Ao comemorar os 501 anos de fundação do país, é
preciso repensar o investimento em cidadania
Abril mal começou e as escolas já estão planejando
a lembrança dos 501 anos de fundação do país,
às vezes até ensaiando o Hino Nacional para ninguém
fazer feio frente a alguma eventual bandeira hasteada. Patriotismo à
parte, não se pode esquecer qual o sentido dessa comemoração.
Ninguém nega a importância da educação na construção
de uma nação; muitos, porém, acreditam que o desenvolvimento
econômico deve estar atrelado ao desenvolvimento educacional, quase
como se aquele fosse conseqüência deste. No entanto, o que
do ponto de vista de alguns indivíduos é verdade, no conjunto
social do país, mostra-se uma lamentável - e desastrosa
- associação.
Num ranking que inclui
as 192 nações filiadas à ONU, somos a 10ª economia
capitalista do mundo. Sendo essa uma posição absolutamente
privilegiada no cenário atual, alguém que olhasse de fora
imaginaria que temos condições sociais extremamente adequadas.
Quem dera! No Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (que inclui
educação, saúde e expectativa de vida), ficamos,
no ano passado, com a posição de número 78! Se levarmos
em conta apenas o critério educação, então
o Brasil fica no 64º lugar na colocação mundial.
Se nós somos
a 10ª nação capitalista, como podemos ser a 64ª
em educação? Reza a crença que, se aumentarmos as
nossas condições educacionais, ascenderíamos ainda
mais economicamente, mas nessa equação nunca entra a distribuição
de riqueza. Sim, porque educação também é
um bem a ser socialmente repartido. Ora, repetimos, já somos a
10ª nação mais rica e isso não se traduz em
melhores condições educacionais. Portanto, investir mais
em educação não significa obrigatoriamente que vamos
subir mais ainda na escala econômica...
A cruel concentração
de renda também pode ser observada no campo educacional. Assim
como muitos têm recursos financeiros apenas para continuarem vivos,
também milhões recebem uma educação suficiente
para somente uma subvida cultural. Não basta aumentar os indicadores
educacionais sem distribuir riqueza, pois educação é
um bem social que também precisa ser distribuído. Educação
não é a única promotora do desenvolvimento econômico;
essa relação não é linear, automática.
Por isso, comemorar
significa "lembrar junto" e, nestes tempos nos quais atingimos
os 501 anos de fundação do país, não podemos
cair na armadilha semântica e ideológica de insistir no discurso
de que a educação é a chave para o "resgate"
da cidadania. Resgatar pressupõe ir buscar de volta uma coisa que
já existiu e deixou de ter presença. E sabemos bem que,
em se tratando de cidadania, no Brasil, o conjunto social nunca viveu
minimamente essa condição.
A educação
é elemento fundamental para a construção da cidadania
que apenas se iniciou entre nós nesses 501 anos, mas precisa estar
atrelada a uma eficaz distribuição de riqueza, de modo que
também ela - e não apenas ela - seja incrementadora do desenvolvimento
econômico. Deve-se investir em educação porque é
um direito de cidadania que tem de ser usufruído por um povo capaz
de produzir uma das maiores riquezas do mundo!
(Mario Sergio Cortella
é professor de pós-graduação em Educação
(currículo) da PUC-SP)