A Globo exibiu este
ano a minissérie Quinto dos Infernos, sobre a estada da família
real portuguesa no Brasil do começo do século XIX. A palavra
quintos, no plural, é sinônimo de inferno. Em geral vem seguida
da expressão intensificadora "dos infernos", como bem
a chama o Dicionário Houaiss. É assim, no plural, que se
tornou conhecida e comparece nos dicionários. Nos tempos em que
o Brasil era declarada e oficialmente colônia, os portugueses o
chamavam de "quintos dos infernos" porque "quintos"
também significa região longínqua.
Ir para os quintos,
portanto, significava ser degredado da Europa para lugares como este,
que por certo não melhorou desde então, considerando a classe
que costuma dirigi-lo. Os degredados embarcavam na "nau dos quintos",
que também, e principalmente, levava para Portugal e Espanha o
"quinto", quer dizer, o imposto de 20% sobre os metais e minerais
preciosos extorquidos das colônias. Agora a extorsão é
mais sutil. Mas ultrapassa o quinto e assim, acrescido, é aplicado
também pelos governantes locais aos súditos infelizes.
A expressão
singular "quinto dos infernos" parece ser regional. Daí
o nome da série, que satiriza a família real, destaca a
figura do Chalaça e toma liberdades várias com a História,
para desgosto dos historiadores. De todo modo, chama a atenção
para a História deste país tão bem governado.
Liberdades, de fato,
são as que toma com a pobre língua perdida e mal paga. Na
série, o verbo e o pronome são tratados a bordoadas, como
o povo pelo governo. Alguns exemplos, com a forma adequada para a época
entre parênteses.
- Pergunta o Chalaça
ao marido de Domitila: És o marido de Domitila? Deveis lembrar-se
de mim. (Se fossem conhecidos e iguais, e não eram: "És
o marido de Domitila? Deves lembrar-te de mim." Se o tratamento fosse
cerimonioso, e no caso deveria ser: "Sois o marido de Domitila? Deveis
lembrar-vos de mim.")
- Domitila a Pedro,
antes de se conhecerem biblicamente: Por Cristo, não faça
isso! ("Não faça" é a forma imperativa
na terceira pessoa do singular, que não se usava nem a pedradas.
Menos ainda para alguém da família real. Devia ser "não
façais", se na segunda do plural, como convém dizer
a um príncipe, ou "não faças", segunda
do singular, para um igual. Portanto: "Por Cristo, não façais
isso!" Se já fossem íntimos ou iguais: "Por Cristo,
não faças isso!")
- A velha marquesa
italiana corrupta, dama de companhia de Carlota, a D. João VI:
Tens que tomar banho! ("Tu" para o rei? Por mais que tirasse
pedaços de frango do bolso, merecia respeito. "Tendes de tomar
banho, majestade.")
- Um súdito
à rainha: Não sei a quem se referes, majestade. ("Se",
da terceira pessoa para a rainha? E com o verbo na segunda pessoa? Era
"tu" para os iguais e "vós" para a nobreza.
"Não sei a quem vos referis, majestade.")
- Lobato, o conselheiro,
ao rei: Não mexa com isso, majestade! ("Não mexais
com isso, majestade!")
- O marido de Domitila
a D. Pedro: Mais uma vez, perdão, alteza, por ter-lhe acordado.
("Mais uma vez, perdão, alteza, por ter-vos acordado.")
- Carlota para a dama
de companhia: Com certeza! (Como se já se usasse naquela época
essa expressão inteligente, com que muitos hoje respondem afirmativamente
a uma pergunta, em vez de dizer "sim".)
Quinto dos Infernos,
portanto, levou a História e a língua para os quintos.
Josué Machado
É Jornalista E Autor Do Livro Manual Da Falta De Estilo (Ed. Best
Sellers)