Nem bombeiro,
nem astronauta. O que Edson Ramon de Freitas Tavares, 12 anos, quer mesmo
é ser médico ortopedista. Apesar de parecer um tanto prematura,
sua convicção só não é mais impressionante
do que sua história. Em 1998, saiu de Caiçara do Norte,
no interior do Rio Grande do Norte, para iniciar seu tratamento contra
um tumor ósseo em São Paulo. Sem parentes ou amigos na cidade,
Edson e sua mãe foram encaminhados para a Casa Hope, instituição
que há quatro anos recebe e apóia gratuitamente pessoas
de baixa renda em busca de tratamento para os mais diferentes tipos de
câncer. "A maioria não sabe que o tratamento contra
o câncer é longo e que o paciente precisa de assistência
constante", afirma Izilda Moribe, coordenadora da Casa Hope. A instituição
passou a oferecer o que Edson e sua mãe não possuíam:
transporte, alimentação, acomodação, assistência
odontológica, psicossocial e, ainda, atividades recreativas para
aproximá-lo de tudo o que caracteriza uma vida normal.
"Tentamos evitar
que a criança pense apenas na doença. É necessário
que estabeleça vínculos sociais", explica a coordenadora.
De acordo com ela, são mais de 100 crianças atendidas todos
os anos. No entanto, desde o início da iniciativa, um ponto que
sempre pecava para o melhor desenvolvimento da criança era a falta
de atividades pedagógicas. Como não podem ir para a escola
convencional, ficavam excluídas do sistema de ensino. "Quando
eu fazia quimioterapia, faltava muito na escola porque tinha enjôo,
então tive que parar de estudar", lembra Edson. Em setembro
de 1998, a instituição, em parceria com a Faculdade Oswaldo
Cruz, criou o projeto Escola Hope. A faculdade é responsável
pela implementação de metodologias pedagógicas especiais
para os internos da Hope. O desenvolvimento do material exclusivo para
o ensino infantil e primeiras séries do ensino fundamental ficou
a cargo dos pedagogos e educadores da faculdade, que voluntariamente se
interessaram em ajudar.
O material é
aplicado por duas alunas bolsistas da Faculdade de Pedagogia, coordenadas
pelos professores da universidade. "Elas têm reuniões
periódicas sobre os resultados das aulas para cada aluno",
conta Shirley Costa Ferrari, coordenadora do departamento de Filosofia,
Ciências e Letras da Oswaldo Cruz. Para ela, o material está
em constante processo de construção. "Tudo é
elaborado na emergência, conforme a necessidade das crianças."
E foi exatamente a demanda das crianças que inspirou o avanço
dos trabalhos educativos. Como a Casa Hope atende também adolescentes
e adultos, foram desenvolvidos programas de acompanhamento pedagógico
para essa faixa etária.
Estudantes dos últimos
anos dos ensinos fundamental e médio, que interromperam seus estudos
por causa da doença, podem levar seus cadernos e livros para a
instituição. Lá, dez estagiários dos cursos
de licenciatura em matemática, letras, química, biologia
e farmácia da Oswaldo Cruz examinam o material para dar continuidade
aos estudos. "Primeiro, analisamos em que nível e série
o aluno está, para podermos decidir como o trabalho será
realizado", diz Shirley, também responsável pelo funcionamento
da parceria. Embora a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) garanta a inserção
dos alunos na rede formal de ensino ao término do tratamento (LDB
9394/96), a iniciativa tem planos mais ambiciosos. Este ano, pretende
oficializar um projeto com a Secretaria Estadual de Educação
de São Paulo, que criará uma escola dentro da Casa Hope.
"Com a institucionalização, o processo de transferência
para escolas convencionais ficaria muito menos burocrático",
espera a coordenadora.
Para Patrícia
Ferreira, uma das educadoras bolsistas da Faculdade Oswaldo Cruz, o projeto
trouxe ganhos indiretos aos participantes. Admitida no ano passado, ela
dividia com seus colegas de curso as dificuldades enfrentadas na Hope.
"A universidade não forma um profissional apto para trabalhar
com crianças portadoras de deficiências, mas, pelo menos,
abríamos espaço para discutir o tema", desabafa. Os
apertos eram diários. "É difícil trabalhar com
eles, porque você tem que estar atento a cada um e não é
possível dar aulas continuadas", afirma, lembrado das vezes
que seus alunos faltavam devido ao tratamento. Há também
o problema emocional.
Segundo Patrícia,
quando uma criança fica em estado grave ou mesmo falece, as demais
começam a entrar em depressão e todo o trabalho deve ser
redirecionado com a ajuda dos psicólogos. Recém-formada
em pedagogia, a educadora centrará sua pós-graduação
em salas de aula hospitalares. Paralelamente a esse trabalho, a Casa Hope
oferece aos pais ou responsáveis pelas crianças cursos de
alfabetização ou mesmo de capacitação profissional.
"Percebemos que muitas mães não sabiam ler, ou que
não sabiam fazer nada além de cuidar da casa", explica
Izilda Moribe. Entre os cursos ministrados estão os de saúde,
higiene, nutrição, fotografia, terapia ocupacional, panificação
e confeitaria. "A maioria das famílias se desestrutura, muitos
casais se separam.
É importante
a mãe aprender alguma profissão." Mais do que propiciar
a possibilidade de estudar, o projeto Escola Hope ajuda a recuperar a
auto-estima de crianças e adultos, dando perspectivas para o futuro.
"A proposta dos projetos converge para dar suporte para o momento
atual e para a reinserção na sociedade quando o tratamento
acabar", define Izilda. Edson, que largou os estudos na segunda série
para iniciar a quimioterapia, estuda hoje na quinta série da Escola
Estadual de Ensino Fundamental Professor Carlos Pasquale, na Vila Moraes
(SP). "Eu estava seguro para voltar para a escola", conta. Prova
da eficiência do sistema desenvolvido pela iniciativa, ele não
se esquece dos amigos que fez e de seus professores na Casa Hope. "Quando
posso, vou visitá-los. Se pudesse, estudaria lá sempre."