O mundo
está mudando, bradam muitos, ainda atordoados pelas dificuldades
que a escola encontra, hoje, para dar conta do que a ela atribuem. A questão
central não é a mudança em si, mas o modo como nos
preparamos para enfrentá-la ou aproveitá-la. Está
na hora de praticarmos com mais afinco o que costumamos dizer aos alunos
e às alunas: aprender sempre é o que mais impede que nos
tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas,
não saberíamos enfrentar. Temos um "defeito" natural
que acaba por se tornar nossa maior vantagem: não nascemos sabendo.
Por isso, aqueles
ou aquelas entre nós que imaginarem que nada mais precisam aprender
ou, pior ainda, que não têm mais idade para aprender, estão
se enclausurando dentro de um limite que desumaniza e, ao mesmo tempo,
torna frágil a principal habilidade humana: a audácia de
escapar daquilo que parece não ter saída.
Afinal, do nascimento
ao final da existência individual, aprendemos (e ensinamos) sem
parar; o que caracteriza um ser humano é a capacidade de inventar,
criar, inovar, e isso é resultado do fato de não nascermos
já prontos e acabados. Daí ser necessário rever nossa
concepção sobre a fonte da competência. Ora, nos tempos
atuais, ela é mais ainda uma condição coletiva. Até
algum tempo atrás, a competência era entendida como algo
individual; agora, tendo em vista a interdependência existente e
a profusão de novos saberes em uma velocidade cada vez maior, é
preciso pensar que, em um grupo, equipe ou instituição,
se alguém perde ou diminui a sua competência, todos no grupo
a perdem ou diminuem.
Nesse sentido, é
urgente que haja na organização do trabalho uma permeabilidade
de educação continuada, em que as pessoas estejam se educando
permanente e reciprocamente. Portanto, é necessária a criação
de um ambiente educativo, um ambiente pedagógico, no qual caiba
a possibilidade de as pessoas se ensinarem e aprenderem ao mesmo tempo
umas com as outras. Nessas organizações, devem imperar dois
princípios: "quem sabe, reparte" e "quem não
sabe, procura". Tudo isso nos coloca um desafio: a capacidade de
sermos mais flexíveis.
Porém, flexibilidade
é diferente de volubilidade. Ser flexível significa ser
capaz de, sem alterar seus princípios e valores básicos,
enxergar e viver a realidade de outros modos; por sua vez, ser volúvel
é mudar de posição ou opinião sem apoiar-se
em convicções e simplesmente deixar-se levar pelas circunstâncias
imediatas. A flexibilidade se caracteriza pela capacidade de romper amarras
e preconceitos que tornam alguém refém de uma condição
que, parecendo segura e confortável, pode ser indicadora de indigência
e fragilidade intelectual. Vale sempre lembrar a frase do fictício
detetive chinês Charlie Chan: "Mente humana é como pára-quedas,
funciona melhor aberta."