Colocação
de pronomes oblíquos no Brasil arrepiaria qualquer português
bem-educado
"Para mandar-me
a mala preta", diz o português naturalmente. "Eu vejo-te
amanhã na paragem do eléctrico", "Não tragas
os putos à festa que eles hão de pôr-te em apuros",
"Terminaste nosso trabalho? O professor pediu-no-lo para amanhã.
Trar-mo-eis amanhã?"
Assim tratam os portugueses
os pronomes oblíquos átonos. E o fazem sem esforço,
com o respeito que a velha língua exige deles e exigia dos brasileiros
("brasilairos", para quase todos eles). É a ênclise
ao verbo (colocação do pronome depois do verbo) ou a mesóclise
(colocação no meio). No Brasil, mesmo em textos mais ou
menos formais, coloca-se naturalmente o pronome antes do verbo (próclise),
mesmo que não haja palavras que o atraiam: palavras negativas,
quês, conjunções, etc.
"Para me mandar",
diz o brasileiro naturalmente. "Me deixe só" . "Eu
te vejo amanhã" ou "Te vejo amanhã", (se
em São Paulo). "Eu lhe vejo amanhã", (No Rio em
parte do Nordeste). "Não traga as crianças à
festa que elas vão levar você à loucura." Ou:
"Vê se não traz as crianças pra festa pra não
ter amolação", "Quero lhe dizer uma coisa",
"Terminou nosso trabalho? O professor o pediu para amanhã.
Você me traz o trabalho amanhã?"
Claro que alguns desses
exemplos são de linguagem oral, coloquial, informal e não
se registram na linguagem culta, principalmente escrita, ainda que a noção
de "culto" seja um tanto indefinida. São casos de arrepiar
português fino ou purista empedernido pela colocação
agramatical às vezes e ingramatical outras. E por misturar pronomes
de uma pessoa com formas verbais de outra. E o mesmo arrepio que lá
sentem muitos à invasão das novelas "brasilairas"
com sua "linguagem bárbara" que já deixa marcas
para desgosto deles.
Convém lembrar
também diferenças fonéticas (de som), marcadas ou
não por acento. Atômico, bebê, bônus, econômico,
efêmero, gênero, gênio, metrô, sêmen, tênis,
tônico e muitas outras formas fechadas são as preferidas
no Brasil. Lá, atómico, bebé, género, tónico
e outras tantas. Pode-se lembrar também que a pronúncia
de vogais, como o primeiro "a" de "para" e o "e"
de "que", é fechada em Portugal e aberta no Brasil.
Em Portugal e em países
de língua portuguesa da África também continuam em
vigor as letras c e p em certas seqüências consonantais interiores
não usadas aqui, e, sim, lá, embora não proferidas:
acção, adopção, afectivo, actual, direcção,
exacto, óptimo, etc. Há também as consoantes pronunciadas,
desusadas no léxico brasileiro: amígdala, amnistia, carácter,
facto, sector, sumptuoso, exemplos de uma longa relação.
Este revoar sobre
diferenças lingüísticas apenas belisca o assunto e
serve para mostrar que o português do Brasil é mais receptivo
a novidades e a transformações do que o de Portugal. Aqui,
mais influências cruzadas por migrações e imigrações
no país enorme? Pobreza que reduz o ensino a um espectro grotesco
do que deveria ser? Por isso, falta de lastro cultural? Menos orgulho
da própria cultura do que os portugueses, que resistem melhor à
invasão de americanismos desnecessários?
Pode-se escolher uma
causa ou somar todas e acrescentar mais algumas. No entanto, é
bom lembrar que as línguas se interpenetram e se modificam todos
os dias. Elas tendem a enriquecer-se e a simplificar-se.
O facto, como dizem
os lusos, é que, embora seja o mesmo doce Português, a língua
de cá difere um pouco da de lá. E não há mal
nenhum nisso.