Em 30
anos de trajetória literária, Ana Maria Machado escreveu
110 livros, a maioria para crianças; conquistou importantes prêmios
literários nacionais e internacionais - como o Hans Christian Andersen,
o "Nobel" da literatura infantil, e o Machado de Assis, da Academia
Brasileira de Letras. Mas seu público jovem pouco se importa com
o currículo. Eles gostam mesmo é de viajar nas suas histórias,
construídas com narrativas ricas em conceitos e significados. Tudo
começou de forma despretensiosa, na revista Recreio, em 1969, e,
a partir daí, Ana Maria não parou mais. Sua produção
é tão intensa que ela trabalha com várias editoras.
"Cada uma tem um perfil diferente", explica.
Neste ano ela planeja
lançar mais cinco títulos: Do Outro Mundo, novela juvenil
sobre a escravidão; Abrindo Caminho, livro infantil fartamente
ilustrado (ambos pela Ática); De Carta em Carta, pelo selo Salamandra,
da Editora Moderna; e duas antologias, o terceiro e último volume
da série Tesouros das Virtudes e o segundo volume do Tesouros das
Cantigas, com CD. Além disso, está terminando outra obra,
ainda sem título, sobre como e por que ler os clássicos
(Objetiva). Muita produção para um país que não
lê? Ana Maria Machado afirma que o incentivo à leitura não
deve estar focado apenas na criança, nem adianta cobrar da família:
o problema são os professores que não têm gosto pelos
livros.
Revista Educação
- Literatura pode ser ensinada em sala de aula? Ana Maria Machado - É difícil ensinar a ler literatura
porque não é um processo didático. Você pode
se contaminar com um "vírus", transmitir um gosto, compartilhar
um entusiasmo. Funciona mais o exemplo do professor que lê do que
exigir leitura como atividade em classe.
Educação
- Professor que não gosta de leitura parece ser um contra-senso,
não?
Ana Maria -Muitas vezes encontramos esse paradoxo em nossa sociedade.
Gente que não gosta de ler não pode ensinar a ler. É
igual a um instrutor de natação que não goste de
nadar e por isso tenta ensinar os alunos do lado de fora da piscina. Eu
questiono a formação do leitor. Quantos livros de literatura
não-obrigatória um professor lê por ano?
Educação
- O que está errado na formação do professor? Ana Maria -Vivemos um momento, por um lado, extremamente positivo,
com o aumento do número de estudantes e professores nas escolas.
Entretanto, todo esse esforço do governo fez com que a formação
atendesse mais a quantidade do que a qualidade.
Educação
- Os governos estão fazendo diversas campanhas para incentivar
a leitura em sala de aula. O público-alvo deveria ser outro? Ana Maria -O governo está certo em distribuir livros
aos alunos. Existe um projeto que distribui cinco livros para cada escola
pública e mais cinco para as famílias. Isso é ótimo.
Mas as campanhas deveriam também atingir mais os adultos. Está
sendo feito um grande esforço para distribuir livros em escolas
e até para professores, mas o volume maior, o alvo principal, são
os alunos. E o professor também deveria ler mais.
Educação
- Por que os professores não lêem? Ana Maria - Em nossa sociedade, existe pouca valorização
para o ato da leitura. Temos a visão de que a pessoa que lê
é alguém estranha, esquisita, sempre escondida atrás
de óculos, além do estereótipo de que não
faz sucesso com as garotas ou com os garotos. Assim, desde pequena, a
criança vai aprendendo a valorizar mais o corpo, a malhação,
do que a leitura. O ideal de muitos professores recém-formados,
por exemplo, é freqüentar uma academia de ginástica
e não uma biblioteca.
Educação
- O exemplo dos pais não é mais importante do que o da escola?
Ana Maria - O exemplo de casa é utópico. A maioria
da população é carente, não teve contato com
livro. Não se pode esperar que os pais sejam responsabilizados
em servir de exemplo para os filhos. A escola é que tem obrigação
de fazer isso.
