Consultora
da Unesco aponta diálogo como solução para violência
nas escolas e afirma que negociação entre traficantes e
educadores é necessária
Enfrentar tiroteio,
negociar com traficantes, denunciar abuso sexual dentro de uma escola,
ouvir as justificativas de agressores e relatos de alunos apavorados com
a violência. Com essas experiências, o trabalho da socióloga
Miriam Abramovay poderia ser considerado de altíssimo risco. Além
das dezenas de pesquisas educacionais que ela conduz, há sete anos,
para a Unesco - muitas delas transformadas em livros, como é o
caso dos recém-lançados Escola e Violência (162 págs.,
R$ 15) e Drogas nas Escolas (450 págs., é distribuído
gratuitamente) -, Miriam faz um extenso trabalho de campo. Para escrever
um dos mais contundentes documentos sobre a violência nas escolas,
ela passou questionários para 33 mil alunos de 239 escolas públicas
e 101 privadas, em 14 capitais brasileiras. Também f! alou com
pais e professores, além de fazer 2 mil entrevistas qualitativas.
Os dados foram expandidos para 4.600 milhões de alunos e, estatisticamente,
são válidos para toda a população escolarizada
das capitais. Seu raio X da violência é estarrecedor: mais
da metade dos alunos que sabem onde e de quem comprar armas (55%) também
acha fácil obtê-las perto das escolas. Miriam aponta ações
simples para diminuir a violência, como criar um disque-denúncias
ou intensificar a iluminação pública próxima
à escola. E acredita que investir no diálogo ainda é
o melhor caminho.
Revista Educação
- Por que ainda não apareceu uma grande iniciativa para evitar
a violência nas escolas?
Miriam Abramovay
- Principalmente porque só agora conseguimos quantificar o
problema. A violência nas escolas já existia, mas antes era
transparente: não estava em números nem em depoimentos.
Transformá-la numa ampla pesquisa torna-a mais real. Também
aumentou a cobertura que a imprensa vem fazendo, divulgando experiências
de intervenção, projetos de mediação e tipos
de diálogos.
Educação
- Sua pesquisa mostra que há mais violência nos arredores
da escola do que dentro dela. Como evitar que essa violência invada
as salas de aula?
Miriam - Também
há muita violência dentro da escola. Alunos entram com armas,
há brigas de gangues, espancamentos, ameaças reais, estupros,
vinganças. Existe de tudo, desde situações mais simples,
como furar o pneu do carro do professor, até ameaçar matar
alguém da família. Pode ser a razão mais banal do
mundo - a nota num exame, a forma de olhar, não importa. E os alunos
ameaçam muito mais os professores do que o contrário.
Educação
- O livro Escola e Violência leva em consideração
"dimensões socioculturais e simbólicas" da violência.
Quais seriam essas dimensões?
Miriam - Dimensão
simbólica é tudo o que não está tão
claro. Por exemplo: você é negra, as pessoas podem passar
por você e nem olhar na sua cara. Isso é uma atitude simbólica
de desprezo que não precisa ser clara. O racismo é um exemplo
típico de violência simbólica. Mas existem muitos
outros tipos. Há a violência institucional da própria
escola, que, às vezes, aparece na forma de ameaças veladas,
na relação entre professor e aluno. Há casos mais
diretos, coisas do tipo "ou você me dá a nota ou eu
te dou um tiro". Conheço professores que tiveram de tirar
licença por causa de ameaças de alunos. Essa violência
institucional também se apresenta na exclusão social que
a escola cria. A escola brasileira é profundamente excludente,
causa uma frustração enorme no aluno que não pode
continuar os estudos ou que não c! onsegue entrar na universidade.
Educação
- O que precisa ser feito nas escolas para reverter quadros graves de
violência como os que ocorreram na Escola Municipal Madre Joana
Angélica de Jesus, em Guaianases?
Miriam - Não
depende somente do Estado, mas muito do que acontece dentro da escola.
Temos de lembrar que, felizmente, a questão da morte nas nossas
escolas não é uma coisa que se dá no cotidiano. Claro
que existem drogas, tráfico, conflitos. Há momentos em que
o poder público tem de atuar com mais decisão. Afinal, ele
está aí para proteger e defender. Não sei como toda
essa problemática da violência entrou nessa entidade em questão,
mas sei que as escolas que protegem seus alunos são localidades
onde existe menos violência. Claro, isso não é fácil.
Estamos lançando um trabalho nessa área, o Observatório
Sobre Violência nas Escolas. O material que preparamos mostra como
pessoas de fora da escola podem ensinar a se conversar - porque, muitas
vezes, escolas dominadas por atos violentos perderam essa capa! cidade
de dialogar.
Educação
- Violência e drogas andam juntas nas escolas?
Miriam - Veja
bem, há escolas que têm alunos traficantes e escolas que
têm alunos usuários de drogas. São duas coisas diferentes.
Não acho que droga e violência andem juntas, acho que são
dois fenômenos paralelos. Droga não é a principal
causa da violência nas escolas. O tráfico, sim, é
grave - é a forma mais organizada da venda de drogas. Uma escola
pode ter chegado a índices altíssimos de violência
por causa do tráfico. Mas isso é diferente do uso de drogas.
Evidentemente, o tráfico é uma forma de violência,
de desmoralização. Muitas vezes, a escola faz vista grossa.
