Tenho uma admiração
imensa por professoras de educação infantil e de séries
iniciais. Elas - quase sempre mulheres - lidam com o que há de
mais frágil e difícil na área. Na educação
infantil é comum encontrarmos salas com 25, 30 crianças
e cada uma delas é uma "bomba ambulante". Às vezes,
parece que é preciso chamar o Grupo de Ações Táticas
Especiais (Gate) ou o Corpo de Bombeiros, porque a professora vira para
cuidar de um aluno e outro cai aqui; ela corre atrás desse e outro
cutuca o olho do coleguinha. É sempre impressionante lembrar como
essas crianças são frágeis.
Quem já não
viu cenas como esta no ensino fundamental: a professora está saindo
para o intervalo e aí vê que ficou uma menininha na sala.
Ela está ali, quietinha na carteira, não saiu com os outros
alunos.
- O que foi? - pergunta
a professora.
- Não foi nada.
- Fala para mim o que aconteceu - ela torna, carinhosa.
E a garotinha continua
insistindo que não foi nada, até que a professora põe
a mão no ombro da criança. Detalhe: nós somos, com
freqüência, o único adulto que toca algumas crianças
durante o dia. Muitos pequenos não estão nem acostumados
a serem tocados e disso bem sabem professores de educação
física, porque são os que mais perto chegam dos nossos alunos.
Quando a professora
põe a mão no ombro da aluna, a garotinha se abre: "Minha
mãe disse que meu pai foi viajar e vai demorar muito para voltar."
A professora entende e fala: "Vem comigo, vou mostrar uma coisa."
Cria-se uma dependência; aonde a professora vai, a menina vai atrás,
grudada na saia ou no guarda-pó, dizendo "tia, tia".
Por que ela vai junto? Porque encontrou algum lugar. Como lembraria o
grande Guimarães Rosa "a vida é grande sertão,
mas tem veredas", e as veredas estão no outro.
Quantas vezes você
presenciou, às 11 da noite, no estacionamento da escola, um professor
conversando com aluno de 15, 16 anos? Em vez de ir para casa, o professor
ficou ouvindo o aluno contar que está desesperado, que a namorada
engravidou e ele não sabe o que fazer.
Ou, então, você está no intervalo e os alunos estão
atrás, aos montes, gritando "professora, professora".
Depois de um dia assim,
já imaginou, 11 da noite, seu filho vem pedir para você tomar
a lição dele e você quase agarra o inconveniente pelo
pescoço e diz: "Estou por aqui (dedo em riste, na garganta)
de criança, não agüento mais." Onze horas da noite,
você quer ir dormir - não quer saber de filho que vem pedir
ajuda. É por isso que, de maneira geral, filhos de educadores não
são necessariamente geniais na escola; a gente não tem muita
paciência pedagógica com eles. É criança demais
para se preocupar, o dia inteiro.
É vida demais
à nossa volta. E é o tempo todo. É vida transbordando
vida o dia inteiro. Atenção à palavra transbordar,
que quer dizer ir além da borda, ser incontido e ilimitado. Nós
somos incontidos, vivemos em voz alta. Transbordar não significa
só alegria, elogio, emoção, mas também tristeza,
bronca e chatice. Mas, retomando uma deliciosa obviedade: nossa profissão
lida com gente. Você quer coisa mais complicada do que gente? No
entanto, consegue largar? Consegue? Então, que pena, já
passou dos limites e está na hora de fazê-lo.
*Professor
de pós-graduação em educação (Currículo)
da PUC-SP.