Educação
- Mas pais que lêem muito transmitem o hábito da leitura
para os filhos Ana Maria - É claro, mas são minoria, não
dá para colocar isso como política generalizada. A maioria
não tem e não teve acesso a livros.
Educação
- Best-sellers, como Harry Potter, servem de estímulo à
leitura?
Ana Maria -Falei sobre esse assunto em meu último livro,
Texturas (Nova Fronteira). Se a criança ou o jovem está
lendo, é bom. Mas isso não tem nada a ver com a escola.
O professor não pode recomendar esse tipo de leitura - que é
um chiclete para ser curtido, mas não serve como alimento literário.
A criança tem que entrar em contato com a nossa herança
cultural, conhecer clássicos à altura de seu gosto e capacidade
de entendimento. Bons livros devem ser apresentados à criança
para ela degustar. É um cuidado semelhante à merenda. Tem
que ter qualidade. Não pode ser qualquer coisa.
Educação
- Seus livros para adultos contemplam principalmente o universo feminino.
É proposital? Ana Maria -É o público que lê. Homem não
lê literatura, salvo pouquíssimos e maravilhosos, que são
os que me interessam. A maioria dos homens lê romance de espionagem
ou de luta, quando não lê apenas as coisas utilitárias
para a profissão. Os homens já leram, em outras gerações.
Mas, hoje, a vida está muito competitiva, acham que é perda
de tempo, é um mistério. Abriram mão de uma conquista:
o poder de imaginar. Parecem estar treinados, desde o ensino médio,
que orienta demasiadamente para ciência e tecnologia e pouco para
as humanidades e as artes.
Educação
- Como estimular o professor a ler mais? Ana Maria - Essa iniciativa deve acontecer antes da sala de
aula. Se o professor descobrir o que gosta de ler vai recomendar isso
ao aluno. Uma das estratégias que podem ser adotadas numa escola,
por exemplo, é montar uma estante com livros na sala dos professores
ou organizar clubes de leitura, como acontece no Chile. Ou, ainda, promover
concursos para premiar o professor que mais ler. Se o professor lê,
não tem como não passar isso ao aluno. Quem gosta de ler
está sempre falando de livro, recomendando leituras para outras
pessoas, é algo que contagia e flui naturalmente.
Educação
- O preço dos livros não é quase proibitivo? Ana Maria -Um CD custa o mesmo que um livro e ninguém
reclama. É claro que ouvir música é mais fácil.
Ler exige um esforço adicional. Mas hoje existem bibliotecas públicas
em quase todos os municípios brasileiros, centenas delas foram
abertas nos últimos anos. Se o professor acha que livro é
caro, que faça uma vaquinha com os colegas, organize gincanas.
É mais fácil colocar a culpa nos outros, dizer que o livro
é caro, ou reclamar que o governo não distribui livros de
graça.
Educação
- Como se explica que um país onde o livro não é
valorizado tenha uma boa safra de autores? Ana Maria -A valorização social do livro não
é uma coisa clara. Quanto à boa safra de autores, devemos
a Monteiro Lobato. Ele estabeleceu um padrão de qualidade em nossa
literatura e todos os autores partiram desse patamar. Qualquer livro de
história da literatura menciona a importância de Monteiro
Lobato, até em obras estrangeiras. Autores de hoje foram crianças
que leram Monteiro Lobato. O Brasil é o país que ganhou
mais prêmios Hans Christian Andersen, sem contar com os EUA, que
levaram quatro vezes. Nos igualamos à Suécia e à
Alemanha, que também ganharam dois. Entre os brasileiros premiados
estão a Lígia Bojunga e eu. França, Itália
e Japão receberam o prêmio apenas uma vez.
