Desconhecimento
e preconceito ainda são entraves para que grupos juvenis atuem na escola
e na comunidade
"O
'Rato' levava um rap legal. A gente nem era muito amigo, mas acabou se
conhecendo nas rixas de rap da escola. Aí formamos o grupo Revolução",
conta Danilo Nascimento Batista, 17 anos, estudante do ensino médio.
Há 7 meses, seu grupo participa do Posse, Poder e Revolução,
na periferia da zona Sul de São Paulo. Trata-se de um espaço
criado por jovens ligados ao Hip Hop (movimento cultural que une as expressões
artísticas do break, grafite e rap).
A organização
promove atividades, muitas vezes em conjunto com escolas, para tentar
melhorar as condições de vida dos moradores do bairro. Atualmente,
procuram um espaço físico para uma biblioteca na comunidade,
já que a mais próxima fica a 20 minutos de ônibus.
Mais de mil livros foram adquiridos por meio de uma campanha local.
"Há pouco
tempo, numa escola, a gente fez discussões sobre preconceito racial
e problemas da favela; terminamos com uma apresentação de
rap", relata. As atividades cativaram professores de escolas vizinhas,
que chamaram o grupo para multiplicar a experiência.
"Esses grupos
surgem, na maioria das vezes, na periferia, num contexto de extrema exclusão
social, em que pessoas começam a se reunir para discutir as próprias
condições de existência", explica Francisco Nascimento
de Brito, sociólogo e assessor da área de juventude da ONG
Ação Educativa. Ele estima que existam entre dez e vinte
mil grupos juvenis espalhados pela cidade de São Paulo.
O Posse, Poder e Revolução
é um exemplo de como alguns grupos juvenis deixaram de representar
problemas para os educadores. Hoje, buscam atuar junto à escola
e à comunidade e estão cada vez mais organizados e articulados.
"Assim como a escola não é panacéia para os
problemas da comunidade, os grupos juvenis percebem que também
não são, isoladamente", conclui Brito.
Em janeiro desse ano,
37 grupos, representando cinco estados, se encontraram em Pernambuco para
discutir a atuação dos jovens em áreas como saúde,
trabalho, política e educação. O resultado final
das discussões foi a fundação do Fórum Nacional
de Juventude, que pretende ser um ponto de encontro para o compartilhamento
de experiências de grupos juvenis.
Mas a criação
de uma dinâmica que incorpora a demanda dos jovens e as expectativas
dos professores nem sempre é fácil. A integração
entre os dois segmentos é fator fundamental para o êxito
de qualquer experiência.
Segundo Milton Alves
Santos, 24, participante do Fórum Nacional de Juventude, para derrubar
as barreiras de participação dentro das escolas é
preciso mudar a imagem social que os educadores têm em relação
aos grupos juvenis. Para Santos, até pessoas tidas como esclarecidas
ainda tendem a relacionar a figura do jovem a imaturidade e desorganização.
Ele ressalta que a escola, muitas vezes, não sabe da existência
dos grupos e que "essa ausência de legitimação
estimula a exclusão".
Com o objetivo de
aproximar o universo juvenil dos profissionais da educação,
e vice-versa, a Ação Educativa criou o projeto Culturas
Juvenis - Educadores e Escolas. A iniciativa pretende eliminar preconceitos
que entravam as ações conjuntas e promover a melhoria da
qualidade de ensino e o fim da exclusão na escola.
O projeto envolve
cinco grupos e doze educadores de seis escolas públicas de São
Paulo. Os jovens produzem mensagens em vídeo para os educadores,
explicitando suas necessidades, enquanto estes criam, com base na temática
e na demanda do grupo em questão, um projeto de intervenção
na sociedade.
Para Alex Buzeli Bonomo,
19 anos, membro do grupo Coletivo Ascaso, em que predominam punks e anarquistas,
a estrutura do ensino no país é um outro entrave para a
ação dos grupos juvenis. Segundo ele, não há
nas escolas uma cultura de participação. Além disso,
a rigidez do ensino, em que o professor tem um roteiro preestabelecido
de conteúdos para ministrar, também afasta a possibilidade
de envolvimento do jovem.
Formado há
um ano, o Coletivo Ascaso desenvolve atividades culturais e promove debates
sobre história e educação. Para Bonomo, o preconceito
e a falta de informação sobre os grupos ainda são
empecilhos para a atuação. "Evitamos assumir nossa
postura em função disso", afirma.
Respeito, igualdade
e diversidade são justamente os temas discutidos nas oficinas de
grafite realizadas em escolas públicas pela União Grafite.
Para Giovaldo José de Jesus, o Gejo, muitos professores não
gostam de ter membros da comunidade na escola. A comunidade, por sua vez,
acaba preservando a idéia de que a escola pertence ao professor,
diretor e funcionários. "Em uma das escolas que atuávamos,
os professores se reuniram para afastar a coordenadora que havia permitido
nossa ação", exemplifica.
Gejo afirma também
que os professores, na maioria das vezes, não compreendem com profundidade
as idéias dos grupos juvenis. A escola convida o grupo, mas quer
determinar o que os jovens devem desenhar. Segundo ele, isso vai contra
os princípios do grafite. "O grafite é uma forma de
expressão da juventude, você não pode esperar que
uma pessoa que apanha em casa e na rua queira usar o grafite para desenhar
a Turma da Mônica", explica.
Entretanto, nas escolas
em que conseguiu realizar um trabalho em conjunto com professores e direção,
os resultados positivos estimularam o respeito dos estudantes ao espaço
e modificaram a relação professor-aluno. "Uma das escolas
que grafitamos nunca mais teve problemas com depredação
e pichação."