ou fazer um belo discurso como se, com isso, todos os problemas fossem
resolvidos. As dificuldades são grandes. Mas reconhecer a dificuldade
significa aceitar imposições sem discussão? Significa
deixar de estudar o problema em toda sua magnitude? Significa deixar de
lado os ideais dos tempos da juventude? Que papel podem exercer as universidades?
Manifestar? As universidades podem e devem ir além das manifestações.
Devem analisar a questão e propor alternativas.
Educação
- Os governantes também.
Dias
- O governo francês decidiu bloquear a aprovação do
Acordo Multilateral de Investimentos na OCDE. Ninguém duvida de
que a decisão foi feita para responder à mobilização
das ONGs contra o que significava tal pedido.
Educação
- A OCDE, por outro lado, tem alguns méritos, como a decisão
de aprovar a idéia da universalização do acesso ao
ensino superior.
Dias -
A OCDE, uma espécie de clube dos países ricos para tratar
de questões econômicas, há tempos passou a consagrar
grande parte de seu tempo e de seus recursos com o ensino superior, fundamental
para manter o alto nível de riqueza alcançado por esses
países. Atualmente, os EUA e o Japão marcham para a universalização,
enquanto os países da Europa ocidental fixam objetivos em curto
prazo, em geral superiores a 60%. O Brasil possui apenas 11% dos estudantes
na faixa etária de 17 a 24 anos matriculados no ensino superior,
e o MEC anunciou planos para alcançar 30%. Há de se deixar
claro que somente se pode pensar em universalização com
diversificação. Quando os norte-americanos falam em acesso
universal, não pensam em criar milhares de Stanfords ou Harvards.
Colégios comunitários, ensino a distância, as mais
variadas formas de estabelecimentos entram em conta nesse momento.
Educação
- No Brasil, esse crescimento está acontecendo exclusivamente no
setor privado.
Dias
- O financiamento requer recursos públicos e privados, ainda que,
em qualquer hipótese, a educação superior tenha de
ser vista como um serviço público, independentemente da
estrutura jurídica. O que continua inaceitável - ainda que
reflita uma realidade em várias partes do mundo - é a transformação
da educação superior em um negócio similar à
venda de sabão ou às atividades de um restaurante fast-food.
Dentro desse marco, o financiamento público continua sendo essencial.
Educação
- O problema do acesso começa nos anos anteriores ao ensino superior,
então algo deve ser feito por aí também.
Dias
- A democratização do ensino superior passa pela melhoria
e democratização do nível médio e eliminação
da repetência no nível fundamental. A Unesco desenvolveu,
em todos os continentes, redes de universidades que trabalham no campo
da formação pedagógica, em que os estudantes são
colocados no primeiro plano das preocupações das instituições
e dos sistemas de educação superior. Não podem ser
colocados na posição passiva de simples receptores. Devem
ser estimulados a aprender a aprender, mas também a aprender a
tomar iniciativas e a aprender a viver juntos, base de uma formação
de um cidadão consciente e solidário.