Educação
- Diversos autores infanto-juvenis, como Ziraldo, Ruth Rocha e Lígia
Bojunga, sofreram críticas, na época, por supostas mensagens
políticas em suas obras. Como é escrever hoje, em regime
democrático?
Ana Maria - Sou parte de uma geração que começou
a escrever durante o período militar quando literatura infantil,
poesia e letras de músicas eram as únicas formas de literatura
que, usando linguagem poética e simbólica, podiam dizer
algo mais, passar mensagens de liberdade individual e respeito aos direitos
humanos. Vivemos um momento em que as coisas são mais complexas
do que apenas mocinho e bandido, preto-e-branco. Mas o maniqueísmo
das histórias infantis clássicas, em que nunca embarquei,
graças a Deus, está sendo usado hoje pela imprensa para
falar do Brasil.
Educação
- O jornalista também não lê literatura? Ana Maria -A imprensa, hoje, está menos preparada.
Antigamente, os jornalistas eram poucos, geralmente autodidatas, e tinham
uma atitude erudita sobre a realidade. Hoje, sai gente formada de escola
de comunicação que não leu nem Monteiro Lobato, quanto
mais Sérgio Buarque, Raymundo Faoro etc. Não tem termo de
comparação. Fui jornalista e sei que, hoje, o acesso às
faculdades de comunicação está mais democratizado.
Estamos numa transição. Espero que, com o tempo, os que
têm mais talento se destaquem, não apenas porque nasceram
melhor.
Educação
- A televisão é muito criticada por não oferecer
boas opções educacionais. Como um programa poderia ajudar
a incentivar o hábito da leitura? Ana Maria -O programa do Sítio do Picapau Amarelo
é muito bom, mas faltam outras iniciativas. Tudo na televisão,
em termos de programa infantil, se resume a antes e depois do Sítio
do Picapau Amarelo. É a única referência. Nossa televisão
dá mais ênfase ao desenho animado, ao lourinho dançando,
do que fazer adaptações de livros. E com nossa riqueza de
literatura poderiam ser feitas muitas coisas. Veja o Walt Disney, que
construiu todo o seu império a partir de livros. Todos os filmes
de Disney foram adaptações literárias, como Alice
no País das Maravilhas, Pinóquio, A Bela Adormecida. Nós
temos livros de alta qualidade que não são valorizados como
matéria-prima em filmes.
Educação
- A televisão, o videogame e o computador estão tirando
as crianças dos livros? E não há um excesso de informações
em que a criança fica perdida? Ana Maria -O mundo é assim mesmo - encantador. Quando
eu era criança, não tinha televisão nem computador.
Eu passava horas no quintal de minha casa brincando. A tentação
era ficar lá no quintal e não entrar em casa e ler livros.
Brincava no jardim, nas árvores. Era mais tentador que a televisão
ou o computador de hoje. E, assim mesmo, eu li muito. Porque em casa havia
muitos livros. Monteiro Lobato foi um dos autores que fez parte de minha
infância. Os livros eram arrebatadores, e o que mais me fascinava
era a liberdade dos personagens, prontos para sair pelo mundo. Além
de Lobato, havia outros autores, como Mark Twain, narrando as peripécias
de Tom Sawyer e Stevenson, povoando de mistério e suspense as aventuras
do jovem Jim em busca de um tesouro pirata. Em minha família todos
gostavam de contar histórias. Minha mãe, que teve nove filhos,
contou história para todos. Mais tarde vieram os romances de Charles
Dickens e Alexandre Dumas e a certeza de que a leitura é importante
em qualquer idade. A narrativa dá sentido à existência
e os livros formam um patrimônio da humanidade, a que todos têm
direito. E devem reivindicar.
Educação
- O que você gosta de ler? Ana Maria -Leio de tudo. Gosto principalmente de ficção,
poesia e ensaios.
Educação
- Algum autor em especial? Ana Maria -São muitos, e eu seria injusta se fizesse
uma lista aqui e esquecesse de alguém.