Mortes
em escola pública paulistana expõem barbárie dos
criminosos, medo dos alunos e insegurança dos educadores - lei
do silêncio impede denúncias e aumenta impunidade
Guaianases. Periferia
de São Paulo. Apesar de os moradores do bairro estarem acostumados
com a criminalidade, um novo tipo de violência vem assustando quem
vive na região: os crimes nas escolas. Um dos exemplos mais contundentes
é a Escola Municipal de Ensino Fundamental Madre Joana Angélica
de Jesus. Até o final da década passada, a escola era avaliada
por pais dos alunos, estudantes e representantes da prefeitura como uma
das melhores da periferia paulistana. "A gente não via nada
de errado por aqui. Era um lugar tranqüilo, sossegado", afirma
uma estudante de 15 anos.
O ambiente de paz
não existe mais na escola. O caso mais recente de violência
na Angélica de Jesus foi registrado no dia 12 de fevereiro passado.
Eram 19 h de uma quarta-feira. Aproximadamente 200 pessoas estavam na
frente do colégio quando três rapazes armados apareceram
e atiraram. "Foi terrível. Ouvia todo mundo gritando e pedindo
para que eles parassem de atirar. Fui atingido. Na hora, não doeu,
mas, depois, ardia sem parar." A frase, de um aluno de 13 anos, resume
a tragédia. Ele e outros sete adolescentes - com idades entre 11
e 17 anos - foram vítimas de balas perdidas durante uma briga de
gangues. Os autores dos disparos perseguiam um outro jovem que, horas
antes, teria matado um amigo do trio.
Os crimes assustaram
a comunidade. Muitos estudantes temem retornar às salas de aula.
"A gente vai para a escola e não sabe se volta vivo. Essa
situação até me desanima de continuar estudando",
lamenta um dos garotos baleados.
Retratos da barbárie
- O tiroteio do dia 12 é apenas um capítulo da novela de
violência protagonizada na Angélica de Jesus. No dia 1º
de abril de 2002, a diretora Edi Greenfield, de 52 anos, foi morta a tiros
no momento em que deixava a escola. Edi foi abordada por dois homens enquanto
abria seu carro. Nada foi roubado. Para pais e alunos, Edi foi vítima
de um acerto de contas - era famosa pelo jeito "linha-dura"
de lidar com traficantes que faziam da escola seu ponto-de-vendas. Suspeita-se
que ela tenha sido morta por um aluno insatisfeito.
Casos de violência
infelizmente não acontecem apenas na Angélica de Jesus.
No primeiro semestre do ano passado, as mortes em escolas paulistas já
haviam ultrapassado todas as ocorridas no ano de 2001 inteiro. De janeiro
até junho de 2002, pelo menos 13 pessoas perderam a vida dentro
ou até a 100 metros de uma escola. De janeiro a dezembro de 2001,
foram nove mortes.
Um dos casos ocorridos
em 2002 foi o assassinato de Marcos Laurentino da Silva, 18 anos, morto
a tiros em uma quadra esportiva ao lado da Escola Municipal Perseu Abramo,
em Diadema, Grande São Paulo. Em junho do mesmo ano, Elizabeth
Maria da Silva, 18 anos, foi encontrada morta em um terreno baldio localizado
na escola onde estudava, a Presidente Salvador Allende Gossens, em Itaquera
(zona leste de São Paulo). Em abril de 2002, a estudante Fabiana
dos Santos Silva, 17 anos, foi assassinada - com pelo menos seis tiros
à queima-roupa - por um rapaz que entrou na Escola Estadual de
Ensino Fundamental e Médio Professora Celestina Burrolem, em Santo
André (SP).
Especialistas e educadores
são unânimes em apontar o tráfico de drogas como um
dos principais responsáveis pela violência nas escolas. Uma
pesquisa da Organização das Nações Unidas
para Educação Ciência e Cultura (Unesco) reforça
a idéia de que as escolas estão se tornando um local propício
para a presença de bandidos. O estudo - o maior já realizado
na América Latina sobre o tema - mostra que 29% dos alunos da rede
pública e privada do Estado de São Paulo presenciaram colegas
ou pessoas estranhas portando armas de fogo ou facas dentro das escolas.
Desses, 4% disseram ter entrado armados em sala de aula. A pesquisa foi
realizada entre 2000 e 2002. Para integrantes da equipe que elaborou a
pesquisa, a criminalidade invadiu as escolas a partir de pequenos atos
como a pichação e a quebra de carteiras, a chamada "microviolência".
Ninguém
viu nada - O temor de denunciar a agressão sofrida dentro da
escola dificulta a solução do problema. A lei do silêncio
deixou de ser específica de guetos da periferia e passou a existir
com grande intensidade no ambiente escolar. Preocupado com os altos índices
de violência nas escolas, o governador de São Paulo, Geraldo
Alckmin, lançou o Plano Estadual de Segurança das Escolas.
A iniciativa deverá colocar nas ruas 471 carros destinados exclusivamente
à realização de ronda escolar e 860 policiais destacados
para o patrulhamento. Duas mil escolas com mais de mil alunos receberão
equipamentos de segurança e acesso ao serviço de patrulhamento
feito por empresas privadas. O documento de identificação
do aluno passará por modificações de forma a possibilitar
melhor controle de entrada e saída dos estudantes.
Além do trabalho
da polícia, discutir cidadania, diminuir o número de alunos
em sala de aula, integrar a comunidade local e dar voz aos alunos são
ações que compõem um pacote de medidas para coibir
as ações dos bandidos e diminuir a violência dentro
das escolas. "Se tudo o que os especialistas e o governo planejaram
der certo, a situação vai mudar", espera uma das vítimas
do tiroteio na Angélica de Jesus.