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A herança volátil No governo Jânio Quadros, quando tinha pouco mais de 40 anos, o almirante Ibsen de Gusmão Câmara foi ao Paraná cuidar de um inquérito militar. Viajou de jipe, sacolejando por um dia inteiro, numa estrada de terra quase tapada pelas árvores. O oeste do Estado ainda era floresta, e ele vistoriou em Guaíra uma usina termoelétrica que, por força de seus estatutos, só aceitava torrar em seus fornos madeira de lei tirada da mata nativa. Queimando árvores de melhor qualidade, o rendimento calórico era maior, diziam seus técnicos. Não é à toa que, ao deixar a Marinha, ele se tornou ecologista em tempo integral, aliás, um dos mais influentes que o país conseguiu formar em sua escola aberta de degradação ambiental. Quarenta e tantos anos depois daquela viagem a Guaíra, o mato praticamente sumiu do interior paranaense e Ibsen de Gusmão Câmara apresenta sua cartilha do que esta terra ainda tem para perder. É mais do que se poderia esperar como herança dos 500 anos de dissipação. Isso faz do livro Megabiodiversidade - Brasil (Sextante, R$ 89) uma armadilha para leitores distraídos. Com 207 páginas de fotografias, parece, à primeira vista, ser mais uma dessas edições de arte que, vendidas em aeroportos, ajudam o Brasil a desfilar para o resto do mundo o luxo de sua fantasia. Mas o texto foi entregue a quem viu o litoral do Ceará escondido pela Mata Atlântica da janela dos bimotores C-47, em que voava pelo Nordeste na década de 1940. Há mais de duas décadas assistiu à liquidação dessa floresta para o avanço dos canaviais, tangidos pelo Programa Nacional do Álcool. Produto dessa experiência, o texto de Câmara tempera as imagens com advertências. O livro pode ser bonito mas não foi feito para distrair turistas. É quase um manual de sobrevivência. Ensina os brasileiros a usar o país e a exercer "perante o mundo a imensa responsabilidade de preservar tamanha riqueza". As fotos dão a impressão de estar ali para convencê-los a ler coisas que geralmente não gostam de ouvir. Riqueza, segundo o almirante, é o país ocupar no planeta "o primeiro lugar quanto ao número de mamíferos, terceiro em aves (1.622 espécies), quinto em répteis (468) e segundo em anfíbios (517), sendo, muito provavelmente, também o primeiro em peixes". Com 788 espécies endêmicas - ou seja, quem só existem aqui - é o quarto do mundo em formas de vida exclusivas. Só na Amazônia, "são conhecidas 560 espécies de mamíferos (13% do total mundial)". Lá "existem 25 espécies de marsupiais e 124 de morcegos, das quais, respectivamente, 14 e 38 são endêmicas. A ordem dos primatas possui na área cerca de 50 espécies, aproximadamente 20% dos macacos do planeta, com diversas espécies sendo descobertas recentes. Há mais de mil espécies de aves (mais de 10% de todas as existentes), muitas com características regionais, provavelmente devido ao longo isolamento da América do Sul em passado remoto". Peixes, a região nem sabe direito quantos tem. Trata-se de alguma coisa entre duas ou três mil espécies, variedade "seguramente maior do que a de qualquer outra bacia fluvial". E a quantidade de insetos é nada menos do que "prodigiosa". Numa "única árvore amazônica foram coletadas mais espécies de insetos do que todas as espécies existentes no Reino Unido". Na Mata Atlântica, que já ocupou o litoral brasileiro do Ceará ao Rio Grande do Sul, e hoje é uma relíquia florestal guardada em reservas legais e serras isoladas, a exuberância é ainda maior. No que sobrou dela, há 20 mil espécies de árvores. E 458 foram identificadas na Bahia dentro de uma área de um hectare. Ou seja, num naco de terra com as medidas de um campo de futebol, existem mais árvores diferentes do que "na totalidade de diversos países da Europa". Mas o patrimônio natural dos brasileiros está em mau estado. Da Mata Atlântica sobraram 90 mil quilômetros quadrados. Ou seja, 7,3% do 1,3 milhão de quilômetros quadrados do Descobrimento. E "mesmo esse baixo porcentual é ilusório, posto que as matas remanescentes encontram-se em sua maior parte divididas em miríades de fragmentos insignificantes e são, em larga medida, constituídas de vegetação secundária em distintos estágios de regeneração, com constituição florística e faunística alteradas e empobrecidas". Na Amazônia, a devastação "se vem fazendo em ritmo assustador". Em meados de 1996, estavam desmatados na região mais de 517 quilômetros quadrados, "uma área superior a duas vezes o Estado de São Paulo". E a derrubada continua num ritmo de 52 quilômetros quadrados por dia. Quer dizer, "mais de dois quilômetros quadrados por hora". O coquetel de fotografias envaidecedoras e números sombrios parece receita contra uma velha endemia nacional chamada "mito edênico". Para o historiador José Murilo de Carvalho, que o descobriu e batizou, trata-se daquela fórmula de ufanismo que, injetando desde cedo no brasileiro a certeza de que nasceu numa terra de natureza inigualável, vacinou-o contra a tentação de fazer qualquer coisa para conservá-la. Se ela é tão exuberante como se diz desde 1500, deve ser inexaurível, supõem os devotos do mito edênico. Ledo engano. Como avisa o almirante Ibsen de Gusmão Câmara, a diversidade é uma herança volátil.
Esta coluna publica textos da revista eletrônica Notícia e Opinião (www.no.com.br). |
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