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No silêncio do Oceano Atlântico João Marcos Rainho Escolas brasileiras participam de atividade internacional da Unesco sobre rota marítima percorrida pelos escravos africanos Leia
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A história do tráfico negreiro no oceano Atlântico está sendo resgatada por estudantes secundaristas em todo o mundo, inclusive brasileiros, graças à Unesco - órgão das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura. O objetivo é desmistificar a imagem dos povos africanos como raça sobrepujada pelos europeus e valorizar a contribuição cultural e artística do negro para a civilização. "O negro só aparece nos livros escolares como sub-raça, passiva, sem cultura e escravizada. Queremos alertar professores e jovens para que mudem essa abordagem preconceituosa", explica Joel Rufino, coordenador do projeto no Brasil. Estudantes que vivem em países com alguma relação com o tráfico de escravos no oceano Atlântico fazem pesquisas locais e trocam informações com colegas do mundo todo. O trabalho, iniciado no ano passado, deve prosseguir até 2003, quando a Unesco pretende lançar um livro com o resumo das experiências e incorporá-las dentro de um estudo maior, sobre a história do Oceano Atlântico. Todas as escolas envolvidas participam da rede PEA - Programa Escolas Associadas da Unesco. Além da Rota dos Escravos, o PEA propõe diversos temas anuais para serem estudados e debatidos em todo o mundo, como por exemplo, 1999 - Ano Internacional do Idoso e 2000 - Ano Internacional da Cultura da Paz. A Unesco é representada no Brasil por Vera Costa Gissoni, chanceler da Universidade Castelo Branco (RJ), que cadastra as instituições interessadas e coordena todas as atividades no País. Fazem parte do PEA/Brasil 140 escolas (6.200 no mundo). "Estimulamos as instituições de ensino a adotarem uma postura inovadora dentro do que exige os Parâmetros Curriculares", divulga Vera Costa de Gissoni, coordenadora nacional do PEA. "Nosso foco é desenvolver a cultura da paz, situando os alunos como cidadãos e seres humanos", complementa. A coordenação do PEA-Brasil, sediada na Universidade Castelo Branco, organiza encontros nacionais com os participantes e fornece assessoria técnica-pedagógica, através de um roteiro de pesquisa pré-estabelecido.O tema relativo a escravidão está nas mãos do professor Joel Rufino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro do Comitê Internacional da Rota dos Escravos. "O Brasil terá uma presença marcante, devido a forte influência da cultura negra em nossa sociedade", prevê Rufino. "Os jovens precisam entender que os seres humanos são semelhantes. Nos diferenciamos não pelo patrimônio genético, somos apenas populações diferentes. Entretanto, existem pessoas que usam essa distinção para dominar os outros", critica. "A questão de que os poderes econômicos e político diminuem o racismo é uma meia verdade", continua o professor. "Estereótipos racistas começam na puberdade e se fortalecem durante a juventude e idade adulta". "A importância do ensino sobre o tráfico negreiro nas escolas como um dos maiores eventos históricos do planeta não tem sido suficientemente reconhecida pelos educadores", critica a professora Aurora Borges, coordenadora regional do PEA-RJ, ressaltando que "o tráfico de escravos conduziu-nos à formação das diásporas em toda parte do mundo atlântico, com aspectos positivos e negativos". Aurora resume a pretensão do programa: através de um exame coerente e compreensivo dos estudantes, viria a compreensão da grandiosa magnitude histórica e do significado da contribuição dos africanos para o mundo moderno". A recomendação para as escolas é envolver alunos do ensino fundamental e médio em atividades multidisciplinares, abordando aspectos históricos, geográficos, ecológicos, políticos e culturais. "O processo educacional também irá contribuir para reparar o desequilíbrio acadêmico que existe a respeito do ensino e da aprendizagem sobre esse episódio histórico e seu processo", avalia Joel Rufino. O professor considera que, sobre o assunto, inexistem obras para-didáticas de qualidade voltadas para essa faixa educacional: "O tema é mais debatido na universidade. Queremos transformar o conhecimento acadêmico em pedagogia". No início do ano passado e deste ano a Unesco, através da Coordenação Nacional, enviou um questionário a todas as escolas participantes para avaliar o