O poeta Eugenio Montale
(1896-1981), Prêmio Nobel de Literatura de 1975, teve as obras completas
publicadas na Itália em 1996, ano do centenário de seu nascimento.
Essa foi a vontade dele. No Brasil, a edição bilíngüe
da Editora Record saiu no segundo semestre de 2000, e o suplemento literário
de um jornal publicou alguns dos poemas com a tradução ao
lado. Grande poeta. Mas na tradução de um dos poemas - Sem
título (nº 65) -, há um escorregão. Em italiano:
"Porterai com
te l'ultima ventata
di poesia; poi una nube gonfia
di presagi funesti oscurerà
la luce che ci fu concessa.
Non fosti un semplice bagliore,
giungesti inaspettata, voce di salvazione.
Un suono limpido emettono
i cristalli quando il vento
li sfiora, il chiarore li fa splendere
come incandescenti arcobaleni
che illuminano d'attorno.
Intorno il mondo scolora."
Mesmo quem não
conhece italiano, ou não o conhece bem, se ler tais versos sentirá
a melodia que eles destilam. Assim foi a tradução publicada:
"Levarás
contigo meu último sopro
de poesia; depois uma nuvem carregada de presságios
funestos escurecerá
a luz que nos foi concedida.
Não foste um simples fulgor,
chegaste inesperada,
voz de salvação.
Um som límpido os cristais
emitem quando o vento
os afloram, claridade
fá-los esplender como incandescentes
arco-íris, que iluminam
em derredor.
Ao redor o mundo descolora."
Claro que em italiano
é muito mais bonito. Palavras correspondentes em português
não soam tão bem como no original. E a entre nós
desusada segunda pessoa verbal sempre soa como sino rachado. Entre nós?
Sim, para a maioria dos falantes brasileiros. Sem contar o desairoso "fá-los"
do antepenúltimo verso traduzido.
Pior, no entanto,
é a discordância verbal em "Um som límpido os
cristais emitem quando o vento os afloram". O vento "os afloram"?
Aflorar, no sentido usado pelo poeta, é acariciar, afagar. Há
de ter sido distração do digitador ou do computador porque
o vento, sujeito singular (vento), aflora singularmente os cristais plurais.
Essa distração costuma ocorrer por causa de proximidade
do verbo com palavra ou palavras no plural. No caso, o pronome "os"
refere-se aos cristais afagados. Por isso o verbo, em vez de concordar
com o sujeito, caiu desolado nos braços do complemento (os), objeto
direto plural.
Como Montale criou
o poema com o verbo óbvia e explicitamente no singular - "il
vento li sfiora" - ("o vento os acaricia"), por certo houve
distração de alguém na pátria amada.
Não se deve sofrer por isso, mas saborear a serena e profunda sabedoria
poética de Eugenio Montale. Se o leitor não souber italiano,
a tradução o ajudará a apreciar melhor a musicalidade
dos versos originais. Buon viaggio.
Outros mundos
- Algumas pessoas usam a expressão "outros países do
mundo" para comparações com o Brasil. Por exemplo:
"Em outros países do mundo a corrupção é
maior do que no Brasil". Por que "outro país do mundo"?
De onde mais seriam esses países? Por acaso se pode falar de países
que não são do mundo? Seriam de Júpiter, por exemplo?