Alguma medida tem de ser tomada. O grande problema que encontramos nas
pesquisas do livro Droga nas Escolas foram as drogas lícitas e
não as ilícitas. E não adianta dizer que a droga
é uma porcaria, porque não é - é bom, senão
eles não usariam. Conversar é muito mais efetivo. Já
a questão do tráfico é nacional, complicada. Ultrapassa
completamente as barreiras da escola.
Educação
- Os professores negociam com os traficantes?
Miriam - Sem
dúvida, os diretores negociam com a bandidagem. Há escolas
que estão no meio do tráfico, então, a diretora tem
de ter um certo nível de negociação. Uma diretora
de Salvador, super corajosa, viu um menino armado dentro da escola. Foi
andando devagar, na frente dele, com a mão estendida, dizendo:
"Estou chegando, deixa a arma no chão." O garoto colocou
a arma no chão e saiu da escola. Depois de 15 minutos, os traficantes
entraram - queriam saber o que aconteceu. A diretora explicou e o sujeito
vira para ela e diz: "A partir de hoje, não entra arma aqui
e você não vai mais ter problema." Ela foi categórica:
"Essa escola é minha. Você pode até mandar lá
fora, mas aqui dentro quem manda sou eu."
Educação
- Você já sofreu alguma ameaça?
Miriam - Muitas
vezes. Uma vez, estávamos numa escola carioca, dando capacitação
para 300 professores. Um policial matou alguém do morro e os traficantes
deram 15 minutos para a gente esvaziar a escola. Se não fizéssemos
isso, diziam que haveria guerra. Imagine o que é tirar, em segurança,
em apenas 15 minutos, 300 pessoas de uma escola. Já aconteceu,
também, de descobrirmos atos de violência sexual dentro de
escolas. Nós denunciamos.
Educação
- Em muitas escolas que sofrem atos constantes de violência se observa
a lei do silêncio: ninguém denuncia com medo de retaliação.
O que é possível fazer?
Miriam - Todos
sofrem e têm de ajudar. Em julho vamos lançar o documento
Escolas Inovadoras. Recolhemos depoimentos em 140 escolas dos mesmos Estados
avaliados no Escola e Violência. Queríamos saber quais soluções
essas escolas encontraram. Descobrimos milhares de projetos que a gente
nem podia imaginar que existiam. Muitas escolas encontram saídas
para acabar com a violência. Nós demos a idéia de
criar um 0800 para as pessoas fazerem denúncias. Quando você
é assaltado ou violentado e não tem com quem falar, há
um sentimento de humilhação. É como se você
perdesse um certo grau de cidadania. Se a vítima puder denunciar,
ela fica com a auto-estima menos machucada.
Educação
- Até que ponto a polícia pode resolver o problema?
Miriam - Nem
sempre a polícia resolveria casos de violência em escolas.
E se fosse para chamar a polícia, não seria essa que existe
hoje, que causa terror e medo, mas não impõe respeito. Seria
uma polícia cidadã, que de alguma forma deixe claro que
alguém está olhando a escola, vendo quem entra e quem sai.
É preciso pensar em medidas que não sejam punitivas nem
repressivas. O diálogo é uma forma prioritária da
diminuição da violência. Quando a gente vai a campo
e conversa, todo mundo fala. Por que essas pessoas contam coisas íntimas
e perigosas para pessoas que nem conhecem direito? Porque sentem falta
de diálogo, não estão acostumadas a serem ouvidas.
Também observamos que é preciso ter luz e faixa de pedestres
na frente da escola. Outra sugestão é abrir as escolas nos
fins de semana, que é uma forma de env! olver a comunidade local.
A Unesco já faz isso, pelo programa Escola Aberta. Aliás,
a própria Unesco está sugerindo essa iniciativa como política
pública. O ministro Cristovam Buarque deu algumas declarações,
dizendo aos Estados a importância de adotar essa experiência
como uma política pública nacional. Mas isso tem de ser
feito diretamente, em cada um dos Estados.
Educação
- Os professores estão preparados para lidar com a violência
nas escolas?
Miriam - Ninguém
está. Mas acho que eles vão adquirindo estratégias
de sobrevivência. Existem saídas para diminuir a violência,
mas uma política clara, preventiva, é essencial. Não
adianta só botar detector de metais na porta das escolas - isso
foi feito nos Estados Unidos e não deu em nada. Circuito interno
de TV também não resolve. Essas coisas estão muito
ligadas às indústrias de venda desses aparelhos. São
Paulo e Rio têm muitas escolas com circuito interno de TV. Os estudantes
se sentem muito incomodados porque você está espiando o que
eles têm de mais importante que é a individualidade. E esse
aparato ainda dá pé para queixas do tipo "pô,
meu pai vem à escola e, em vez de falar das minhas notas, fala
de quem eu estava beijando".
Educação
- Casos de crianças que levam armas para a escola e matam os colegas
ganharam as páginas dos noticiários norte-americanos. O
Brasil corre esse risco?
Miriam - Não
são em todas as escolas brasileiras que isso acontece. Há
um certo exagero, a violência não está dizimando a
população escolarizada. Há brigas, há mortes.
Tudo isso incide sobre a aprendizagem. Evidentemente, num lugar desses
os jovens têm muito mais dificuldade de aprender e de se concentrar.
Quase 15% dos alunos levam armas brancas para a escola. Para eles, arma
é sinônimo de status, masculinidade, mostra que ele é
melhor e tem mais poder. Muitos alunos só levam armas para a escola
para se exibir. O problema é que a escola está muito envolvida
em ações violentas e há de tudo. Tem professora ou
aluna que é namorada de traficante, então há uma
certa condescendência. Todo mundo sabe e ninguém fala nada.