grau de conscientização dos jovens sobre o problema da escravidão negra. A cada ano, questionários diferentes serão respondidos para checar o progresso com as pesquisas. A atividade da Unesco não prevê qualquer tipo de premiação em dinheiro aos participantes. "Os colégios, sim, podem criar prêmios de estímulo à pesquisa para seus alunos", recomenda Rufino. O que na prática pode incluir até uma viagem internacional, como aconteceu com o aluno Divannir Ribeiro Barille, da segunda série do ensino médio do Colégio do Carmo (Santos, SP). Ele esteve em agosto de 1999 em Dakar (Senegal, África), no Fórum Transatlântico de Jovens, patrocinado pela Unesco, acompanhado pela diretora pedagógica de seu colégio, Neide Smolka. "Apresentamos a experiência do Colégio do Carmo", informa Neide, que, além de um certificado internacional recebeu uma jóia africana em bronze devido a um minucioso estudo de fatos relativos à escravidão. O encontro contou com a participação de 160 representantes de mais de 50 países da Europa, África, América Central e Caribe e América do Sul - sendo o Brasil, através do Carmo, o único país do continente a marcar presença no Fórum. No colégio do Carmo, professores, alunos e pais foram envolvidos em atividades culturais mostrando o papel do negro na sociedade brasileira. Entre os eventos, aconteceu a "Noite da Comida Africana", com pratos típicos, dança e música folclóricas. "Nossos estudantes realizam pesquisas diversas na cidade a procura de fontes sobre o período da escravidão", destaca Álvaro Pereira Pinto, vice-diretor do Carmo. Uma das linhas de pesquisa está voltada ao quilombo do Jabaquara, local que no século passado abrigava escravos fugitivos com a conivência de abolicionistas. "Santos foi pioneira na luta contra a escravidão, sendo conhecida na época como a cidade da liberdade e da caridade", orgulha-se Pereira Pinto. Vários estereótipos estão sendo descobertos pelos alunos. "A Casa da Cultura Negra em Santos não comemora o dia da libertação dos escravos no 13 de maio, pois consideram como data nacional da raça o dia do Zumbi, o líder dos quilombos, em 20 de novembro", exemplifica o vice-diretor. "A questão dos escravos é tão dolorosa como o holocausto, mas ao contrário do que acontece com o povo judeu, pouca gente no mundo dá a devida importância ao ocorrido com os negros", declara Cácia Rehen, coordenadora de 5ª e 8ª séries do CEI - Campus de Educação Integrada (Jequié-BA), escola participante da Rota dos Escravos. Os alunos do CEI debateram a questão do racismo e da escravidão a partir do filme Amistad, de Spilberg. Professores de História envolveram-se no resgate dos fatos da época e os de Educação Artística trabalharam em sala de aula com arte cênica. "Montamos oficinas de teatro para reviver o drama da escravidão. Pesquisamos ainda a influência dos negros na cultura, arquitetura, música e culinária na Bahia", lembra Cácia. Os alunos também discutiram a proposta, levantada por escolas de outros países, sobre a possibilidade dos países envolvidos com o tráfico de negros pagarem uma indenização à África. "Mas nossos estudantes acharam que não era uma questão de dinheiro, e sim de redimir os fatos", esclarece a professora. A escola envolveu no tema alunos da 7ª e 8ª séries, mas toda a escola, do pré ao último ano do ciclo básico, participa de atividades relativas aos 500 anos do descobrimento do Brasil, onde incluíram a rota dos escravos como uma das atividades. No Maranhão, o Centro Educacional Montessoriano Reino Infantil fugiu do enfoque estritamente histórico: "Nossos alunos discutem o negro como indivíduo humano", diz Socorro Nauseu, diretora da escola, que envolveu estudantes da 1ª série do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. "Realizamos uma feira cultural sobre a África, com decoração apropriada, capoeira, música, peças teatrais, exposição de bonecos e barracas com comidas típicas. Durante um mês tocamos músicas africanas todos os dias durante o período do recreio. Nosso estado tem uma forte influência da cultura afro, com um folclore muito rico. Promovemos ainda concursos de música, poesia, redação e maquetes sobre o tema, além de incentivar a pesquisa de campo". Os aspectos trágicos foram substituídos pelo resgate da cultura: "Não queremos abordar a escravidão com um pensamento focado na pobreza e sofrimento, o que transmite uma idéia parcial sobre o povo africano. Estamos mostrando a parte alegre, culta, desenvolvida da África".
Fontes históricas valorizam influências africanas na formação da cultura ocidental Doutora em Letras e Educação, a professora Neide Smolka, diretora pedagógica do Colégio do Carmo, está fazendo uma minuciosa pesquisa sobre a cultura negra e o período da escravidão para subsidiar os professores envolvidos no projeto da Unesco. A escravidão foi um dos períodos mais trágicos da humanidade. No período de 400 anos escravizou milhares de homens, mulheres e crianças e o Brasil - que recebeu forte influência da cultura africana - foi o último país a libertar seus escravos. "Cinco séculos antes de Cristo, Heródoto já mencionava os africanos, especificamente os etíopes do Norte e do Sul, que compunham o exército grego", informa Neide. "A influência negra na civilização ocidental é marcante. Mais do que isso, os cientistas concordam que na África surgiu o primeiro ser humano". Na época da escravidão a África estava em pleno regime feudal e as diversas nações negras guerreavam entre si. Os príncipes e nobres derrotados eram vendidos como escravos, junto com a plebe, explica a professora. O Brasil recebeu muitos escravos cultos, que se estabeleceram nas casas de fazendeiros, principalmente na Bahia. Os escravos mais "embrutecidos" eram enviados para as lavouras de café nas regiões Sul e Sudeste. A Bahia foi favorecida nesse processo, ganhando uma riqueza cultural enorme. Nesse estado, por exemplo, existe o único curso superior em línguas africanas no Brasil. "Os líderes dos quilombos eram pessoas de origem culta, ao contrário do que supõe muita gente", continua Neide Smolka. "A resistência dos negros era comandada por gente preparada e muito consciente de seus direitos". Sobre a influência da cultura negra na formação do povo brasileiro, ela acrescenta: "A presença negra exerce forte influência na cultura, religião e política". E relaciona: "O samba, o carnaval, os esportes, o batuque, a umbanda , a capoeira, o candomblé e principalmente a mulata brasileira, reconhecida universalmente como a representação de um dos mais belos tipos de mulheres do mundo. A Ilha de Gorée, próxima ao litoral de Dakar, Senegal, é considerada hoje um patrimônio universal pela Unesco. Ali era o local onde os escravos negros vendidos aguardavam o embarque nos navios para os continentes, e as construções da época foram restauradas. Ao participar do 1º Fórum Transatlântico de Jovens, ano passado, em Dakar, Neide Smolka ficou convencida que o acervo cultural dos países africanos e nos colonizadores europeus é muito fraco: "Nunca se preocuparam com esse levantamento histórico, cultural e econômico. Muitas nações não querem levantar o que há debaixo de seus tapetes".
QUEM O QUÊ 2a. Etapa QUANDO? ONDE? POR QUÊ? 2a. Etapa COMO? Unesco promove educação contra a violência, pela paz e democracia A criação do Programa Escolas Associadas (PEA) da Unesco, em 1953, constituiu-se em passo importante nas ações da organização dirigidas a contribuir para a transição, da atual cultura da violência, para uma cultura de paz e democracia. Começando com 33 escolas, em 15 países, o PEA cresceu e transformou-se em uma rede importante de 6.200 instituições em 165 países, abrangendo escolas maternais e dos ensinos fundamental e médio, bem como escolas técnicas e profissionalizantes, até instituições de aperfeiçoamento de professores e universidades. A Unesco oferece aos professores possibilidade de participar de projetos experimentais para aperfeiçoar o ensino da educação para a paz, dos direitos humanos e da democracia, através da melhoria do conteúdo educacional, dos métodos e matérias utilizadas. A Unesco também oferece oportunidade aos professores de compartilhar idéias e experiências com outros colegas do mundo todo. "Os professores são os agentes principais para a mudança no clima de tensão e conflito; são eles que são capazes de modificar atitudes e conduzir os jovens de um sentimento de suspeita à receptividade e tolerância", discursou Sigrid Niedermayer-Tahri, secretária da Unesco, em reunião recente de escolas associadas em Kbar-Sava, Israel. |
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